O saxofonista americano Sonny Rollins, considerado um dos maiores nomes da história do jazz e conhecido mundialmente como o “colosso do saxofone”, morreu nesta segunda-feira aos 95 anos. A informação foi divulgada por meio de comunicado publicado nas redes sociais do artista.
“Com grande pesar e carinho, anunciamos o falecimento de Sonny Rollins”, informou a nota. Segundo o comunicado, o músico morreu em sua casa em Woodstock, no estado de Nova York, nos Estados Unidos.

Último representante vivo da chamada era de ouro do jazz, Rollins construiu uma carreira marcada por improvisações radicais, intensa liberdade criativa e pela capacidade de transformar o saxofone em instrumento de reflexão social, espiritual e política.
Ao longo de quase sete décadas de carreira, o músico produziu obras consideradas fundamentais para a história do jazz moderno, explorando desde o hard bop até experimentações ligadas à vanguarda e ao jazz fusion.
Rollins integra um grupo restrito de artistas que redefiniram o papel do saxofone no jazz, ao lado de nomes como Charlie Parker, Coleman Hawkins e John Coltrane. A relação com Coltrane, inclusive, foi descrita pelo próprio Rollins como afetuosa, embora atravessada por conflitos e arrependimentos.
“Penso na minha relação com Coltrane e na minha relação com Monk. Foram muitas coisas estúpidas que fiz com essas pessoas e que não teria feito se eu fosse mais maduro”, afirmou o músico em entrevista à AFP em 2016. Rollins também trabalhou com outras lendas do jazz ainda muito jovem, incluindo Miles Davis e Thelonious Monk.
Seu reconhecimento internacional ganhou força definitiva em 1956 com o lançamento do álbum Saxophone Colossus, trabalho que lhe rendeu o apelido de “colosso do saxofone” e consolidou sua importância dentro do hard bop, vertente que ampliou os limites estruturais do jazz da época.
Mesmo após alcançar reconhecimento mundial, Rollins permaneceu profundamente crítico em relação ao próprio trabalho. Frequentemente deixava apresentações e sessões de gravação acreditando que poderia ter tocado melhor. Para muitos admiradores, essa insatisfação permanente era justamente parte de sua grandeza artística.
O músico era conhecido pela disposição em correr riscos durante improvisações, recusando-se a repetir fórmulas ou performances previsíveis. “A execução acontece de verdade num nível subconsciente, e nesse ponto os clichês não acontecem”, afirmou ao jornal The New York Times, em 1989. “Quando estou tocando, minha mente fica completamente vazia.”
A busca constante por inovação fez com que Sonny Rollins transitasse por diferentes caminhos musicais ao longo da carreira. Embora tenha surgido durante a ascensão do bebop, estilo marcado por sofisticação harmônica e improvisações velozes, sua produção ultrapassou qualquer classificação rígida.
Com energia intensa, comportamento imprevisível e um som capaz de alternar entre agressividade e exuberância, o saxofonista explorou elementos da música de vanguarda, do jazz fusion e de diferentes influências espirituais e culturais. “Minha música é grande demais para ser de um único estilo”, declarou em entrevista concedida em 2002.
Além da dimensão artística, Rollins também utilizou a música como ferramenta de comentário político e social, especialmente em relação à experiência afro-americana nos Estados Unidos. Em 1958, lançou Freedom Suite, composição instrumental de cerca de 20 minutos que abordava explicitamente a luta dos negros por igualdade de direitos.
No texto que acompanhava a obra, o músico escreveu: “Os Estados Unidos estão profundamente enraizados na cultura negra. Seus coloquialismos, seu humor, sua música. É irônico que o negro, que mais do que qualquer outro povo pode reivindicar a cultura americana como própria, seja perseguido e reprimido. Que o negro, que exemplificou as humanidades em sua própria existência, seja recompensado com desumanidade.”
Após os atentados de 11 de setembro de 2001, Rollins voltou a utilizar a música como forma de expressão coletiva e emocional. Apenas quatro dias depois dos ataques terroristas, apresentou-se em Boston em um show que mais tarde originaria um álbum ao vivo dedicado às vítimas.
A trajetória do saxofonista também foi marcada por desafios pessoais. Como diversos músicos de jazz dos anos 1950, Rollins desenvolveu dependência de heroína no início da carreira. Ele conseguiu superar o vício em 1955 e passou a integrar o quinteto liderado pelo baterista Max Roach e pelo trompetista Clifford Brown.
Entre 1956 e 1958, os discos gravados sob sua liderança consolidaram sua reputação como um dos músicos mais inventivos da geração. No fim dos anos 1950, quando sua carreira atravessava forte ascensão, Rollins tomou uma decisão incomum: afastou-se dos palcos por mais de dois anos porque acreditava não estar satisfeito com a qualidade de sua própria música.
Esse período de isolamento se tornou parte importante de sua trajetória artística e ajudou a consolidar sua imagem como músico obcecado por aperfeiçoamento. Ao longo da vida, Sonny Rollins também buscou referências espirituais fora da música. Interessou-se por práticas meditativas, realizou retiros na Índia e no Japão e afirmou que o yoga teve papel decisivo em sua vida pessoal.
“Continuo vivo porque continuo aprendendo”, disse à AFP há dez anos. Ele também afirmou que a prática ajudou a manter distância das drogas e do álcool. Rollins começou a estudar música ainda na infância. Apesar do interesse por pintura e artes visuais, já tocava saxofone profissionalmente antes mesmo de atingir a vida adulta.
As primeiras gravações ocorreram em 1949, ao lado do cantor Babs Gonzales. Pouco depois, o músico já era figura requisitada na cena jazzística de Nova York. Nos anos 1960, acreditava, assim como muitos artistas da época, que a música poderia ajudar a transformar o mundo. “Mas depois aprendi e vivi um pouco mais”, afirmou à AFP.
Lucille Rollins, esposa e empresária do músico durante quase quatro décadas, morreu em 2004. Com uma carreira atravessada por reinvenção permanente, ousadia artística e inquietação criativa, Sonny Rollins deixa um legado que influenciou gerações de músicos e ajudou a redefinir os limites do jazz moderno.