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Religião

Universal aluga nove estádios para evento nacional para demonstrar peso político

Igreja do bispo Edir Macedo faz mobilização contra o Planalto na preparação de evento histórico na Semana Santa
Por O Correio de Hoje
13/03/2026 | 16:34

A Igreja Universal do Reino de Deus prepara uma mobilização de grande escala para a Sexta-feira da Paixão, em 3 de abril. A denominação fundada pelo bispo Edir Macedo alugou nove estádios de futebol em diferentes regiões do País para realizar o evento religioso “Família ao Pé da Cruz”. Segundo apuração de Thiago Prado, do jornal O Globo, entre as arenas reservadas estão o Maracanã, no Rio de Janeiro, a Neo Química Arena e o Pacaembu, em São Paulo, o Mané Garrincha, em Brasília, a Arena do Grêmio, em Porto Alegre, a Fonte Nova, em Salvador, o Independência, em Belo Horizonte, o Mangueirão, em Belém, e o Albertão, em Teresina.

A expectativa é reunir grandes públicos em cada um desses locais na tradicional celebração realizada na semana da Páscoa. A dimensão da iniciativa também tem sido interpretada como demonstração de força política da igreja, que mantém ligação direta com o Republicanos, partido presidido pelo deputado federal Marcos Pereira, bispo licenciado da Universal.

Bispo Edir Macedo
Bispo Edir Macedo durante pregação no Templo de Salomão, da Igreja Universal do Reino de Deus, em São Paulo - Foto: Reprodução

O bispo Renato Cardoso, genro de Edir Macedo, apontado como possível sucessor do líder religioso, reforçou esse tom ao divulgar o evento nas redes sociais. Em um vídeo, ele descreveu a mobilização como “a maior lata de conservas da família”, expressão usada de forma irônica em referência à ala “Família em Conserva” do desfile da escola de samba Acadêmicos de Niterói no Carnaval deste ano, que homenageou o presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) e fez sátiras com símbolos associados ao conservadorismo.

Apesar de pesquisas indicarem impacto limitado do episódio entre eleitores — levantamento recente do Datafolha apontou que 17% disseram ter se sentido ofendidos com a ala carnavalesca — lideranças evangélicas continuam citando o tema em críticas ao governo. Pesquisa da Quaest divulgada na semana passada mostrou que 61% dos evangélicos desaprovam a gestão de Lula, enquanto 33% manifestam aprovação.

Nos bastidores da política, o Republicanos demonstra insatisfação com o espaço recebido nas articulações para as próximas eleições. Tanto o PT quanto o PL têm priorizado negociações com outras legendas do Centrão. O senador Flávio Bolsonaro trabalha por uma aliança com a federação formada por União Brasil e PP e avalia nomes como Romeu Zema (Novo) ou Ratinho Júnior (PSD) para a vice. Já o Palácio do Planalto busca atrair o MDB para compor a chapa presidencial.

No Rio de Janeiro, reduto histórico da Universal, o partido também ficou fora das principais composições anunciadas até agora. O prefeito Eduardo Paes (PSD) e o secretário estadual das Cidades, Douglas Ruas (PL), ambos cotados para disputar o governo estadual, já apresentaram chapas com candidatos a vice e ao Senado sem contemplar o Republicanos.

A realização de eventos religiosos em estádios não é novidade entre igrejas evangélicas, mas a reserva simultânea de nove arenas é incomum. A operação envolve custos elevados. Em São Paulo, por exemplo, o Corinthians cobrou R$ 2,9 milhões da Igreja Batista Lagoinha para um evento realizado na Neo Química Arena em dezembro. Já o Pacaembu, hoje administrado pela iniciativa privada, cobra cerca de R$ 1,25 milhão para a realização de eventos no gramado.

Eventos desse tipo também costumam receber apoio financeiro de governos locais. O encontro da Lagoinha na Neo Química Arena contou com aporte de R$ 4 milhões da Prefeitura de São Paulo, administrada por Ricardo Nunes (MDB). No caso do evento da Universal, o governo do Rio de Janeiro, comandado por Cláudio Castro (PL), anunciou patrocínio de R$ 5 milhões para ajudar na montagem da estrutura no Maracanã.

A reportagem de O Globo mostra que a relação entre Lula e a Universal já passou por diferentes fases ao longo das últimas décadas. No fim dos anos 1980 e durante os anos 1990, Edir Macedo fez críticas duras ao então líder petista e chegou a usar o jornal da igreja, a Folha Universal, para associá-lo a religiões de matriz africana. A aproximação veio nos anos 2000, quando o bispo apoiou as campanhas de Lula e também as duas eleições de Dilma Rousseff, em 2010 e 2014.

Posteriormente, a igreja se alinhou à candidatura de Jair Bolsonaro em 2018 e 2022. Mesmo assim, o Republicanos manteve espaço no governo Lula ao assumir o Ministério de Portos e Aeroportos. No cenário atual, a sigla avalia manter neutralidade na eleição presidencial no primeiro turno e concentrar esforços nas disputas estaduais. Entre as apostas do partido estão o governador paulista Tarcísio de Freitas e o senador Cleitinho Azevedo, apontado como favorito na corrida pelo governo de Minas Gerais.

No Rio de Janeiro, o quadro ainda está em aberto. O ex-prefeito de Belford Roxo Waguinho Carneiro lançou pré-candidatura ao governo estadual, mas enfrenta dificuldades para consolidar apoio. O Republicanos também mantém conversas com o psiquiatra e influenciador digital Ítalo Marsili, que avalia filiação partidária para disputar o governo ou o Senado. Ele recebeu convites do Novo, do Avante e do Democracia Cristã.

Outra disputa interna envolve o deputado federal Marcelo Crivella, sobrinho de Edir Macedo e ex-prefeito do Rio. Crivella trabalha para voltar ao Senado e tem intensificado a pré-campanha, adotando posições alinhadas ao bolsonarismo e defendendo anistia aos envolvidos nos atos de 8 de janeiro. A direção do Republicanos, porém, prefere que ele dispute novamente a Câmara dos Deputados, onde costuma atuar como forte puxador de votos. A definição sobre esse impasse ainda deve ocorrer nos próximos meses.