O Rio Grande do Norte e Natal parecem aprisionados a um ciclo em que entra gestão, sai gestão, e a picuinha política permanece como regra. É eloquente a imaturidade de parte da classe política potiguar no enfrentamento dos problemas coletivos.
Em vez de convergirem em torno de soluções estruturais, grupos preferem o embate raso, a disputa por narrativa, o cálculo eleitoral imediato. Falta grandeza, visão de Estado e, sobretudo, compromisso efetivo com a população. Quantas gestões mais serão necessárias para mudar tal mentalidade?

Quando surgem problemas recorrentes, como os recentes transtornos causados pelas chuvas intensas em Natal, deveria haver apenas um caminho possível: união de esforços. Obras de drenagem, ampliação e manutenção de lagoas de captação, investimentos em macrodrenagem e infraestrutura urbana não são pauta de esquerda ou de direita.
No entanto, o que se vê é o contrário. No caso mais recente, deputados federais do Rio Grande do Norte optaram por transformar o drama real da população em dividendos políticos nas redes sociais. Fotos, vídeos, críticas inflamadas — mas pouca articulação concreta em Brasília para destravar recursos, acelerar projetos ou formar uma frente institucional em defesa da cidade.
O recente gesto do prefeito Paulinho Freire, ao conclamar adversários e aliados a se unirem na busca de recursos para obras estruturantes, merece reconhecimento. Por que insistir na lógica da disputa permanente quando o desafio exige cooperação?
Não se trata de defesa do governo municipal. Trata-se de reconhecer um fato: os problemas estruturais de Natal não nasceram agora. São antigos, acumulados ao longo de décadas. E, diante deles, é necessária articulação institucional.
Em meio à crise provocada pelo alagamento no Jardim Primavera, na Zona Norte de Natal, o prefeito foi para a linha de frente. Reconheceu que a gestão municipal falhou nos últimos anos ao não dar solução para os problemas de drenagem e prestou contas das ações realizadas pela atual administração para rever a situação.
Com humildade, pediu apoio da oposição, apelou para que os palanques de 2024 sejam desmontados. O gesto, aliás, mostra uma envergadura moral do prefeito. Talvez se fosse outro político mais vaidoso, orgulhoso e egoísta, teria dito que resolveria sozinho.
Episódios recentes demonstram, porém, que parte da oposição prefere o caminho do confronto e da demagogia, como falou o prefeito. Correm para o local da tragédia para explorar midiamente o sofrimento da população. E qual a contribuição efetiva para a solução do problema? Parecem em êxtase com o drama de natalenses.
Durante um debate no segundo turno das eleições municipais, em 2024, Paulinho Freire propôs à adversária, Natália Bonavides, que os dois fizessem um pacto institucional: quem perdesse a eleição enviaria R$ 20 milhões em emendas para auxiliar a gestão de Natal. A deputada derrotada recusou. Se afugentou e se acovardou.
A negativa de Natália revela uma postura que privilegia a lógica do “se não for comigo, não serve”. Essa mentalidade é pequena, execrável. E ela ajuda a explicar, em parte, o atraso crônico que marca a cidade.
Será eterno esse destino? Teremos de conviver para sempre com cidades sem infraestrutura adequada enquanto a classe política disputa protagonismo nas redes sociais?
O oportunismo diante de tragédias urbanas não é apenas lamentável — é sintoma de um problema mais profundo: a incapacidade de amadurecimento institucional. Enquanto a política for orientada prioritariamente pela próxima eleição, e não pelo próximo projeto estruturante, o atraso continuará sendo reproduzido.
Isso não significa abdicar da crítica ou da fiscalização — funções legítimas da oposição. Significa, sim, compreender que há temas que exigem convergência mínima. Drenagem urbana, mobilidade, saneamento, segurança hídrica e educação básica são agendas permanentes. Não podem ser reféns da disputa partidária.
É preciso romper esse padrão. O gesto de convocação à união precisa ser mais que um episódio isolado. Precisa transformar-se em cultura política. Se adversários aceitarem sentar à mesma mesa para defender investimentos estruturais para Natal, estarão dando um passo em direção à maturidade. Se recusarem, estarão reafirmando a lógica que perpetua o atraso.
Não percamos, contudo, a esperança. A história mostra que sociedades amadurecem — ainda que lentamente. Que lideranças podem evoluir. Que pactos são possíveis quando há pressão social suficiente.
Talvez um dia possamos olhar para trás e identificar o momento em que a política potiguar deixou a picuinha para trás e decidiu, finalmente, crescer. Quando isso acontecer, o desenvolvimento deixará de ser promessa e passará a ser realidade. E então, quem sabe, deixaremos de ser o eterno país do futuro para nos tornarmos, enfim, o país do presente.