Entre o humor, o jornalismo e os vídeos que viralizam nas redes sociais, Tallyson Moura construiu uma presença digital marcada pela identidade nordestina e pela observação do cotidiano.
Natural de uma cidade de 8 mil habitantes, ele ganhou projeção nacional ao transformar expressões, memórias e debates sociais em conteúdos que misturam pesquisa, deboche e identificação.

Em entrevista à revista Cultue, o influenciador falou sobre internet, sotaque, carreira e o desejo de crescer sem “abandonar a alma no caminho”.
Cultue: Quem é Tallyson Moura fora das redes sociais?
Tallyson: Fora das redes, eu sou um cara muito simples vivendo uma vida muito básica. Minha rotina se resume basicamente a trabalho, estudo e treino. Gosto também de conversar, ouvir histórias, rir de besteira e observar as pessoas, mas passo muito tempo sozinho com meus próprios pensamentos. Acho que meu conteúdo vem muito dessa curiosidade genuína pelo jeito que as pessoas vivem, falam e sentem, e também do espaço que tenho pra refletir sobre isso. Sou muito mais “na minha” do que as pessoas imaginam.
Cultue: Como começou sua trajetória na internet?
Tallyson: Minha trajetória na internet começou muito antes de eu postar vídeos no meu perfil. Começou nos bastidores, como jornalista, assessor de imprensa e repórter. Mas botando a minha cara mesmo, teve um primeiro start na pandemia, num período em que todo mundo estava borbulhando de pensamentos e precisando extravasar. Comecei falando de coisas que me atravessavam. E mesmo tendo um alcance muito bom logo no início, passei longos períodos sem postar um único vídeo. Minha relação com a criação de conteúdo é meio como um namoro turbulento, cheio de idas e vindas. Acho que ela só ficou mais sólida de junho de 2025 pra cá, quando tive meu primeiro viral.
Cultue: Você imaginava que criar conteúdo viraria profissão?
Tallyson: Na verdade, ainda tenho um pouco de dificuldade de me enxergar como criador de conteúdo profissional. É tudo muito novo e ainda não é o que me sustenta financeiramente. Hoje, meu trabalho principal ainda é como redator publicitário de uma agência do Rio de Janeiro. Acho que comecei a criar na internet muito mais pela necessidade de me expressar do que pensando em profissão. Mas agora chegou um momento em que parece que a coisa ficou séria. Tem muita gente querendo ouvir o que eu tenho a falar. E isso vem com uma senhora responsabilidade. Não só com o que eu falo, mas também em ter rotina, constância e disciplina.
Cultue: O humor sempre foi sua principal forma de comunicação?
Tallyson: O nordestino tem uma inteligência muito própria no jeito de rir da vida, né? Acho que herdei isso também. Essa coisa da tirada rápida. Mas não me vejo exatamente como alguém do humor, apesar de ter viralizado justamente em um vídeo que usa o deboche de ponta a ponta.
Cultue: O que mais inspira seus vídeos e ideias?
Tallyson: O cotidiano. Sempre. Uma frase que ouvi na academia, uma lembrança da infância, uma conversa de família, uma expressão nordestina, uma injustiça, um orgulho. Eu gosto de falar de coisas que dizem muito sobre quem a gente é. E gosto de fazer isso buscando dados reais, recurso que trago do jornalismo. Uma amiga minha um dia disse: “Nordestino é tão cheiroso que não manda beijo. Manda ‘chêro’.” Fui pesquisar e descobri que aquilo realmente fazia sentido: somos o povo que mais consome perfume no Brasil. Virou vídeo. Tenho feito também homenagens a grandes nordestinos, para que a gente se reconheça no brilho deles.
Cultue: Como o jornalismo influencia o seu trabalho como influenciador?
Tallyson: O jornalismo me ensinou a observar, ouvir, organizar pensamento e contar histórias com clareza, de um jeito que da faxineira à juíza todo mundo entenda. Além disso, me trouxe compromisso com a informação. Meus roteiros sempre envolvem estudo, pesquisa e checagem. Acho que tudo isso faz diferença no meu conteúdo, mesmo quando o vídeo é engraçado ou leve.
Cultue: Você acha que ser nordestino molda a forma como você produz conteúdo?
Tallyson: Completamente. É quem eu sou, né? Eu não sei produzir conteúdo sem o Nordeste atravessando. Não só como tema, mas como olhar. O jeito nordestino de contar história, de usar humor, de criar intimidade, de explorar a interessância das coisas… tudo isso molda minha forma de comunicar. E meu sotaque deixa tudo que eu falo mais legal de ouvir. E é doido pensar que, quando entrei no jornalismo, eu fazia de tudo pra perdê-lo, porque vendiam essa falácia do “sotaque neutro”.
Cultue: Qual foi o momento em que você percebeu que tinha alcançado muita gente?
Tallyson: Acho que foi quando comecei a receber mensagens de pessoas de lugares muito diferentes do Brasil dizendo que se identificavam com o que eu falava. E também quando percebi que meus vídeos estavam saindo totalmente da bolha, chegando a lugares que nunca imaginei. Como nos stories da Xuxa, que postou meu último vídeo. Isso ainda é muito surreal pra mim.
Cultue: Qual conteúdo seu mais te marcou até hoje?
Tallyson: Já fiz muitos conteúdos dos quais me orgulho. Mas acho que o mais marcante foi o conteúdo em que usei IA com ícones do Nordeste, o maior viral até hoje, com cerca de 5 milhões de visualizações. Eu sou de uma cidade de 8 mil habitantes. Quando imaginei que seria visto por tanta gente assim? Rsrs Acho que ele foi a virada de chave definitiva, o momento em que a criação de conteúdo deixa de ser encarada como hobby ou brincadeira e passa a ser vista como trabalho mesmo.
Cultue: O que você ainda quer conquistar daqui pra frente?
Tallyson: Eu comecei a fazer terapia porque percebi que não tinha muitas ambições ou sonhos. Ia vivendo um dia de cada vez. Mas hoje meu projeto é crescer de fato na internet e começar a viver disso. Ganhar dinheiro mesmo, lógico, sem perder verdade. O fato de as coisas estarem acontecendo quando já tenho quase 40 anos me deixa muito mais com os pés no chão. Tô investindo, prospectando marcas e parcerias, mas sem deslumbre nem aperreio. Quero continuar criando coisas que façam as pessoas pensarem, se reconhecerem e sentirem orgulho de quem são. E também levar o Nordeste para lugares cada vez maiores, sem precisar abandonar a alma no caminho.