A imagem de Ernesto Che Guevara permanece como um dos maiores símbolos das revoluções do século 20. Com a boina e o rosto estampados em camisetas ao redor do mundo, o guerrilheiro argentino segue como ícone político décadas após sua morte, em 1967, na Bolívia. Menos conhecida, porém, é a história dos homens que lutaram ao seu lado e conseguiram sobreviver.
É essa trajetória que o documentário Che Guevara: The Last Companions (“Che Guevara: Os Últimos Companheiros”) leva ao Festival de Cannes nesta quarta-feira 20, na mostra de exibições especiais. Dirigido pelo cineasta francês Christophe Dimitri Réveille, o filme acompanha os últimos combatentes do grupo de Che e mostra como três deles escaparam de uma das mais intensas caçadas militares da história recente da América Latina.

O documentário começa com imagens do corpo de Che Guevara exposto em uma escola de um pequeno vilarejo boliviano, logo após sua execução por tropas do Exército. A poucos metros dali, seis de seus companheiros permaneciam escondidos na mata, sem saber que o líder havia sido morto. Cercados por helicópteros e por milhares de soldados, eles decidiram continuar lutando.
Ao final, apenas três sobreviveram: Harry Villegas, conhecido como Pombo, um dos homens de maior confiança de Che; Leonardo Tamayo Núñez, o Urbano, então um jovem camponês cubano de 15 anos que atuava como mensageiro e hoje é o único ainda vivo; e Daniel Alarcón Ramírez, o Benigno, que se tornaria capitão do Exército rebelde.
Durante cinco meses, os guerrilheiros evitaram a captura por mais de 4 mil soldados bolivianos, percorreram cerca de 2.400 quilômetros e enfrentaram fome, sede e ferimentos em uma tentativa desesperada de escapar do cerco.
A narrativa é construída a partir de entrevistas, imagens de arquivo e sequências de animação que reconstituem episódios da fuga. Segundo Réveille, o objetivo do filme é deslocar o foco do mito para aqueles que participaram diretamente da revolução.
“Como perderam tudo, a vida deles não tinha muito significado. É por isso que seguiram Che”, afirma o diretor. “Che está em todos os livros de história. Eu foquei as pessoas que realizaram as revoluções, mas cujos nomes não aparecem em nenhum lugar.”
Em vez de revisitar apenas a figura de Guevara, o documentário busca iluminar personagens quase esquecidos que dedicaram a vida a um projeto político e pagaram alto preço por isso. Ao dar voz a esses sobreviventes, o filme oferece um olhar mais humano sobre um dos capítulos mais emblemáticos da história latino-americana.