BUSCAR
BUSCAR
Opinião

Pagar a promessa ficou mais distante

Vagner Araujo reflete sobre os compromissos assumidos por Lula e Cadu na campanha e os desafios de transformar promessas em entregas
Vagner Araujo
27/10/2026 | 00:30

Aconteceu na minha região Oeste uma história dessas que parecem inventadas, mas que foi verdade. Um motoqueiro seguia para Patu quando, num posto de estrada, um senhor franzino pediu carona. Ia ao Santuário do Lima pagar uma promessa feita a Santa Rita.

O motoqueiro aceitou. O problema veio depois. Na estrada, acelerava demais, atravessava buracos, saltava quebra-molas, ultrapassava em locais perigosos, invadia acostamentos e quase se chocou de frente com uma carreta. O passageiro, agarrado como podia, já não sabia se chegaria vivo ao destino.

Rio Potengi e área de manguezal em Natal em fotografia de arquivo
Rio Potengi e área de manguezal em Natal (imagem de arquivo) — Foto: José Aldenir

Ao alcançar Patu, o motociclista parou próximo ao acesso à Serra do Lima e disse, satisfeito: “Pronto. Agora ficou mais perto para o senhor pagar sua promessa”.

Leia mais: Apenas 34 mil votos foram dados após 17h

O homem respondeu: “Mais perto, não. Agora ficou mais longe. No caminho, tive que fazer outra promessa, desta vez para Padre Cícero, no Juazeiro, para chegar vivo até aqui”.

A lembrança dessa história é inevitável depois das eleições deste domingo.

No Brasil e no Rio Grande do Norte, Lula e Cadu Xavier venceram disputas apertadas, depois de chegarem ao segundo turno sob forte pressão eleitoral. Lula foi reeleito com 51,79% dos votos válidos; Cadu conquistou o Governo do Estado após virar uma eleição igualmente acirrada. Em campanhas assim, cada voto parece exigir uma nova camada de compromisso.

Leia mais: Alecrim, 115 anos: o bairro que não parou de crescer

E foi exatamente isso que aconteceu. Para chegar à vitória, os candidatos precisaram ampliar alianças, incorporar demandas, assumir compromissos e acrescentar promessas às que já carregavam do primeiro turno — e, no caso de governos de continuidade, também às expectativas acumuladas anteriormente.

Ganharam a eleição. Mas aumentaram a distância entre a vitória e a entrega.

Um exemplo emblemático está em Natal: a promessa de uma terceira ponte sobre o rio Potengi, ligando as zonas Norte e Sul, assumida por Cadu e reforçada publicamente por Lula durante a campanha. É uma obra desejada, importante e de enorme impacto urbano. Mas também complexa, cara e dependente de estudos, projetos, licenciamento, financiamento e articulação institucional.

Leia mais: Eleitos para mandato de quatro anos, Cadu e Lula não tomarão posse em 1º de janeiro

Promessas eleitorais não são apenas frases de palanque. Depois da urna, transformam-se em cobrança, orçamento, prazo e responsabilidade.

A vitória, portanto, não encerra a campanha: apenas troca o palanque pela planilha, o discurso pelo orçamento e a expectativa popular pela obrigação concreta de entregar.

Lula e Cadu chegaram vivos ao destino eleitoral. Agora começa outra viagem.

Leia mais: Cadu vence em 118 cidades e supera força de Allyson nos grandes centros

E, como na história do passageiro de Patu, talvez tenham descoberto que, para vencer a corrida, precisaram fazer novas promessas.

A questão é que, a partir de agora, pagar todas elas ficou mais distante.

Vagner Araujo (@fvagner) é secretário do Planejamento de Natal