Uma alimentação baseada em referências bíblicas tem ganhado espaço nas redes sociais e atraído milhares de adeptos em diferentes países. Conhecida como “dieta bíblica”, a prática reúne hábitos alimentares inspirados em passagens das escrituras, incluindo consumo de alimentos naturais, jejuns e restrição de produtos industrializados. O movimento tem crescido especialmente em plataformas como TikTok e Instagram, onde influenciadores compartilham receitas, relatos pessoais e orientações ligadas ao tema.
A norte-americana Mary Bundy está entre os nomes que ajudaram a popularizar a tendência. Moradora de Bali, na Indonésia, ela afirma ter mudado completamente a alimentação após conhecer conteúdos relacionados à dieta bíblica. Segundo Bundy, a mudança incluiu o abandono do açúcar refinado e a adoção de alimentos considerados mais naturais.

“Eu nunca tinha pensado em procurar receitas na Bíblia”, afirmou Bundy, que nasceu nos Estados Unidos. Ela relata que passou a observar o que as pessoas comiam na antiguidade em busca de uma alimentação considerada mais saudável.
Mary Bundy mantém uma conta no TikTok com cerca de 500 mil seguidores. Nos vídeos, compartilha receitas e relatos sobre mudanças na saúde mental e física após alterar a alimentação. Ela diz ter enfrentado problemas de pele, cabelo e depressão e afirma que encontrou nos conteúdos bíblicos uma nova forma de encarar a alimentação.
A influenciadora vende um guia digital com receitas e orientações ligadas ao tema. Segundo ela, o interesse crescente do público transformou o assunto em uma tendência de grande alcance nas plataformas digitais.
Outro nome ligado ao movimento é Bri McKoy, autora de livros de culinária e criadora de conteúdo sobre alimentação natural. Ela afirma que passou a preparar receitas inspiradas em ingredientes mencionados na Bíblia como alternativa aos alimentos ultraprocessados.
McKoy conta que o objetivo não é seguir rigidamente uma lista de alimentos permitidos ou proibidos, mas estimular uma alimentação baseada em ingredientes naturais e menos industrializados.
No TikTok, vídeos relacionados ao tema acumulam milhões de visualizações. Em uma das hashtags ligadas à alimentação bíblica, usuários compartilham refeições consideradas semelhantes às descritas nas escrituras, além de rotinas de jejum e dicas de organização alimentar.
Parte dos conteúdos também menciona práticas como o “jejum de Daniel”, inspirado em passagens do livro bíblico de Daniel, no Antigo Testamento. Segundo o relato religioso, Daniel teria recusado alimentos considerados inadequados e adotado uma alimentação baseada em vegetais e água.
Além da alimentação, muitos influenciadores associam a dieta bíblica à busca por equilíbrio espiritual, disciplina e saúde mental. Alguns conteúdos relacionam o hábito alimentar à redução da ansiedade e à melhora do bem-estar emocional.
Especialistas, porém, alertam que muitos dos conceitos divulgados nas redes sociais não possuem comprovação científica ampla e frequentemente misturam religião, estilo de vida e interpretações pessoais sobre saúde.
Jennifer A. Reyes, professora de Educação Religiosa na Universidade Emory, nos Estados Unidos, afirma que o crescimento desse tipo de conteúdo está ligado à forte presença da religião no ambiente digital. “A análise mais coletiva e ambiental do que está acontecendo em nosso sistema alimentar está ausente de alguns dos diálogos nas redes sociais”, declarou.
Segundo ela, parte do público busca na alimentação uma forma de conexão espiritual e pertencimento. A pesquisadora observa que o tema costuma ganhar força em períodos de maior preocupação com saúde física, alimentação industrializada e qualidade de vida.
A nutricionista e pesquisadora Abby Stasion, que também produz conteúdos sobre alimentação cristã, afirma que costuma orientar pacientes e seguidores a refletirem sobre hábitos alimentares presentes em referências religiosas. “Ele consome carboidratos e proteínas — diz Stasion, de 31 anos.”
Ela destaca que muitos dos alimentos citados em textos bíblicos fazem parte de padrões alimentares considerados saudáveis, incluindo frutas, vegetais, peixes, azeite e grãos.
Ainda assim, especialistas alertam que a adoção de qualquer dieta deve considerar acompanhamento profissional e necessidades individuais de saúde. Também apontam que interpretações literais de práticas alimentares antigas podem desconsiderar diferenças culturais, científicas e nutricionais do mundo atual. A professora Jennifer Reyes afirma que a discussão sobre alimentação e religião vai além da nutrição e envolve questões culturais e emocionais. “A questão do bem-estar que ele se baseia na experiência pessoal, e não na ciência. A dieta tem a ver com crença. As pessoas estão desesperadas por significado em suas vidas.”