As filas de brasileiros em postos migratórios do Paraguai se tornaram mais frequentes em 2025, em um movimento impulsionado por razões econômicas, tributárias, ideológicas e pela busca de menor custo de vida. Segundo dados da Direção Nacional de Migrações do Paraguai, 23.526 brasileiros receberam autorização de residência no país no ano passado, número que mais do que dobrou em relação a 2020, quando pouco mais de 10 mil brasileiros iniciaram o processo migratório.
O contingente brasileiro representou mais da metade dos 40,6 mil pedidos totais de residência registrados pelo governo paraguaio em 2025 e ficou muito acima da segunda principal nacionalidade da lista, os argentinos, com 4,3 mil solicitações.

A proximidade geográfica, as facilidades migratórias proporcionadas pelo Mercosul e os custos tributários mais baixos aparecem entre os fatores que explicam o crescimento do fluxo migratório. Nas redes sociais, relatos de brasileiros que se mudaram para cidades paraguaias ganharam alcance, sobretudo em conteúdos ligados a empreendedorismo, poder de compra e qualidade de vida.
Há um ano, a comerciante Gleita Barbosa, de 49 anos, deixou São Paulo para viver em Cidade do Leste, município localizado na tríplice fronteira entre Brasil, Paraguai e Argentina. Segundo ela, a decisão teve motivação política e econômica.
— Estávamos desgostosos e cansados de viver no Brasil por conta da situação política e viemos sem planejamento nenhum. Tivemos um período de adaptação, mas foi a melhor decisão que tomamos, me arrependo até de não ter vindo antes. Não que o Paraguai seja perfeito, mas sentimos que aqui temos mais oportunidades. No Brasil tínhamos que matar dez leões por dia, e aqui são só dois. Virei paraguaia de coração — afirmou.
Além de famílias em busca de menor custo de vida, especialistas apontam diferentes perfis entre os brasileiros que decidem migrar para o Paraguai. O professor de Direito Internacional da Universidade de São Paulo (USP), Solando Camargo, afirma que o movimento envolve empresários, investidores, estudantes e produtores rurais.
— Não existe um único perfil. Há empresários e empreendedores que enxergam um ambiente de menor custo operacional, tributação simples e menor burocracia. Há ainda o fenômeno histórico dos chamados “brasiguaios”, ligado ao agronegócio, que são pessoas em busca de terras mais baratas e expansão agrícola. Estudantes brasileiros, especialmente nas áreas de Medicina e Odontologia, também vão ao Paraguai por conta das mensalidades universitárias mais acessíveis e processos de ingresso menos competitivos. E há famílias buscando menor custo de vida, como aposentados ou investidores imobiliários interessados em reorganização patrimonial — disse.
O especialista também alertou para o que chamou de “romantização do processo” nas redes sociais.
— O país não oferece a mesma estrutura estatal e institucional do Brasil, como SUS, um sistema judiciário mais estruturado, um Ministério Público forte, maior digitalização estatal ou uma máquina administrativa mais sofisticada — afirmou.
Na área econômica, o Paraguai tem ampliado políticas de atração de investimentos estrangeiros. Um dos principais mecanismos é a Lei de Maquila, que permite que empresas estrangeiras produzam no país para exportação pagando uma taxa única de 1% sobre o faturamento exportado.
O sistema tributário conhecido como “10-10-10” também é apontado como um atrativo. O modelo estabelece alíquotas de 10% para Imposto de Renda de Pessoa Física, 10% para Pessoa Jurídica e 10% para o Imposto sobre Valor Agregado (IVA), equivalente ao imposto sobre consumo.
Segundo Lígia de Souza Cerqueira, secretária da Comissão Especial de Direito Internacional da OAB de São Paulo, a diferença tributária impacta diretamente no poder de compra.
— Na América do Sul, é o percentual mais baixo. No Brasil, por exemplo, como só a alíquota do IRPF pode chegar até a 27,5%, pode fazer muita diferença no bolso para uma pessoa de classe média. Além disso, no Paraguai ela consegue adquirir bens, como um celular moderno, pela metade do preço — explicou.
O mercado imobiliário também aparece como um dos fatores de atração. De acordo com especialistas citados no levantamento, o aluguel de imóveis de alto padrão em Assunção pode custar entre 40% e 60% menos do que propriedades equivalentes em cidades como São Paulo e Rio de Janeiro.
O professor de Relações Internacionais da USP Pedro Feliú avalia que o governo paraguaio tem atuado para ampliar a entrada de imigrantes e empresas estrangeiras.
— O Paraguai quer isso e investe em política de atração de imigrantes. E, no caso brasileiro, o impacto não é tão grande, muito embora a questão das maquiladoras na fronteira tenha atraído muitas empresas nacionais. Não vejo reação negativa na elite política do Brasil ou mesmo no Itamaraty — afirmou.
O aumento da presença de empresas brasileiras também é associado ao custo de energia elétrica, que pode ser até 60% menor no Paraguai, e à estabilidade macroeconômica do país, mantida após uma sequência de governos de perfil liberal.
Para Suelen Raizer, fundadora da consultoria tributária Frontexa, parte das empresas brasileiras passou a ver a internacionalização como uma medida de sobrevivência.
— Para muitas empresas, principalmente industriais, internacionalizar parte da operação deixou de ser uma decisão de expansão e passou a ser sobre sobrevivência competitiva — disse.
O processo migratório foi simplificado após o Acordo do Mercosul, que entrou em vigor em maio. Ainda assim, a residência não é automática e depende de análise administrativa. O procedimento exige solicitação inicial de residência temporária, válida por até dois anos, seguida de conversão para residência permanente.
Entre os documentos exigidos estão RG ou passaporte válido, certidões de nascimento ou casamento, antecedentes criminais da Polícia Federal brasileira, da Justiça Estadual, da Polícia Nacional do Paraguai e da Interpol paraguaia, além de comprovante de entrada legal no país.
O advogado Alessandro Vieira Braga, especialista em Direito Imigratório e Direito Internacional Público e Privado, afirma que brasileiros que ultrapassam o período permitido sem regularização podem enfrentar restrições administrativas.
— O brasileiro pode entrar como turista, com isenção de visto, e permanecer por até 90 dias. Se não iniciar o processo de residência e ultrapassar esse prazo, ele passa a ter o status migratório irregular. Nesse caso, pode receber uma multa por estadia vencida, cobrada na fronteira no momento em que a pessoa tenta sair do país, ou até mesmo ter uma “morte civil”, ficando impossibilitado de abrir contas bancárias, assinar contratos de aluguel formais, obter diplomas universitários válidos ou registrar empresas — afirmou.