De um lado, a direção nacional do PT trata a candidatura da governadora Fátima Bezerra ao Senado como uma “questão central” em 2026. Foi o que disse o deputado José Guimarães, coordenador de Tática Eleitoral, durante um evento partidário em Salvador (BA) no fim da semana passada.
Em contrapartida, aliados da governadora advertem que sua desincompatibilização do cargo para concorrer na eleição pode significar entregar o governo à oposição em plena campanha. Isso porque o governo não teria votos suficientes na Assembleia Legislativa para eleger o governador para um mandato tampão.

O próprio nome ventilado pelo partido para a sucessão, o secretário estadual da Fazenda, Cadu Xavier, admitiu publicamente que entregar o comando do Executivo à oposição durante o processo eleitoral seria um “suicídio político”.
O PT já deu diversas demonstrações de que considera fundamental ampliar sua presença no Senado. A Casa é tida como peça-chave para a estabilidade de um eventual Governo Lula 4 e para o enfrentamento direto ao bolsonarismo, que tem no RN um de seus principais polos de atuação — o senador Rogério Marinho (PL), líder da oposição e que é cotado para ser presidente do Senado na próxima legislatura.
Nesse contexto, Fátima Bezerra surge como uma das principais apostas do PT para 2026. Política experiente e respeitada em nível nacional, já foi deputada estadual, deputada federal e senadora, com trânsito consolidado na direção nacional do PT. Construiu sua trajetória política sem manchas relacionadas a escândalos de corrupção. Seu governo no RN, embora desgastado administrativamente e pressionado por limitações fiscais severas, não carregou a marca de desvios ou crises éticas que costumam encurtar carreiras.
O problema é que, no plano estadual, o cenário é bem mais árido. Para que Fátima dispute o Senado, precisa renunciar ao cargo até o início de abril. O vice-governador Walter Alves já deixou claro que não pretende assumir, pois também é candidato. Abre-se, assim, a hipótese de uma eleição indireta na Assembleia Legislativa para um mandato tampão, com pouco menos de nove meses de duração. E é exatamente aí que o projeto nacional encontra seu maior obstáculo.
Hoje, não há maioria formada na Assembleia para eleger o sucessor defendido pelo PT. Nem oposição, nem centro demonstram disposição para facilitar a vida do partido governista. Pelo contrário: quanto mais indefinição, melhor para quem deseja reduzir a competitividade da esquerda na disputa ao Senado.
Ou seja, facilitar a renúncia de Fátima significa fortalecer sua candidatura nacional. Dificultá-la pode empurrá-la para a permanência no cargo e, consequentemente, para fora da corrida eleitoral.
Ao dizer que entregar o governo à oposição seria um “suicídio político”, Cadu Xavier expõe um temor que não é apenas pessoal ou partidário. Trata-se do risco real de perder o controle da máquina estadual em pleno ano eleitoral, abrindo espaço para interferências, descontinuidades administrativas e uso político da estrutura pública por adversários. É um cálculo frio compartilhado silenciosamente por boa parte da base governista.
Enquanto esse impasse se arrasta, o Rio Grande do Norte paga a conta. A dúvida sobre quem governará o Estado nos próximos meses impede qualquer planejamento minimamente consistente. Ainda que políticas públicas estruturantes tendam a ser mantidas, decisões do cotidiano, como execução orçamentária, renegociação de contratos, fluxo de pagamentos a fornecedores, priorização de investimentos, sofrem diretamente com ambientes de transição incerta. Governos provisórios raramente assumem riscos; governos ameaçados, tampouco.
O resultado é um Estado que opera no modo defensivo, aguardando definições que não chegam. O mandato tampão, que deveria ser um instrumento excepcional de estabilidade, transforma-se em fator de instabilidade prolongada. E quanto mais o silêncio persiste, maior a sensação de paralisia institucional.
Diante disso, cabe uma reflexão incômoda, porém necessária. A governadora, seu partido e as principais lideranças da sucessão precisam oferecer mais previsibilidade. A política admite disputas, mas o Estado exige clareza. Não se trata de impor uma decisão precipitada, e sim de reconhecer que a indefinição prolongada prejudica o Estado como um todo.
O drama do PT é real, assim como é real o peso nacional da decisão de Fátima Bezerra. Mas entre a estratégia eleitoral e a responsabilidade institucional existe uma fronteira que não pode ser ignorada. Enquanto ela não for atravessada com clareza, o Rio Grande do Norte seguirá refém de um impasse político que beneficia projetos eleitorais, mas fragiliza o interesse público.