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Cinema

Festival de Cannes traz favoritos ao Oscar 2027

Festival frânces foi marcado por discursos geopolíticos, críticas à ausência de Hollywood e apostas para o Oscar; produtores demonstraram preocupação com direitos autorais
Por O Correio de Hoje
28/05/2026 | 13:31

A cerimônia de premiação do Festival de Cannes 2026 foi marcada por discursos políticos, debates sobre inteligência artificial, críticas à ausência de Hollywood e especulações sobre a corrida do Oscar de 2027. Realizada no sábado, 23, a premiação reuniu cineastas, atores e jurados em manifestações sobre guerras, tecnologia e o futuro da indústria audiovisual.

A atriz e diretora libanesa Nadine Labaki protestou contra a situação do Líbano, alvo de bombardeios israelenses. O ator mexicano Gael García Bernal arrancou risos ao pedir desculpas pelo “francês terrível”, mas transformou o momento em crítica política ao acrescentar que a situação não era pior que o cenário geopolítico mundial. A reação da plateia foi imediata, com aplausos no Palais. Já o cineasta russo Andrei Zviaguintsev lamentou que a guerra na Ucrânia esteja perdendo espaço no debate internacional diante da ofensiva no Irã.

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No Festival de Cannes, Cristian Mungiu venceu a Palma de Ouro com “Fjord”, filme sobre desigualdades e divisões contemporâneas - Foto:

O júri presidido pelo sul-coreano Park Chanwook concedeu a Palma de Ouro ao romeno Cristian Mungiu por “Fjord”, longa que aborda desigualdades e divisões do mundo contemporâneo. A decisão, no entanto, gerou comentários nos bastidores por conta da distribuição de três prêmios ex-aequo, vista por parte da crítica como sinal de dificuldade de consenso entre os jurados.

Os prêmios de interpretação também chamaram atenção por contemplarem atores e atrizes dos mesmos filmes. Na direção, o festival dividiu o reconhecimento entre “Fatherland” e “La Bola Negra”, considerados por muitos críticos dois dos melhores filmes da competição. Os espanhóis Javier Calvo e Javier Ambrossi, conhecidos como “os Javis”, agradeceram a Pedro Almodóvar durante o discurso de premiação. Segundo eles, o cineasta espanhol ajudou a viabilizar financeiramente “La Bola Negra” por meio da produtora El Deseo, comandada ao lado do irmão Agustín Almodóvar.

A repercussão do festival já alimenta projeções para o Oscar de 2027. A atriz Demi Moore, integrante do júri, comentou em entrevista à TV oficial do festival o peso das decisões tomadas em Cannes. Foi a primeira participação dela como jurada no evento. A atriz afirmou que ainda sentia os efeitos da repercussão de “A Substância”, de Coralie Fargeat, premiado no festival há dois anos. “De repente, vi-me no centro de um turbilhão.”

Thierry Frémaux, diretor artístico de Cannes, comemorou novamente a presença crescente de filmes exibidos no festival entre os indicados ao Oscar. Nos últimos anos, produtores norte-americanos vinham preferindo lançar seus filmes em Veneza, realizado no segundo semestre, por considerarem o calendário mais favorável às campanhas da Academia.

Mesmo assim, Cannes já começou a gerar apostas para a temporada de premiações de 2027. Javier Bardem aparece entre os nomes mais citados por sua atuação em “El Ser Querido”, de Rodrigo Sorogoyen. Sebastian Stan também entrou nas projeções após protagonizar o vencedor da Palma de Ouro, “Fjord”. O ator nasceu justamente na Romênia, país do diretor Cristian Mungiu.

Outra forte aposta é Scarlett Johansson por “Paper Tiger”, de James Gray, produção do brasileiro Rodrigo Teixeira. Apesar de não ter recebido prêmios oficiais em Cannes, o filme venceu o Palmarès do jornal francês Le Figaro, tradicional seleção paralela de melhores e piores do festival. O longa foi tratado por parte da crítica como um dos injustiçados da edição.

