A disputa presidencial de 2026 corre o risco de entrar para a história não pelo excesso, mas pela ausência de confrontos. Até agora, o primeiro turno teve apenas um debate televisionado — sem Luiz Inácio Lula da Silva e Flávio Bolsonaro — e caminha para registrar o menor número de encontros na TV desde 1998. O dado, levantado pela Folha, vai além de uma curiosidade de calendário: revela uma campanha em que os dois principais adversários preferem a segurança da distância ao risco do encontro.
Lula e Flávio não estão ausentes da campanha. Ao contrário: aparecem todos os dias. Falam em comícios, participam de entrevistas, divulgam vídeos, comentam fatos e atacam o adversário. O que falta não é presença. É o cara a cara. Eles se enfrentam nas redes, mas não diante do eleitor, sob regras comuns, com tempo limitado e sem a proteção da edição.

No ambiente digital, cada candidato é também diretor de sua própria campanha. Decide o enquadramento, a frase, a trilha sonora, o momento da publicação e o corte que será repetido até parecer definitivo. Lula pode responder a Flávio em um vídeo; Flávio pode devolver em outra postagem. Cada lado escolhe a pergunta que deseja enfrentar e ignora a que considera inconveniente. A tecnologia permite que os dois falem o tempo inteiro, sem que necessariamente conversem.
Esses são debates sem encontro. Não há um adversário diante do outro, mas versões cuidadosamente produzidas do adversário. Lula e Flávio deixam de tratar um ao outro como concorrentes com ideias a serem confrontadas e passam a operar, muitas vezes, com a figura de um inimigo abstrato: alguém a ser acusado, resumido e rejeitado. É mais simples atacar uma caricatura do que responder a uma pessoa. É mais eficiente alimentar uma torcida do que tentar convencer quem ainda está em dúvida.
O debate presencial quebra essa lógica. Ele tira o candidato de seu ambiente protegido. Não há como apagar uma resposta ruim, trocar de assunto com um clique ou escolher o melhor trecho antes de divulgá-lo. Há uma pergunta que não foi escrita pela campanha, um adversário que rebate, um mediador que cobra e um público que vê tudo ao mesmo tempo. Há, sobretudo, o desconforto do contraditório.
Esse desconforto não é defeito da democracia. É uma de suas maiores virtudes. Quem pretende governar precisa demonstrar como reage quando suas ideias são questionadas, seus números são confrontados e suas promessas exigem explicação. A Presidência não é uma sequência de vídeos bem editados. É o exercício de decidir sob pressão, administrar conflitos e responder por escolhas que atingem milhões de pessoas.
Do ponto de vista eleitoral, a ausência de Lula e Flávio nos debates é compreensível. Quem lidera as pesquisas tem pouco a ganhar e muito a perder em um confronto direto. Uma frase mal colocada, uma resposta evasiva ou uma provocação bem executada podem render dias de desgaste. A estratégia é preservar o candidato, manter a base mobilizada e evitar que o adversário conquiste uma cena marcante. Mas o que é racional para a campanha pode ser ruim para o eleitor.
Sem o encontro, a eleição se transforma em discursos paralelos. Lula critica Flávio para os seus. Flávio critica Lula para os dele. Um lado publica um recorte; o outro devolve uma montagem. As campanhas trocam “elogios” à distância, cada vez mais duros e mais eficientes para alimentar as próprias bases. O objetivo deixa de ser apresentar soluções e passa a ser confirmar que o outro representa uma ameaça.
A polarização prospera nesse ambiente. Ela simplifica o país em dois campos e transforma toda questão complexa em teste de fidelidade. Segurança pública, inflação, dívida, emprego, educação, política externa e desigualdade deixam de ser problemas a resolver. Viram munição. A pergunta já não é “o que você fará?”; torna-se “de que lado você está?”. E, quando Lula e Flávio não se submetem ao mesmo palco, cada eleitor fica com a narrativa que melhor confirma suas convicções.
Os debates não são perfeitos. Muitas vezes, descambam para gritaria, insulto e frase de efeito. Mas a solução para um debate ruim não é eliminar o debate. É torná-lo melhor. Menos armadilha, mais pergunta relevante. Menos cronômetro para a provocação, mais tempo para explicação. Menos interesse no corte que viraliza, mais cobrança sobre custos, prazos, prioridades e consequências de cada proposta.
Quem mais perde com a ausência do cara a cara é o eleitor sem lado declarado. Ele não é necessariamente desinteressado ou desinformado. Pode ser alguém que desconfia das promessas de Lula e Flávio, que não se reconhece plenamente em nenhum dos dois campos e que procura razões antes de decidir. Esse eleitor precisa comparar. Precisa observar quem responde e quem foge, quem explica e quem apenas acusa, quem conhece os limites de sua proposta e quem recorre a slogans.
Sem confronto direto, esse cidadão fica entregue a uma campanha fragmentada. Recebe conteúdos produzidos para despertar emoção, indignação ou medo. Os algoritmos fazem o restante: entregam mais do que prende atenção e menos do que amplia entendimento. Em vez de uma sociedade acompanhando os mesmos argumentos e chegando a conclusões diferentes, formam-se bolhas que enxergam apenas a parte da realidade que confirma suas convicções.
Lula e Flávio não precisam concordar, nem transformar a campanha em exercício de cordialidade artificial. Adversários existem para divergir, disputar projetos e defender visões opostas de país. Mas essa disputa perde qualidade quando os dois principais nomes preferem atacar de longe e evitam o momento em que precisam ouvir, responder e se explicar diante do outro. A polarização agradece: as torcidas se inflamam, os vídeos circulam e cada lado preserva sua própria certeza. O debate público, porém, encolhe. Não faltam inimigos nesta eleição. Falta encontro. E, quando o confronto de ideias é substituído pela guerra de versões, não é apenas o eleitor que perde. É a democracia.