As declarações do deputado Tomba Farias e do presidente da Fiern, Roberto Serquiz, convergem para um ponto que a política potiguar costuma evitar encarar de frente: o Rio Grande do Norte chegou a um estágio em que não existe mais solução confortável para o desequilíbrio fiscal do Estado.
O próximo governador herdará uma máquina pesada, um orçamento engessado e uma conta que já não fecha apenas com discurso, aumento de arrecadação ou medidas paliativas de fim de ano.

O problema deixou de ser conjuntural faz tempo. Tornou-se estrutural.
O Estado vive há anos preso a um ciclo perverso: arrecada quase tudo para pagar folha, aposentadorias e despesas obrigatórias, enquanto sobra cada vez menos para investimento, manutenção da estrutura pública e capacidade de reação econômica. Estradas se deterioram, hospitais operam no limite, escolas envelhecem e o governo segue dependente de transferências federais, emendas parlamentares e operações extraordinárias para sobreviver.
A crise previdenciária virou um ralo permanente do Tesouro. O déficit cresce em ritmo acelerado, consumindo recursos que poderiam estar em áreas essenciais. Ao mesmo tempo, o Estado segue pressionado pelos limites da Lei de Responsabilidade Fiscal, sem margem para financiamentos robustos com garantia da União.
É uma conta que sufoca o presente e sequestra o futuro.
Tomba tem razão ao dizer que o debate não pode ficar restrito ao Executivo. O problema fiscal do RN não será resolvido apenas pelo governador da vez, seja ele quem for. Assembleia Legislativa, Tribunal de Justiça, Ministério Público, Tribunal de Contas e demais órgãos com autonomia financeira terão de participar da discussão — inclusive aceitando rever despesas, estruturas e privilégios.
Esse talvez seja justamente o maior desafio.
No discurso, quase todos defendem responsabilidade fiscal. Na prática, poucos aceitam abrir mão de orçamento, vantagens ou expansão administrativa.
O pacto defendido agora parece racional. O difícil é transformá-lo em realidade política.
Porque qualquer reorganização séria exigirá medidas impopulares, desgaste institucional e disposição para enfrentar interesses consolidados há décadas.
E é exatamente aí que a conversa costuma parar.
Abalo reconhecido
Ao admitir que o caso “Dark Horse” abalou a pré-campanha de Flávio Bolsonaro, Rogério Marinho produziu um fato político relevante: reconheceu publicamente um desgaste que o entorno do pré-candidato tentava minimizar. Mais do que isso, ao afirmar que a relação com o banqueiro Daniel Vorcaro deveria ter sido exposta antes, o senador acabou admitindo falhas na condução da crise. Em política, muitas vezes o problema não é apenas o fato, mas a forma como ele é administrado.
Plano A, B e C
A entrevista ao O Globo também serviu para afastar especulações sobre uma eventual troca de candidato. Ao dizer que Flávio Bolsonaro é o “plano A, B, C e F” do grupo, Rogério Marinho procurou transmitir estabilidade em meio às turbulências. Ao mesmo tempo, colocou em circulação nomes como Júlia Zanatta, Tereza Cristina, Priscila Costa e Simone Marquetto para a vice-presidência, sinalizando que o PL já começou a discutir formas de ampliar sua frente política para além do bolsonarismo mais tradicional.
Consignado na conta
O Banco do Brasil cobrou do Governo do RN do Norte o repasse de R$ 377,4 milhões referentes a empréstimos consignados descontados dos salários dos servidores, mas não transferidos à instituição financeira. A cobrança, feita em notificação enviada em maio e revelada pela Folha de S.Paulo, expõe um impasse que já levou o banco a suspender, desde 2025, a concessão de novos consignados para servidores estaduais. O governo reconhece a dívida, afirma que negocia uma solução e promete regularizar a situação até o fim de 2026.