BUSCAR
BUSCAR
Regulação

Papa alerta para riscos sociais da IA

Documento “Magnifica humanitas” defende regulação internacional das plataformas digitais, critica concentração de poder tecnológico e pede proteção ao trabalho e à dignidade humana
Por O Correio de Hoje
26/05/2026 | 15:34

O papa Leão XIV publicou nesta segunda-feira 25, sua primeira encíclica, documento no qual faz um amplo alerta sobre os impactos sociais, econômicos e políticos da inteligência artificial e pede maior regulação internacional sobre o avanço das plataformas digitais, dos algoritmos e da automação.

Batizado de “Magnifica humanitas” (“Humanidade magnífica”, em latim), o texto de 245 parágrafos foi divulgado pouco mais de um ano após a eleição do americano Robert Prevost para o comando da Igreja Católica. O subtítulo da encíclica é “sobre a salvaguarda da pessoa humana na era da inteligência artificial”.

Papa 02
Primeira encíclica de Leão XIV critica impactos da inteligência artificial - Foto: Reprodução

No documento, o pontífice aborda os riscos da IA sobre o mercado de trabalho, as guerras, a disseminação de desinformação, a dependência digital e o que chamou de “novas formas de escravidão” ligadas à economia digital.

Leão XIV também cobra da comunidade internacional a criação de “quadros jurídicos adequados” e mecanismos de “vigilância independente” para limitar a concentração de poder tecnológico e econômico nas mãos de grandes grupos privados.

“Desarmar a IA significa subtraí-la à lógica da competição armada, que hoje não é apenas militar, mas também econômica e cognitiva”, escreveu o papa. “Não significa renunciar à tecnologia, mas impedir que ela domine o ser humano.”

Segundo o pontífice, decisões relacionadas a fluxos econômicos, plataformas digitais, gestão de dados e algoritmos não podem ser conduzidas apenas por poucos agentes privados. O texto enquadra o debate sob a perspectiva teológica e da Doutrina Social da Igreja, baseada no princípio do bem comum.

O mercado de trabalho aparece como um dos principais focos de preocupação da encíclica. Embora reconheça que a tecnologia possa aliviar trabalhadores de tarefas repetitivas, perigosas ou pesadas, o papa afirma que a preservação dos empregos deve permanecer como prioridade.

“O objetivo de maiores lucros não pode justificar escolhas que sacrifiquem sistematicamente o emprego”, escreveu Leão XIV.

Ao abordar as “novas formas de escravidão”, o documento menciona trabalhadores responsáveis por tarefas pouco visíveis da economia digital, como etiquetagem de dados, moderação de conteúdo e treinamento de modelos de inteligência artificial. Segundo o texto, grande parte dessas funções é realizada por jovens, especialmente mulheres, em condições precárias e com baixa remuneração.

“Os corpos dessas pessoas ficam marcados, feridos e desgastados para que o fluxo computacional possa continuar ininterruptamente”, afirma a encíclica. “Essa realidade desafia profundamente a consciência moral de nosso tempo.”

Leão XIV também dedica parte relevante do documento ao uso da inteligência artificial em conflitos militares. Segundo o pontífice, guerras modernas passaram a incorporar ataques cibernéticos, campanhas de influência digital, manipulação informacional e sistemas automatizados de decisão estratégica.

O risco, segundo ele, é que a tecnologia, dissociada de responsabilidade ética, torne mais rápida e impessoal a decisão sobre “a vida e a morte”.

A defesa da paz aparece como um dos eixos centrais do início do pontificado e tem provocado atritos recentes entre o Vaticano e o governo dos Estados Unidos, liderado por Donald Trump, além do vice-presidente J. D. Vance.

“Hoje, mais do que nunca, é importante reafirmar que foi superada a teoria da ‘guerra justa’”, escreveu o papa, acrescentando que conflitos devem ser enfrentados por meio do diálogo, da diplomacia e do perdão.

O texto também aborda o impacto da IA na comunicação e na disseminação de desinformação. A encíclica atribui ao jornalismo profissional papel relevante na preservação do debate público e na contenção da propagação de conteúdos manipulados.

Promover uma “ecologia da comunicação”, segundo o documento, exige fortalecimento do jornalismo sério, de organismos intermediários e de espaços públicos baseados em argumentação e verificação de fatos.

Nas conclusões, o papa pede que os católicos preservem relações humanas presenciais e invistam em educação digital para as novas gerações. Segundo ele, o avanço tecnológico não deve ser encarado como inevitável, mas orientado por responsabilidade coletiva e individual.

A publicação da encíclica foi acompanhada ainda de um dos pedidos de desculpas mais explícitos já feitos por um pontífice sobre o papel histórico da Igreja Católica na escravidão.

Leão XIV reconheceu que a Igreja demorou séculos para condenar formalmente a escravidão e admitiu que autoridades religiosas legitimaram formas de subjugação, incluindo a escravização de não cristãos.

“Por isso, em nome da Igreja, eu sinceramente peço perdão”, escreveu o papa, ao afirmar sentir “profunda tristeza” pelo sofrimento imposto às pessoas escravizadas.