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Economia

Novos mercados para produtos do RN não se constroem rápido, diz Serquiz

Presidente da Fiern defende moderação do governo brasileiro e uso da diplomacia para tentar reverter taxação de 50% anunciada pelo presidente dos EUA, Donald Trump
Redação
18/07/2025 | 04:13

A ameaça do presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, de impor uma tarifa de 50% sobre a importação de produtos brasileiros a partir de 1º de agosto preocupa diretamente a economia do Rio Grande do Norte.

O presidente da Federação das Indústrias do Estado (Fiern), Roberto Serquiz, avalia que, apesar dos esforços para diversificar os destinos das exportações potiguares, não existe solução rápida para substituir o mercado americano, hoje responsável por parte expressiva da pauta local. Por isso, ele defende que o Brasil busque uma saída diplomática e técnica para evitar a taxação e garantir a continuidade das vendas.

Roberto Serquiz Presidênte da FIERN (100)
Presidente da Fiern, Roberto Serquiz, cita que Estados Unidos já são destino consolidado para produtos brasileiros. Foto: José Aldenir

“Não se constrói um mercado novo de um dia para o outro”, afirmou Serquiz em entrevista à 98 FM, ao comentar as dificuldades enfrentadas pelos setores mais afetados no Estado, como pesca, sal, balas caramelos e, em menor escala, fruticultura e petróleo. Juntos, esses segmentos somaram US$ 47 milhões em exportações para os Estados Unidos apenas no primeiro semestre deste ano e sustentam cerca de 21 mil empregos diretos.

A preocupação é reforçada pelo perfil desses mercados, cuja clientela americana foi construída ao longo de décadas e dificilmente será substituída no curto prazo. “Nosso pescado é muito bem aceito nos Estados Unidos. Existe um público consumidor formado há anos, com fluxo permanente. Para construir isso, tem um tempo. Nessa vacância, tem uma perda”, diz o presidente da Fiern.

Além da dificuldade natural de reposicionar produtos em novos mercados, o Rio Grande do Norte enfrenta um entrave adicional: a precariedade da sua infraestrutura logística. Hoje, a maior parte das exportações potiguares depende de portos localizados fora do Estado, como Pecém (CE) e Suape (PE), o que encarece e alonga prazos de entrega.

Um exemplo citado por Serquiz é o da fruticultura, setor que recentemente obteve autorização para exportar melões ao mercado asiático. Apesar do avanço, há obstáculos logísticos. “O produto precisa chegar à Ásia em até 28 dias. E isso não pode ocorrer em função da nossa estrutura aqui”, pontua.

O presidente da Fiern lembra ainda que outros potenciais destinos, como a União Europeia, impõem barreiras sanitárias que não podem ser vencidas de forma imediata. No caso da pesca, por exemplo, as dificuldades para acessar o mercado europeu já são conhecidas do setor.

Diante desse cenário, Serquiz vê com preocupação as declarações de autoridades brasileiras que defendem responder à taxação americana com medidas de retaliação comercial. Ele avalia que esse tipo de postura tende a agravar a situação e dificultar a busca por um entendimento que preserve os interesses econômicos do Brasil. “Revide não é interessante. Não é este o momento de usar retaliação”, afirma.

Para ele, a solução passa por manter a interlocução em nível técnico e diplomático, como sinaliza recente movimento do Governo Federal.

Lula diz que taxa é “chantagem inaceitável” de Trump

Em pronunciamento em cadeia nacional de rádio e televisão, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) afirmou que a sobretaxa de 50% anunciada por Trump é uma chantagem inaceitável e que se baseia em informações falsas.

“O Brasil sempre esteve aberto ao diálogo. Fizemos mais de 10 reuniões com o governo dos Estados Unidos, e encaminhamos, em 16 de maio, uma proposta de negociação. Esperávamos uma resposta, e o que veio foi uma chantagem inaceitável, em forma de ameaças às instituições brasileiras, e com informações falsas sobre o comércio entre o Brasil e os Estados Unidos”, afirmou Lula.

O pronunciamento do presidente teve 4 minutos e 50 segundos de duração.

Sem citar o nome de políticos brasileiros, Lula lamentou que haja no Brasil “traidores da pátria”.
“Minha indignação é ainda maior por saber que esse ataque ao Brasil tem o apoio de alguns políticos brasileiros. São verdadeiros traidores da pátria. Apostam no quanto pior, melhor. Não se importam com a economia do País e os danos causados ao nosso povo”.

Sobre a cobrança de Trump para que o Brasil mude o tratamento dado ao ex-presidente Jair Bolsonaro (PL), Lula falou: “Contamos com um Poder Judiciário independente. No Brasil, respeitamos o devido processo legal, os princípios da presunção da inocência, do contraditório e da ampla defesa. Tentar interferir na justiça brasileira é um grave atentado à soberania nacional”, afirmou Lula.

Lula falou sobre as ações do governo para tentar reverter a taxação. “Estamos nos reunindo com representantes dos setores produtivos, sociedade civil e sindicatos. Essa é uma grande ação conjunta que envolve a indústria, o comércio, o setor de serviços, o setor agrícola e os trabalhadores”, disse o presidente no pronunciamento.

Mais cedo, em Goiânia (GO), Lula disse que o Brasil vai taxar empresas de tecnologia americanas e defendeu mais controle sobre redes sociais, medida que é alvo de crítica da gestão Trump. O petista também afirmou que Alckmin e o ministro de Relações Exteriores, Mauro Vieira, têm tentado negociar com o governo Trump há pelo menos dois meses, sem qualquer resposta.

“Eles [o governo americano] não tiveram preocupação com os prejuízos que essa taxação vai trazer ao Brasil, à indústria, ao agronegócio.” O presidente brasileiro também afirmou que o governo vai responder “da forma mais civilizada possível e como um democrata”.

“Vamos sacrificar o Brasil por causa do Bolsonaro?”, pergunta Haddad

O ministro da Fazenda, Fernando Haddad, elevou o tom ao comentar os impactos da ameaça do presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, de impor uma tarifa de 50% sobre produtos brasileiros a partir de 1º de agosto.

Em entrevista ao Estadão/Broadcast publicada na íntegra nesta quinta-feira 17, Haddad classificou como “inversão de valores” a tentativa da família Bolsonaro de se apresentar como interlocutora na crise comercial com os EUA.

Segundo o ministro, o apoio explícito de Trump a Jair Bolsonaro — citado na carta em que o presidente americano anuncia as novas tarifas — não pode ser tratado como assunto pessoal ou político.
“A gente já viu filmes de guerra. Um soldado se sacrificar por um país é coisa rotineira. Mas um soldado sacrificar o seu país por si mesmo é uma coisa que vai dar uma série de TV. Não é possível uma coisa dessas. Vamos sacrificar o Brasil por causa do Bolsonaro? Ele que devia estar se sacrificando pelo Brasil”, disse Haddad.

O ministro afirmou que a família Bolsonaro está “toda articulada em torno de si mesma e não tem uma palavra de nenhum membro em proveito do país”. Afirmou ser uma família que é “problema para o país inteiro” e que “eles produziram a situação”.

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