Le Figaro também provocou polêmica ao considerar Virginie Efira a pior atriz do festival, justamente pela atuação que levou o prêmio oficial do júri em “Soudain”, de Ryusuke Hamaguchi. O contraste entre a avaliação da crítica e a decisão do júri ampliou os debates sobre os critérios da premiação.

Entre os filmes que surgem como candidatos ao Oscar internacional está “Fatherland”, de Pawel Pawlikowski, diretor já premiado pela Academia por “Ida”. A disputa espanhola também promete repercussão, já que “El Ser Querido” e “La Bola Negra” devem disputar a vaga oficial do país na categoria de filme internacional.

Mesmo com críticas recebidas em Cannes, Pedro Almodóvar continua sendo visto como um nome influente em Hollywood. O jornal Le Figaro chegou a atribuir ao filme “Natal Amargo” a “Palme de Plomb”, espécie de prêmio satírico para o pior da competição. Ainda assim, a El Deseo, produtora do cineasta, permanece valorizada na indústria internacional. Neste ano, “Sirât”, de Oliver Laxe, outra produção ligada à empresa, apareceu entre os finalistas do Oscar internacional.

Além de Javier Bardem, Penélope Cruz também entrou nas projeções para a Academia graças à participação em “La Bola Negra”. Embora tenha um papel pequeno, a atuação da atriz foi elogiada durante o festival.

Outro título que ganhou força foi o documentário “Rehearsals for a Revolution”, de Pegah Ahangarani, vencedor do L’Oeil d’Or, prêmio dedicado aos documentários. O filme aborda décadas de repressão no Irã, desde o período do xá até o regime dos aiatolás. Ao receber o troféu, o diretor dedicou o prêmio ao povo iraniano, afetado atualmente pela guerra contra os Estados Unidos.

As animações também tiveram grande espaço em Cannes 2026. “Tangled/Emaranhados, Uma História de Alzheimer, Minha Mãe e Eu”, da canadense Leah Nelson, tornou-se uma das principais apostas para a temporada de premiações após receber sete minutos de aplausos. O longa trata de relações familiares e da convivência com o Alzheimer.

Na mostra Un Certain Regard, “Corset”, de Louis Clichy, conquistou prêmio ao retratar a história de um garoto obrigado a usar um colete de aço após sofrer acidente em uma área rural francesa. Outro título comentado foi “Jim Queer”, animação adulta sobre um vírus que transforma homens gays em heterossexuais. O filme acompanha a mobilização da comunidade parisiense em busca de uma cura e do direito de permanecer gay.

Além dos filmes, a ausência de grandes produções hollywoodianas foi um dos assuntos mais comentados da Croisette. Embora estrelas como John Travolta e Barbra Streisand tenham recebido Palmas honorárias, a presença de estúdios norte-americanos foi reduzida tanto na competição quanto nas sessões fora de concurso.

O jornal The New York Times publicou reportagem intitulada “Hollywood Ghosted Cannes” para discutir o esvaziamento da participação dos grandes estúdios. Entre os motivos apontados estão as exigências do festival de lançamento nos cinemas, o receio de críticas antecipadas a filmes caros e os custos elevados para levar equipes completas ao tapete vermelho.

Com o afastamento de Hollywood, os independentes ganharam espaço. A distribuidora Neon, por exemplo, teve nove filmes espalhados pelas diferentes seções do festival, incluindo três na competição principal: “Soudain”, de Ryusuke Hamaguchi; “Hope”, do sul-coreano Na Hongjin; e “Paper Tiger”, de James Gray.

As discussões políticas também se voltaram para o cenário francês. O próximo festival, o de número 80, ocorrerá próximo à eleição presidencial da França. Nos bastidores, havia preocupação com a possibilidade de vitória de um candidato ligado ao grupo político de Marine Le Pen. Setores do audiovisual temem cortes em instituições como o CNC e a France Télévisions. Comentários sobre um possível enfraquecimento do festival circularam durante o evento.