BUSCAR
BUSCAR
Temperatura

Europa enfrenta onda de calor

Temperaturas recordes em maio ampliam alerta climático da ONU e pressionam governos diante de eventos cada vez mais severos
Por O Correio de Hoje
28/05/2026 | 16:14

Uma onda de calor precoce que atinge países da Europa Ocidental elevou a pressão internacional sobre políticas climáticas e levou o secretário-executivo da Convenção-Quadro das Nações Unidas sobre Mudança Climática, Simon Stiell, a classificar os eventos registrados nesta semana como “um lembrete brutal dos impactos crescentes da crise climática”.

França, Reino Unido, Espanha e Irlanda registraram temperaturas recordes para o mês de maio, em um cenário normalmente associado ao auge do verão europeu. Em várias regiões, os termômetros permaneceram acima de 30°C durante dias consecutivos, enquanto autoridades meteorológicas projetam novas elevações de temperatura nos próximos dias.

Calor na europa
Guarda-chuvas e sombrinhas vêm se tranformando em guarda-sol por todo o continente europeu, antes de chegada do verão, previsto para julho - Foto: Reprodução

Segundo Stiell, as ondas de calor extremas estão diretamente associadas às emissões de gases de efeito estufa provenientes da queima de carvão, petróleo e gás natural.

“A ciência é clara ao mostrar que as mudanças climáticas causadas pela ação humana estão tornando essas ondas de calor mais frequentes e extremas”, afirmou o representante da ONU em comunicado divulgado ontem.

O dirigente também citou episódios simultâneos registrados na Índia, onde incêndios florestais e mortes por insolação ampliaram o quadro de emergência climática. Dados da plataforma de monitoramento AQI indicaram que as 45 cidades mais quentes do mundo nesta quinta-feira 28, estavam localizadas em território indiano, todas com temperaturas superiores a 43°C.

“Proteger vidas humanas, empresas e economias do calor extremo e dos muitos outros custos crescentes das mudanças climáticas é uma tarefa central para todas as nações”, afirmou Stiell, ao defender aceleração da transição energética global.

Na Europa, a França concentrou alguns dos registros mais extremos. O serviço meteorológico Météo-France informou que uma “cúpula de calor” — fenômeno atmosférico em que uma massa de alta pressão aprisiona o ar quente — provocou temperaturas entre 10°C e 13°C acima da média histórica para esta época do ano.

A previsão indicava máximas de até 39°C no sul do País nesta sexta-feira 29. O índice térmico médio nacional francês atingiu 24,9°C na terça-feira 26, superando o recorde anterior de 24,6°C estabelecido apenas um dia antes. Autoridades francesas confirmaram sete mortes relacionadas à onda de calor, incluindo casos de afogamento e ocorrências em eventos esportivos.

No Reino Unido, o serviço meteorológico Met Office registrou temperatura de 35,1°C em Kew Gardens, em Londres, superando o recorde anterior de maio de 34,8°C estabelecido no dia anterior. O novo índice ultrapassou também a antiga máxima histórica para o mês, de 32,8°C, observada em 1922 e repetida em 1944.

O país registrou ainda nova “noite tropical” na Cornualha, no sudoeste da Inglaterra, onde a temperatura durante a madrugada não ficou abaixo de 21,4°C.

Na Espanha, autoridades emitiram alerta laranja para o País Basco diante da previsão de temperaturas de até 37°C. Em regiões do sul do país, os termômetros podem atingir entre 36°C e 38°C. A agência meteorológica espanhola Aemet afirmou que as temperaturas observadas nesta semana são mais características do período de canícula, normalmente registrado entre julho e agosto.

A Irlanda também registrou recordes históricos para maio, com máxima de 28,8°C na segunda-feira, 25.

Especialistas em clima afirmam que o aquecimento global vem alterando o padrão sazonal de ondas de calor, antecipando eventos extremos e prolongando períodos de temperaturas elevadas ao longo do ano. Segundo cientistas, episódios historicamente concentrados no pico do verão tendem a ocorrer com maior frequência já na primavera e até no início do outono.

O diretor de pesquisa climática da Universidade Maynooth, Peter Thorne, classificou os recordes recentes como “absurdamente impressionantes”.

“Sabemos, sem qualquer sombra de dúvida, que eventos como este se tornaram mais prováveis e mais severos devido às mudanças climáticas provocadas pelas emissões de gases de efeito estufa que retêm calor”, afirmou ao jornal britânico The Guardian.

Além do impacto direto sobre a saúde pública, governos europeus monitoram efeitos econômicos associados às temperaturas extremas, incluindo pressão sobre sistemas elétricos, agricultura, logística, abastecimento de água e produtividade do trabalho.

O novo episódio ocorre em meio ao avanço global das discussões sobre segurança energética e redução da dependência de combustíveis fósseis. Para integrantes da ONU e especialistas do setor climático, as ondas de calor registradas simultaneamente em diferentes regiões reforçam o custo econômico crescente das mudanças climáticas e a urgência da transição para fontes de energia de menor emissão de carbono.