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Opinião

O preço da pressa para emagrecer

Alta na demanda e uso fora de indicação médica levam Anvisa a avaliar regras mais rígidas
Por O Correio de Hoje
08/04/2026 | 15:22

As chamadas canetas emagrecedoras passaram a ocupar lugar central no tratamento da obesidade, transformando abordagens clínicas recentes. A velocidade com que seu consumo cresceu, no entanto, impõe vigilância redobrada por parte das autoridades.

Esses dispositivos de aplicação subcutânea utilizam fármacos que reproduzem a ação do hormônio intestinal GLP-1, entre eles semaglutida, liraglutida e tirzepatida, substâncias que ampliam a sensação de saciedade e contribuem para o controle da glicemia. A liraglutida, por exemplo, já integra desde 2010 protocolos de tratamento do diabetes no Brasil, na Europa e nos Estados Unidos.

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O avanço regulatório também foi rápido. Em 2021, países desenvolvidos passaram a autorizar a semaglutida para a perda de peso. No Brasil, essa liberação ocorreu em 2023.

Paralelamente, o uso desses medicamentos extrapolou a indicação clínica e passou a atender objetivos estéticos, cenário que eleva o risco de efeitos adversos quando não há acompanhamento médico adequado.

O custo segue como barreira relevante. O Ozempic, à base de semaglutida, pode atingir R$ 1.387, enquanto o Mounjaro, que contém tirzepatida, chega a R$ 2.400.

Apesar disso, o volume de importações cresceu de forma expressiva. Dados do Ministério do Desenvolvimento indicam que o país saiu de US$ 644,9 milhões em 2023 para US$ 1,6 bilhão em 2025, o que representa aumento de 148%.

A legislação permite que farmácias de manipulação comercializem esses produtos, desde que em pequena escala e mediante prescrições médicas individualizadas. Na prática, porém, essas exigências vêm sendo descumpridas.

Informações da Agência Nacional de Vigilância Sanitária mostram que ao menos 100 kg de tirzepatida foram importados entre novembro de 2025 e abril deste ano, quantidade suficiente para cerca de 20 milhões de canetas de 5 mg. Em Florianópolis, uma farmácia de manipulação teve mais de 1,3 milhão de ampolas de tirzepatida apreendidas por técnicos da agência.

O contraste com a indústria formal é evidente. Laboratórios internacionais produzem entre 9 milhões e 10 milhões de canetas por ano.

Diante desse quadro, a Polícia Federal realizou em novembro a Operação Slim, voltada a estabelecimentos que atuam em larga escala sem controle de qualidade adequado.

Na segunda-feira, 6, a Anvisa informou que passará a analisar a adoção de critérios mais rigorosos para a importação de insumos utilizados na produção dessas canetas, além de mecanismos que assegurem a fabricação apenas mediante apresentação de prescrição médica.

As medidas se mostram indispensáveis para proteger os consumidores, especialmente diante da rápida disseminação de um tratamento que oferece ganhos relevantes no enfrentamento da obesidade, mas que exige condução cuidadosa.