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Editorial

A conta da reeleição, a nove dias do primeiro turno

A nove dias do primeiro turno, o governo Lula anunciou o Desenrola 3.0, com R$ 15 bilhões em recursos públicos, e assinou a medida provisória que proíbe as bets
Agora RN
25/09/2026 | 22:57

A nove dias do primeiro turno, o governo Lula encontrou mais R$ 15 bilhões para colocar na mesa. O Desenrola 3.0, anunciado nesta sexta-feira 25, prevê que a União compre de instituições financeiras dívidas antigas de famílias brasileiras, com deságio estimado em 90%. O estoque elegível chega a R$ 300 bilhões e o governo pretende alcançar metade desse valor. Se o desconto projetado for confirmado, serão R$ 15 bilhões de recursos públicos envolvidos na operação. É uma iniciativa de grande alcance anunciada justamente quando Luiz Inácio Lula da Silva enfrenta uma disputa eleitoral apertada.

O problema começa menos no mérito isolado do combate ao endividamento e mais no conjunto, na dimensão financeira e principalmente no calendário. Em 14 de setembro, pesquisa Quaest mostrou, pela primeira vez nessa rodada, Flávio Bolsonaro numericamente à frente de Lula em uma simulação de segundo turno: 42% a 40%, resultado de empate técnico pela margem de erro de dois pontos. No primeiro turno, Lula aparecia com 36% e Flávio com 31%. É nesse ambiente de aproximação do principal adversário que o governo acelerou anúncios capazes de produzir impacto direto sobre parcelas expressivas do eleitorado.

Presidente Lula fala ao microfone diante das bandeiras oficiais da Presidência
O presidente Lula: o Desenrola 3.0, anunciado a nove dias do primeiro turno, prevê R$ 15 bilhões em recursos públicos — Ricardo Stuckert/PR

O exemplo mais evidente veio há apenas oito dias. Lula reajustou o Bolsa Família em 15,04%, elevando o piso de R$ 600 para R$ 691 e o benefício médio para R$ 777. O custo adicional calculado pelo próprio governo é de R$ 5,8 bilhões ainda em 2026 e R$ 22,7 bilhões em 2027. Nenhum desses valores estava previsto originalmente no Orçamento deste ano ou no projeto orçamentário do próximo. O governo sustenta que houve apenas recomposição inflacionária e que há espaço fiscal para a medida. Ainda assim, será necessário alterar a programação orçamentária.

A lista é maior. Em 14 de setembro, Lula sancionou a prorrogação do Move Brasil Táxi e Aplicativos, programa com limite de R$ 30 bilhões em crédito subsidiado para motoristas de aplicativo, taxistas, entregadores e transporte escolar. Até então, R$ 5,1 bilhões já haviam sido desembolsados. Dias depois, o presidente anunciou que pretende oferecer gratuitamente pelo SUS as chamadas canetas emagrecedoras, proposta que ainda depende de avaliação da Conitec, definição dos pacientes elegíveis e disponibilidade orçamentária. O governo também avalia elevar o teto de faturamento do MEI, ampliar possibilidades de contratação para pequenos empreendedores e criar condições especiais de renegociação de débitos da categoria. Nesta sexta-feira, no mesmo evento do Desenrola 3.0, Lula assinou ainda medida provisória para proibir as bets no País, inclusive apostas esportivas e jogos on-line.

Vistas separadamente, várias dessas iniciativas comportam justificativas sociais e econômicas legítimas. O endividamento das famílias, por exemplo, é um problema concreto. O que merece escrutínio é a concentração dessas decisões de enorme apelo popular justamente na reta final de uma eleição em que o presidente disputa a própria permanência no cargo.

O volume também impede que o debate seja tratado como simples coincidência de agenda. Levantamento publicado pela Folha ainda em julho contabilizava 16 medidas anunciadas pelo governo no ano eleitoral, mobilizando mais de R$ 180 bilhões entre gastos, renúncias, garantias e linhas de crédito. Algumas não representam despesa primária equivalente ao valor anunciado, porque envolvem financiamentos e fundos garantidores. A distinção é importante. Ainda assim, são decisões que utilizam instrumentos, garantias ou recursos do Estado e que ganharam velocidade conforme a campanha avançou.

Somente duas das medidas recentes com impacto fiscal diretamente estimado já dão dimensão do problema. O reajuste do Bolsa Família acrescenta R$ 5,8 bilhões em 2026 e R$ 22,7 bilhões em 2027. O Desenrola 3.0 acrescenta outros R$ 15 bilhões, segundo a estimativa divulgada pelo governo. São compromissos que atravessam a eleição e alcançam o próximo exercício fiscal, qualquer que seja o resultado das urnas.

Esse episódio recoloca uma discussão mais ampla sobre o próprio instituto da reeleição. Quando quem administra a máquina pública também concorre para continuar administrando-a, decisões legítimas de governo passam inevitavelmente a conviver com interesses eleitorais. O governante dispõe da agenda oficial, da capacidade de anunciar programas, propor gastos, alterar políticas públicas e mobilizar a estrutura do Executivo enquanto pede votos. A legislação estabelece limites para reduzir essa vantagem, mas não elimina a zona de contato entre governar e fazer campanha.

É exatamente por isso que medidas bilionárias lançadas a poucos dias da votação precisam ser examinadas com rigor redobrado. Programas sociais e econômicos devem sobreviver ao calendário eleitoral, ter financiamento sustentável e demonstrar utilidade pública independentemente de quem ocupe o Palácio do Planalto. Quando uma sequência extraordinária de benefícios, créditos e novos gastos se concentra às vésperas da abertura das urnas, o debate deixa de ser apenas sobre cada política individualmente. Passa a ser também sobre os incentivos criados pela reeleição e sobre até que ponto o calendário eleitoral está interferindo nas prioridades e nas contas do Estado.