O governo do presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) promoveu uma série de movimentos no comando da Petrobras em meio à pressão provocada pela alta dos combustíveis no mercado internacional. As mudanças envolvem tanto o Conselho de Administração quanto a diretoria executiva da companhia, em um contexto de maior intervenção política nas decisões estratégicas da estatal.
A principal alteração diz respeito à indicação do economista Guilherme Mello, atual secretário de Política Econômica do Ministério da Fazenda, para assumir a presidência do Conselho de Administração da Petrobras. Ele deve ocupar a vaga aberta com a saída de Bruno Moretti, que deixou o colegiado ao ser nomeado ministro do Planejamento e Orçamento — função incompatível com o cargo na estatal, conforme determina a Lei das Estatais.

Até a realização da assembleia de acionistas, marcada para o dia 16, o comando interino do Conselho ficará com Marcelo Weickert, indicado pelo governo. A expectativa é que Mello seja eleito conselheiro e, na sequência, escolhido presidente do colegiado, onde o governo federal detém maioria dos votos.
O Conselho de Administração exerce papel central na governança da Petrobras, sendo responsável por definir diretrizes estratégicas, aprovar o plano de negócios, eleger a diretoria executiva e supervisionar a gestão da companhia. Por isso, o posto é considerado um dos principais canais de influência do Palácio do Planalto sobre a estatal.
A movimentação também altera os rumos da equipe econômica. Guilherme Mello deixa de ser cotado para uma diretoria do Banco Central do Brasil, hipótese que enfrentava resistências no mercado financeiro e dentro da própria instituição. Com isso, o presidente do BC, Gabriel Galípolo, deve ganhar mais protagonismo na definição de futuros indicados. Nos bastidores, há a intenção de incluir ao menos uma mulher entre os próximos nomes, com destaque para Carolina Pancotto.
No Ministério da Fazenda, a tendência é que a atual subsecretária de política fiscal, Débora Freire, assuma o lugar de Mello na Secretaria de Política Econômica. Paralelamente, o economista também deve migrar para a secretaria-executiva do Ministério do Planejamento, reforçando sua posição dentro do governo.
Diretoria executiva
As mudanças no Conselho ocorrem simultaneamente a uma reconfiguração na diretoria executiva da Petrobras. O Conselho decidiu pelo desligamento imediato de Claudio Schlosser, que ocupava a diretoria de Logística, Comercialização e Mercados — uma das áreas mais estratégicas da companhia. Em nota, a estatal informou o “encerramento antecipado” do mandato do executivo.
A saída ocorre após episódios recentes que geraram desgaste interno, especialmente relacionados a leilões de combustíveis. Um deles envolveu a venda de gás liquefeito de petróleo (GLP), o gás de cozinha, com preços acima dos valores de referência definidos pela empresa, o que provocou reação negativa dentro do governo. Situação semelhante já havia ocorrido anteriormente com o diesel.
O presidente Lula chegou a se manifestar sobre o caso e indicou que o leilão seria anulado. O episódio ocorreu em um momento em que o governo avalia a criação de uma subvenção temporária para o GLP, o que intensificou o desconforto na cúpula da estatal. A presidente da Petrobras, Magda Chambriard, classificou o episódio como um ato de insubordinação e determinou o afastamento de um gerente ligado ao processo.
Para substituir Schlosser, foi indicada Angélica Laureano, que ocupava a diretoria de Transição Energética e Sustentabilidade. Ela assume a nova função com mandato previsto até abril de 2027. Já o diretor William França passará a acumular interinamente a área anteriormente comandada por Angélica.
A diretoria de Logística, Comercialização e Mercados concentra decisões fundamentais para o funcionamento da Petrobras. É responsável pela venda de combustíveis no mercado interno e externo, pela definição de políticas comerciais e pela negociação com clientes. Também coordena operações de importação e exportação, além de garantir o escoamento da produção e o abastecimento nacional.
Na prática, trata-se de um dos principais núcleos de geração de receita da companhia, com influência direta sobre preços de combustíveis como gasolina, diesel, GLP, querosene de aviação e biocombustíveis. Por isso, mudanças nessa área costumam ter repercussões relevantes tanto no mercado quanto na política energética do país.
Nos bastidores, fontes apontam que havia crescente insatisfação do governo com decisões recentes da estatal, especialmente em relação à condução dos leilões de combustíveis. A combinação entre pressão internacional sobre os preços do petróleo e a necessidade de controle inflacionário ampliou o grau de atenção do Planalto sobre a atuação da Petrobras.