A disparada dos preços do petróleo provocada pela guerra no Oriente Médio levou a indústria global de aviação a revisar para baixo suas expectativas de rentabilidade em 2026. Embora a demanda por viagens aéreas continue em expansão, o aumento dos custos com combustível deve reduzir quase pela metade o lucro líquido das companhias aéreas em relação às projeções anteriores, além de manter a pressão sobre as tarifas cobradas dos passageiros.
Novas estimativas divulgadas pela Associação Internacional de Transporte Aéreo (Iata) apontam que as empresas do setor deverão registrar lucro líquido combinado de US$ 23 bilhões neste ano. O valor representa uma redução significativa em relação à previsão anterior, de US$ 41 bilhões, e também fica abaixo do resultado estimado para 2025, de US$ 45 bilhões.

Com isso, a margem líquida média das companhias aéreas deve recuar para apenas 2% em 2026. No ano passado, o indicador alcançou 4,2%, enquanto a expectativa inicial para este ano era de 3,9%.
Os números foram apresentados durante a reunião geral anual da Associação Internacional de Transporte Aéreo, realizada na Rio de Janeiro. O encontro reúne executivos e representantes das principais empresas aéreas do mundo e marca a terceira vez que o Brasil recebe o evento. As edições anteriores ocorreram em Petrópolis, em 1947, e novamente no Rio, em 1999.
A deterioração do cenário reflete principalmente o impacto da guerra entre Irã e Israel sobre o mercado internacional de energia. O conflito, iniciado no fim de fevereiro, provocou forte volatilidade nos preços do petróleo e afetou diretamente o transporte aéreo, sobretudo no Oriente Médio, onde aeroportos foram atingidos e empresas precisaram rever operações.
Companhias como Emirates e Qatar Airways reduziram voos após semanas de restrições e fechamento de espaços aéreos na região. Na segunda-feira, o petróleo Brent, referência global, chegou a avançar 3,6%, alcançando US$ 96,47 por barril após novos ataques iranianos contra Israel.
O principal efeito para as empresas aéreas ocorre sobre o querosene de aviação (QAV), que responde por entre 30% e 40% das despesas operacionais do setor. Segundo a Iata, os gastos globais com combustível deverão atingir US$ 350 bilhões em 2026, crescimento de cerca de 40% em relação aos US$ 252 bilhões registrados no ano anterior.
Apesar do aumento dos custos, a demanda por transporte aéreo segue resiliente. A entidade projeta que o número de passageiros transportados em todo o mundo alcance 5,1 bilhões neste ano, avanço de 2,4% em relação ao período anterior.
Caso sejam desconsideradas as operações de e para o Oriente Médio, o crescimento global chegaria a 3,5%, segundo o diretor-geral da Iata, Willie Walsh. Para ele, embora o ambiente seja desafiador, o setor permanece distante da situação enfrentada durante a pandemia.
“Não vejo o quadro atual como uma crise, estamos vendo uma indústria que ainda projeta lucratividade e crescimento. Na Covid-19, estávamos presos ao chão”, afirmou.
A perspectiva para os próximos meses, porém, indica pouca chance de alívio imediato. Eleanor Budds, diretora de pesquisa de Refino e Combustíveis Globais da S&P Global, afirmou que novas pressões sobre os preços do QAV podem surgir durante o verão norte-americano, período de forte consumo de gasolina nos Estados Unidos.
Segundo ela, a combinação entre petróleo valorizado e estoques reduzidos deverá levar refinarias a priorizar a produção de gasolina em detrimento do combustível de aviação.
“Isso significa que as refinarias vão ter que deixar de lado a quantidade extra de QAV que estavam produzindo, voltando a produzir mais gasolina”, afirmou.
A economista-chefe da Iata, Marie Owens Thomsen, observou que, historicamente, as empresas absorvem apenas parte dos aumentos nos custos com combustível, repassando o restante aos consumidores por meio de tarifas mais elevadas.
“Desde a Covid, não tivemos um momento tranquilo”, disse a presidente global da KLM, Marjan Rintel. Segundo ela, a demanda continua forte, inclusive em mercados como o brasileiro, apesar da perspectiva de passagens mais caras.
No Brasil, executivos apontam que o aumento do combustível se soma a fatores estruturais que elevam os custos operacionais. Durante um dos painéis do evento, o CEO da Latam Brasil, Jerome Cadier, afirmou que ainda persiste uma percepção equivocada sobre a rentabilidade do setor.
“Existe essa crença de que os preços são altos porque as companhias ganham muito dinheiro. É mais um mito com o qual temos que brigar. Os preços são altos porque o custo de operar no Brasil já é elevado. O custo de combustível, a ineficiência no uso da mão de obra, o custo com ações judiciais”, disse.
O presidente global da Latam Airlines Group, Roberto Alvo, também afirmou que o setor precisará continuar ajustando sua capacidade diante da expectativa de que os preços dos combustíveis permaneçam elevados por um período prolongado.
Além da pressão energética, a indústria enfrenta dificuldades decorrentes dos atrasos na cadeia global de fornecimento de aeronaves. Walsh criticou o ritmo de entregas das fabricantes, que ainda enfrentam consequências dos gargalos surgidos durante a pandemia.
A limitação na oferta de novos aviões restringe a expansão da capacidade das companhias em um momento de crescimento da demanda, contribuindo para manter as passagens em patamares elevados e dificultando os planos de redução das emissões de carbono do setor.
Enquanto a Embraer informou que entregou 44 aeronaves no primeiro trimestre, crescimento de 47% em relação ao mesmo período do ano passado, fabricantes como a Airbus já comunicaram a clientes atrasos em entregas previstas para 2027 e 2028, especialmente dos modelos da família A320neo.
O cenário reforça a avaliação de executivos do setor de que a aviação continuará crescendo, mas com rentabilidade pressionada por custos elevados e desafios operacionais que devem persistir nos próximos anos.