A abertura de um parque na margem da Avenida Engenheiro Roberto Freire está cada mais perto. Na semana passada, a Prefeitura do Natal, idealizadora do projeto, deu um importante passo para superar o entrave regulatório existente e, assim, permitir que a cidade ganhe efetivamente esse importante equipamento.
Em uma cidade historicamente carente de espaços públicos de qualidade, qualquer sinal concreto de que uma área verde poderá ganhar uso planejado e responsável merece atenção e incentivo, especialmente na Roberto Freire, área que, além do adensamento populacional, também é um corredor histórico.

Reportagem publicada pelo AGORA RN no fim de semana mostrou que a Prefeitura formalizou uma proposta de alteração do zoneamento ambiental do Parque das Dunas, respaldada em avaliações técnicas. Esse movimento muda a natureza do debate. Em vez de tentar avançar por atalhos, o Município levou a discussão para dentro do rito adequado: a revisão do plano de manejo, documento que funciona como a verdadeira bússola normativa da unidade de conservação.
O plano de manejo estabelece o zoneamento e os critérios rigorosos de uso da área. A proposta sugere reclassificar parte da atual Zona Primitiva 3 (ZP-3), ampliando a Zona de Uso Intensivo 2 (ZUI-2). Na prática, isso permitiria utilizar cerca de 8,1 hectares da área de 10 hectares cedida pelo Exército, preservando 1,9 hectare sob regras mais restritivas. É uma sugestão que mescla proteção ambiental com fruição pública.
Que a decisão final seja fruto de ponderação responsável, garantindo proteção ambiental e entrega efetiva de um equipamento digno.
A ideia inicial da Prefeitura era fazer um parque linear, avançando até 50 metros para dentro da vegetação ao longo da Roberto Freire. Ambientalistas resistiram, alegando afronta ao plano de manejo. De outro lado, agentes políticos se mostravam dispostos a acelerar a implantação do parque como símbolo de desenvolvimento urbano, sem considerar que uma unidade de conservação tem regras específicas de ocupação.
A apresentação da proposta revela uma maturidade institucional. A Prefeitura não ignorou as críticas nem insistiu em impor o projeto. Optou por formalizar o pedido de revisão do plano de manejo com base em estudos, submetendo-o ao crivo do colegiado responsável pela unidade de conservação: o Conselho Gestor. Sai de cena a lógica do confronto e entra a lógica da conciliação. Desenvolvimento urbano e preservação ambiental deixam de ser tratados como forças inconciliáveis. A proposta da gestão municipal é que as duas propostas convivam no mesmo projeto.
Natal precisa, com urgência, de mais espaços públicos bem cuidados, seguros e convidativos. Um parque urbano integrado ao Parque das Dunas pode representar ampliação do sentimento de pertencimento, estímulo à educação ambiental e criação de uma nova centralidade de convivência na Zona Sul. Espaços assim fortalecem laços comunitários e qualificam a paisagem urbana. O que também faz parte do conceito de meio ambiente.
Ainda assim, é preciso reconhecer que mesmo a implantação do parque não esgota o desafio estrutural da capital. Natal cresceu de forma fragmentada e pouco planejada, com frentes marítimas subaproveitadas e áreas nobres restritas a poucos. O caso da Via Costeira é emblemático: um dos trechos mais privilegiados do litoral potiguar segue, há décadas, praticamente limitado ao usufruto de hotéis e turistas. Falta uma política consistente que devolva esse patrimônio à cidade.
Pensar o parque da Roberto Freire como parte de uma estratégia urbana mais ampla é o verdadeiro teste. Planejamento de longo prazo, articulação entre mobilidade, meio ambiente e lazer, e coragem administrativa para enfrentar distorções históricas são requisitos indispensáveis.
Se o projeto avançar com responsabilidade técnica, respeito ao plano de manejo e qualidade arquitetônica, Natal ganhará não apenas um novo equipamento urbano. Ganhará um exemplo de que é possível conciliar proteção ambiental, desenvolvimento econômico e ampliação do espaço público. Isso, por si só, já é um sinal alentador de maturidade cívica e urbanística.
O novo parque será um avanço, mas não pode ser tratado como ponto final de uma política urbana que precisa ser muito mais ambiciosa.