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Editorial

A conta da reeleição

Reajuste do Bolsa Família fecha uma sequência de 20 medidas que mobilizam cerca de R$ 193,8 bilhões no ano eleitoral; o calendário reforça a urgência de discutir o fim da reeleição
Agora RN
17/09/2026 | 22:29

A poucos dias do primeiro turno, o governo do presidente Luiz Inácio Lula da Silva acelerou a apresentação de medidas de forte apelo popular. A mais recente cartada foi o reajuste de 15% no Bolsa Família, anunciado a 17 dias da votação. O benefício mínimo passará de R$ 600 para R$ 691 e começará a ser pago em 19 de outubro, menos de uma semana antes do eventual segundo turno. O governo sustenta que a mudança apenas recompõe a inflação acumulada desde a reformulação do programa, em março de 2023, e que a medida respeita as regras fiscais e eleitorais.

O mérito social do Bolsa Família não está em discussão. O programa atende cerca de 19,3 milhões de famílias e ocupa papel relevante no combate à pobreza. O que chama atenção é o momento escolhido para o reajuste. Justamente quando a disputa presidencial se tornou mais apertada, surgiu o espaço fiscal que até então não havia sido encontrado.

Homem de chapéu e terno discursa atrás de púlpito com bandeiras ao fundo
Presidente Lula; governo anunciou reajuste de 15% no Bolsa Família a 17 dias do primeiro turno — Ricardo Stuckert/PR

Leia também: Governo reajusta Bolsa Família em 15%, e piso do benefício sobe de R$ 600 para R$ 691 em outubro

O impacto adicional será de R$ 5,8 bilhões ainda em 2026 e de R$ 22,7 bilhões por ano em 2027 e 2028. O governo terá de remanejar despesas e ainda não informou de quais áreas sairá o dinheiro. Portanto, mesmo quando se afirma que não haverá aumento do gasto total, permanece a pergunta essencial: quais políticas perderão recursos para abrir espaço ao benefício?

O reajuste encerra, por enquanto, uma sequência de iniciativas anunciadas ao longo do ano eleitoral. Um levantamento recente identificou 20 medidas que, juntas, mobilizam aproximadamente R$ 193,8 bilhões. Esse valor não corresponde integralmente a despesas diretas: inclui renúncias de receitas, subsídios, recursos de fundos públicos, garantias oferecidas a instituições financeiras e linhas de crédito. Ainda assim, não se trata de dinheiro abstrato. São recursos que poderiam financiar outras políticas, reduzir a dívida pública ou permanecer disponíveis para enfrentar emergências futuras.

Entre as principais ações estão o aporte de até R$ 15 bilhões no fundo garantidor do novo Desenrola, destinado à renegociação de dívidas; R$ 21,2 bilhões em crédito para a compra de caminhões e ônibus; R$ 10 bilhões para máquinas agrícolas; e cerca de R$ 30 bilhões para a renovação da frota de taxistas e motoristas de aplicativo. Também foram anunciados aproximadamente R$ 4 bilhões em financiamentos para motocicletas utilizadas por entregadores, além de R$ 5,3 bilhões para o Gás do Povo. Somente uma das etapas de contenção dos preços dos combustíveis exigiu desembolso de até R$ 16 bilhões.

Outras propostas seguem no horizonte. Auxiliares presidenciais discutem elevar gradualmente o teto de faturamento do Microempreendedor Individual para R$ 140 mil, com renúncia estimada em R$ 4 bilhões entre 2027 e 2028. O governo também prepara novas frentes para aliviar dívidas das famílias, insiste na aprovação imediata do fim da escala de trabalho 6×1 e procura ampliar o crédito para trabalhadores informais e profissionais de aplicativos. Completam a lista a renegociação de débitos dos próprios microempreendedores, com descontos que podem chegar a 70%, o reforço do Minha Casa, Minha Vida e a retirada da tributação sobre compras internacionais de até US$ 50, receita que poderia alcançar R$ 1,2 bilhão em 2026.

Cada uma dessas iniciativas pode ser defendida por seus objetivos sociais ou econômicos. Crédito pode renovar frotas e movimentar a indústria. A renegociação de dívidas pode devolver consumidores ao mercado. A ampliação do limite do MEI pode corrigir uma defasagem. O fim da escala 6×1 envolve uma discussão legítima sobre qualidade de vida e produtividade. O problema surge quando medidas tão distintas se acumulam às vésperas da eleição, voltadas precisamente para segmentos nos quais o governo encontra maior resistência.

A movimentação coincide com a aproximação de Flávio Bolsonaro nas pesquisas. Na Quaest divulgada em 14 de setembro, o senador apareceu numericamente à frente em uma simulação de segundo turno, com 42%, contra 40% de Lula (BR-03607/2026).

Leia também: Flávio Bolsonaro afirma que reajuste do Bolsa Família é ‘ilegal’ e ‘proibido’ durante eleições

Diante desse cenário, o presidente parece ter ativado o modo desespero eleitoral para tentar garantir a reeleição. Pode haver justificativa técnica para cada iniciativa, mas o conjunto, o volume e o calendário deixam evidente a utilização da máquina pública como instrumento de recuperação política. Enquanto o governo distribui benefícios, amplia créditos e assume compromissos que avançam pelo próximo mandato, o país paga a conta, seja diretamente, por meio do Orçamento, seja por renúncias fiscais, aumento da dívida, pressão inflacionária ou juros mais elevados.

Estamos diante de mais uma prova de que o Brasil precisa discutir com urgência o fim da reeleição para cargos executivos. Entra governo, sai governo, independentemente do espectro político, ocupar o poder transforma a administração pública em arma eleitoral. Foi assim em outros mandatos e volta a acontecer agora. Mudam os programas, os discursos e os beneficiários escolhidos. A lógica permanece. E a conta, como sempre, chega para todos.