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Saúde

Brasil deve reduzir tabagismo, mas obesidade seguirá em alta

Pesquisa publicada na revista The Lancet Regional Health aponta melhora em indicadores ligados ao consumo de cigarro e bebidas açucaradas, enquanto doenças crônicas devem crescer no País
Por O Correio de Hoje
28/05/2026 | 14:08

Um estudo publicado na revista científica The Lancet Regional Health aponta que o Brasil deverá atingir até 2030 as metas relacionadas à redução do tabagismo e ao consumo regular de bebidas adoçadas com açúcar. Em contrapartida, indicadores ligados à obesidade, hipertensão, diabetes e consumo abusivo de álcool devem continuar em crescimento no País.

A pesquisa foi desenvolvida por pesquisadores do Núcleo de Pesquisas Epidemiológicas em Nutrição e Saúde da Universidade de São Paulo (NUPENS/USP), em parceria com o Ministério da Saúde, e utilizou dados do sistema Vigitel, levantamento telefônico realizado anualmente nas capitais brasileiras entre 2009 e 2023.

Cigarro fumante (7)
Taxa de fumantes pode cair de 9,8% para 4,7% da população até 2030, conforme projeções - Foto: JOSÉ ALDENIR

Os pesquisadores fizeram projeções com base nas metas previstas no Plano de Ações Estratégicas para o Enfrentamento das Doenças Crônicas e Agravos Não Transmissíveis no Brasil 2021-2030, tomando como referência os índices observados em 2019.

Entre os objetivos estabelecidos estão a redução de 30% no consumo de bebidas adoçadas, queda de 40% no tabagismo e diminuição de 10% no consumo abusivo de álcool. O plano também prevê aumento da prática de atividade física no lazer e crescimento de 30% no consumo recomendado de frutas e hortaliças. De acordo com as projeções do estudo, o país deverá superar a meta relacionada ao tabagismo. A taxa de fumantes, que era de 9,8% em 2019, deve cair para 4,7% em 2030, o que representa redução de 30,1%.

A queda no consumo de bebidas açucaradas também deve ocorrer em ritmo superior ao previsto inicialmente. Segundo o levantamento, o percentual de consumo regular desse tipo de bebida deverá passar de 15% para 3,2%, superando em 162% a meta traçada. Apesar disso, outros indicadores apresentaram projeções negativas. O consumo episódico excessivo de álcool deverá subir de 18,8% para 21,3%, ficando 133% acima da meta estabelecida. Entre as mulheres, o crescimento proporcional é ainda maior.

O levantamento também mostra que o consumo de frutas e hortaliças deve avançar de 22,9% para 24,5%, o equivalente a apenas 23,3% da meta prevista. Já a prática de atividade física no lazer deve crescer de 39% para 45,3%, alcançando somente 53,8% do objetivo definido. Os pesquisadores alertam que esses resultados podem contribuir para o aumento das doenças crônicas não transmissíveis no país ao longo da próxima década.

A obesidade é uma das condições que devem seguir em expansão. Segundo o estudo, a taxa deve crescer de 20,3% para 28,3% da população brasileira até 2030, índice superior à meta nacional de 29,4%, que previa interrupção do avanço da doença.

As projeções relacionadas ao diabetes também indicam crescimento. A prevalência da doença deve passar de 7,4% para 10,9%, aumento de 47,3%. No caso da hipertensão arterial, a taxa poderá subir de 24,5% para 27,3%, crescimento de 11,4%, também acima das metas estabelecidas.

Os autores destacam que, embora o cenário geral ainda seja de preocupação, políticas públicas implementadas nos últimos anos tiveram impacto positivo em alguns indicadores, principalmente no combate ao tabagismo e na redução do consumo de bebidas açucaradas.

Segundo Jacqueline Wahrhaftig, autora do estudo, doutoranda em Saúde Coletiva na Universidade Federal de São Paulo (Unifesp) e pesquisadora do CRÔNICAS/Unifesp, medidas adotadas ao longo dos anos contribuíram diretamente para a redução do número de fumantes. “Em relação às bebidas, citam que políticas públicas como tributação, rotulagem frontal, proibições de publicidade e restrições de venda em escolas podem ter contribuído para a melhora, além de uma maior conscientização sobre os danos dos produtos”, afirmou.

Ela ressaltou, porém, que os dados mais recentes indicam desaceleração na tendência de queda observada anteriormente. “No entanto, a análise mostrou que o período mais recente, de 2015 a 2023, apresentou sinais de estagnação na tendência”, disse.

A pesquisadora também avaliou o cenário do tabagismo no país. “O mesmo vale para o tabagismo. Eles citam que políticas de controle do tabaco de longa data no Brasil, como proibição de publicidade, tributação, ambientes livres de fumo e advertências sanitárias com imagens, contribuíram para a queda ao longo do tempo. No entanto, evidências recentes sugerem uma possível estabilização”, afirmou. Jacqueline destacou ainda que as projeções representam uma estimativa baseada em dados passados e podem sofrer alterações de acordo com mudanças sociais e econômicas.

“Esse é um estudo de predição, que usa dados do passado. Então o cenário pode mudar dependendo de mudanças na sociedade”. Fatores ligados ao ambiente urbano e às condições econômicas também influenciam a alimentação e a prática de exercícios.