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Editorial

O preço do pacote de bondades

Desoneração é receita que não entra, subsídio é gasto direto e crédito com garantia pública transfere risco ao Estado; o dever de explicar a conta cresce em ano eleitoral
Agora RN
23/09/2026 | 21:41

Todo governo eleito tem o dever de melhorar a vida da população. Reduzir o preço do combustível, ampliar a renda de famílias pobres, facilitar o crédito, apoiar a moradia e combater o endividamento são objetivos legítimos. Em tempos de inflação, juros altos e insegurança econômica, seria insensível defender que o Estado assista de braços cruzados ao aperto cotidiano. O problema começa quando a vontade de ajudar deixa de ser acompanhada pela obrigação de explicar quanto custa, por quanto tempo dura e quem pagará a conta.

O pacote de medidas anunciado pelo governo Lula reúne decisões que respondem a demandas reais. Há desonerações para combustíveis, subvenções ao diesel, reajuste de benefício social, linhas de crédito e programas voltados a famílias endividadas. Cada uma dessas ações tem justificativa própria. O combustível afeta frete e alimentação. A renda mínima protege quem não consegue esperar uma melhora geral da economia. O crédito pode reativar consumo, investimento e emprego. O endividamento é um problema que corrói a capacidade de milhões de brasileiros planejarem o futuro.

Homem de chapéu e terno discursa atrás de púlpito com bandeiras ao fundo
Imagem de arquivo: o presidente Lula em pronunciamento; o pacote anunciado pelo governo reúne desonerações, subvenções, crédito e reajuste de benefício social — Ricardo Stuckert/PR

Nada disso, porém, torna o dinheiro público infinito. Toda política tem custo, mesmo quando é apresentada como isenta de impacto fiscal. Uma desoneração é receita que o governo deixa de receber. Um subsídio é gasto direto. Uma linha de crédito com garantia pública transfere parte do risco para o Estado. Um reajuste permanente em programa social exige fonte duradoura de financiamento. A responsabilidade fiscal não é uma “babaquice”, como sugeriu o presidente ao criticar a obsessão pelo superávit. É o mecanismo que impede a boa intenção de hoje de se tornar inflação, juros ou corte de serviços amanhã.

Superávit não é um fim em si mesmo. Nenhuma sociedade existe para produzir planilhas equilibradas enquanto sua população sofre. Mas o equilíbrio das contas é condição para que políticas sociais sobrevivam. Sem previsibilidade, o Estado perde capacidade de financiar saúde, educação, assistência e investimento. Quando o mercado desconfia da trajetória fiscal, cobra juros maiores para emprestar ao governo. Esses juros consomem orçamento. E quem paga, no fim, não é uma abstração chamada mercado: é o contribuinte, o trabalhador, a família que depende do serviço público e o pequeno empresário que vê o crédito encarecer.

O debate, portanto, não deveria ser entre sensibilidade social e austeridade cega. Essa oposição é confortável para discursos, mas insuficiente para governar. A pergunta correta é outra: a medida resolve um problema concreto, é temporária quando precisa ser temporária, alcança quem realmente necessita e possui fonte de financiamento clara? Se a resposta for sim, o gasto público pode ser não apenas justificável, mas necessário. Se a resposta for não, a política social corre o risco de virar política de ocasião.

O ano eleitoral torna essa fronteira ainda mais delicada. Nenhum presidente perde o direito de governar porque busca reeleição. A população não pode ficar sem resposta apenas porque haverá urna em outubro. Ao mesmo tempo, quanto maior o pacote de bondades lançado durante a campanha, maior deve ser o dever de transparência. O eleitor precisa saber onde termina uma política pública planejada e onde começa a tentativa de transformar recurso estatal em capital político.

Capital político não é, por definição, algo ilegítimo. Governos que entregam resultados naturalmente colhem apoio. Esse é um dos fundamentos da democracia representativa. A distorção ocorre quando a busca por popularidade passa a determinar o tamanho, o calendário e a qualidade das medidas. A política pública deixa de ser desenhada para enfrentar um problema e passa a ser desenhada para produzir aplauso imediato. Nesse caso, a urgência eleitoral substitui o planejamento, e o futuro é sacrificado pela conveniência do presente.

O caso dos combustíveis ilustra bem o dilema. Proteger a população de uma alta abrupta do petróleo pode ser uma medida emergencial sensata. Mas subsídios amplos e prolongados também podem desorganizar preços, beneficiar proporcionalmente mais quem consome mais combustível e comprometer recursos que fariam diferença em áreas permanentes. O mesmo vale para o crédito: ele pode abrir portas para famílias e empresas, mas não pode ser distribuído como se todo risco desaparecesse pela simples vontade do governo.

A tarefa da equipe econômica é justamente impor critérios à vontade política. Não para impedir programas sociais, mas para garantir que eles tenham continuidade. Um ministro da Fazenda que aponta limites não é inimigo do presidente; é parte do sistema de freios que protege o próprio governo de promessas impossíveis. Da mesma forma, o mercado não pode usar o discurso fiscal para negar a urgência da pobreza, como se toda despesa social fosse irresponsabilidade. Há exagero dos dois lados quando se troca análise por caricatura.

O Brasil precisa de um Estado capaz de agir, mas também capaz de escolher. Não é possível atender todas as demandas com subsídios, crédito e benefícios sem definir prioridades. A coragem de governar não está apenas em anunciar. Está em dizer não quando necessário, revisar programas que não funcionam e apresentar à sociedade os custos de cada escolha.

O pacote de bondades pode produzir alívio, renda e proteção. Mas sua legitimidade dependerá da resposta a uma pergunta simples: ele está construindo segurança para a população ou apenas comprando tranquilidade até a próxima eleição? A diferença entre ajudar e ser inconsequente está menos no tamanho do gasto do que na honestidade com que o governo mostra sua conta.