Vídeos hiper-realistas gerados por inteligência artificial têm provocado um fenômeno curioso e inquietante: pessoas passeiam, por exemplo, por programas de TV comandados por apresentadores já mortos e despertam emoções genuínas em quem assiste. Não é raro alguém se emocionar com essas imagens, mesmo sabendo – ou desconfiando – de que tudo foi criado por IA. Nesse cenário, a pergunta que começa a se impor não é mais “isso é real?”, e sim “isso me entretém?”.
Essa mudança ajuda a entender o momento atual das artes diante do avanço acelerado da IA. Em meio a comentários de “sabichões” nas redes sociais que se apressam em explicar que determinado conteúdo “é IA”, cresce a sensação de que essa explicação já não importa tanto assim. Quem consome não parece preocupado em separar verdade e mentira, desde que o conteúdo entretenha, emocione ou divirta. A lógica não é nova – vivemos há anos com filtros e Photoshop –, mas agora ela se radicaliza. A mentira deixa de ser um subtexto e passa a ser parte assumida do espetáculo.

Esse debate ecoa reflexões antigas. Jean Baudrillard falava do simulacro – algo que não é real, mas funciona como real e satisfaz como real. Neil Postman alertava que a verdade perde relevância quando tudo vira entretenimento. Yuval Noah Harari, mais recentemente, aponta que o poder do futuro não estará em descobrir a verdade, mas em criar histórias melhores que as outras. A questão agora é: quando tudo for entretenimento, ainda vamos querer a verdade?
A música talvez seja hoje o campo mais visível dessa transformação. Um exemplo recente envolve o álbum “The Life of a Showgirl”, da Taylor Swift, cujo hit “The Fate of Ophelia” viralizou nas redes sociais. A partir dele, brasileiros criaram uma versão em IA chamada “A sina de Ofélia”, com vozes de Luísa Sonza e Dilsinho – sem a participação de nenhum dos três artistas. Ainda assim, a faixa se espalhou, agradou e está sendo consumida como qualquer outro produto cultural. Para boa parte do público, o fato de ser IA não diminuiu o interesse.
Segundo o professor Daniel Gomes de Oliveira, coordenador do curso de Análise de Sistemas e Ciências da Computação da Estácio, esse caminho é praticamente inevitável. Ele relata experiências concretas em sala de aula: “tive um aluno que me mostrou outro dia uma música que ele criou. A letra é dele, mas pediu para uma dessas IAs gerar a melodia em cima daquela letra”. Segundo Daniel, o processo já permite escolhas estéticas detalhadas: “ele pode definir se quer no estilo rock, se ele quer sertanejo, como que ele quer essa canção”.
É aí que surgem dilemas centrais para o campo artístico e jurídico. “Isso daí é uma discussão que é em relação à questão da propriedade intelectual. Porque, por exemplo, o fato de criar o prompt, ele garante que eu detenho os direitos sobre aquela música ou os direitos são da empresa que gerou a IA?”.
De acordo com o professor, os próprios termos de uso já apontam um caminho preocupante: “na maioria das vezes, os termos de uso das inteligências artificiais falam que tudo que é criado lá dentro da IA pertence à empresa que gerou a IA”.
Esse cenário de incerteza é recente. “A gente vive um momento meio incerto, porque a IA viralizou tem praticamente um ano e meio, dois anos”, observa Daniel. Ao mesmo tempo em que surgem ferramentas para identificar conteúdos artificiais, a tecnologia avança no sentido oposto.
“A IA avança no sentido de ficar cada vez mais perfeita e dificulta um pouco aquela identificação. Os sistemas de verificação não oferecem garantias, eles batem de frente com o avanço na perfeição da criação. Então nem sempre é garantido que aquela ferramenta vai te devolver um 100% da verificação”.
Sobre o debate no consumo cultural, Daniel é direto. Questionado se o público vai simplesmente aceitar produtos criados por IA, ele responde que sim. Um dos motivos é a possibilidade de ressuscitar artisticamente quem já morreu. “Se eu tenho um trecho de voz daquela pessoa, posso pedir para a IA identificar o timbre e gerar uma música nova para mim”.
Para ele, a lógica industrial da música já aponta esse caminho há tempos. “Existem algumas empresas que criam músicas com vários compositores. É como se fosse uma fábrica de música. Que não deixa de ser algo muito próximo do que a IA faz, só que a IA faz isso de uma forma mais rápida”.
A arte, portanto, não está sendo ameaçada – está sendo redefinida. A autoria se dilui, a verdade se relativiza e o valor simbólico se desloca do “quem fez” para o “o que me fez sentir”. Talvez o público do futuro não admire artistas, mas experiências. Talvez não se importe se uma canção foi composta por um humano, uma máquina ou ambos. Se interessar, basta.
É praticamente uma revolução tecnológica, cultural e ética. Aliás, esse texto foi produzido com auxílio de IA.