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Editorial

O exemplo do leite e o que o RN precisa repetir

Confira o editorial do Agora RN desta terça-feira 3
Redação
03/02/2026 | 05:20

O salto da produção de leite no Rio Grande do Norte, que saiu de uma média de 450 mil litros por dia em 2018 para mais de 1 milhão de litros diários em 2025, em pleno período de estiagem prolongada, é uma evidência concreta de que arranjos econômicos bem desenhados, mesmo em ambientes adversos, são capazes de gerar resultados consistentes, ampliar renda e fortalecer cadeias produtivas.

No leite, houve combinação de fatores que, juntos, produziram um efeito estrutural nos últimos anos.

Exibição de ordenha mecânica durante a Festa do Boi 2025, realizada no Parque Aristófanes FeRio Grande do Norteandes, em PaRio Grande do Norteamirim - Foto: José Aldenir/Agora RN
O exemplo do leite e o que o RN precisa repetir - Foto: José Aldenir/Agora RN

Em vez de depender apenas das chuvas, os produtores passaram a se preparar melhor para o semiárido. Houve investimento em reserva de alimento para o gado, como palma forrageira, silagem e fenação, além de melhorias no manejo dos rebanhos. Com apoio técnico do poder público, pequenos produtores adotaram práticas mais modernas, como ordenha mecânica, inseminação artificial e melhoramento genético, o que elevou a produtividade mesmo com pouca água.

Perfuração de poços, barragens subterrâneas, pequenas irrigações e sistemas simplificados de abastecimento também contribuíram para garantir água mínima para os rebanhos.

E outro fator decisivo foi a organização da cadeia produtiva. O governo estadual manteve políticas de apoio, como o Programa do Leite, garantindo um preço mínimo que deu segurança ao produtor para continuar produzindo durante a estiagem. Também houve avanço na industrialização, com fortalecimento de laticínios e queijeiras artesanais, o que agregou valor ao leite produzido no Estado.

A Lei Nivardo Mello, por exemplo, regulamentou e valorizou a produção artesanal. Um dos resultados é que, agora, cerca de 80% dos queijos vendidos no supermercados do Estado são potiguares. Há dez anos, era o contrário: até 90% dos queijos vinham de fora.

Esse exemplo deveria servir de guia para outros segmentos estratégicos da economia do Rio Grande do Norte. O Estado possui uma diversidade de atividades com potencial que poderia ser melhor explorado. Esses segmentos não demandam grandes revoluções, mas sim pequenas intervenções inteligentes, focadas e contínuas.

O turismo é talvez o caso mais evidente. Trata-se de um setor que já cresce, já movimenta cifras relevantes e já tem forte impacto sobre emprego e renda. Ainda assim, opera muito aquém do seu potencial pleno. Fala-se, corretamente, da necessidade de transformar o turismo em uma verdadeira política de Estado, com planejamento de longo prazo, estabilidade institucional, mais investimento em promoção do destino e integração entre municípios. Mas, paralelamente a essa agenda maior, existem arranjos localizados e de baixo custo que poderiam produzir melhorias sensíveis no curto prazo.

Basta observar a experiência cotidiana do turista em pontos como a orla de Ponta Negra. A ausência de padronização no atendimento, falhas básicas na prestação de serviços e a falta de qualificação mínima comprometem a percepção de valor do destino, para não falar da falta de estrutura física básica – os banheiros são um exemplo disso. São ajustes relativamente simples, que passam por capacitação, organização e regras claras.

Outros segmentos produtivos enfrentam dilemas semelhantes. A carcinicultura, por exemplo, é uma atividade que já mostrou capacidade de gerar empregos e arrecadação, mas que sofre com insegurança regulatória e gargalos ambientais. Outros segmentos têm dificuldade de acessar mercados. O que falta é a ponte entre o produtor e o comprador.

O denominador comum entre esses setores é claro: há espaço para ganhos significativos com arranjos institucionais, técnicos e produtivos relativamente modestos, desde que sejam pensados de forma sistêmica. No caso do leite, a adaptação às condições climáticas mostrou que o semiárido não é um obstáculo intransponível, mas um dado da realidade que precisa ser incorporado às políticas públicas.

Esse aprendizado vale para toda a economia potiguar. O Rio Grande do Norte não precisa, necessariamente, de megaprojetos para destravar seu desenvolvimento. Precisa, antes, de atenção estratégica aos seus arranjos produtivos locais, de continuidade administrativa e de uma visão que enxergue cada setor como parte de um ecossistema econômico mais amplo.

O crescimento da produção de leite não ocorreu por acaso. Foi fruto de escolhas, coordenação e persistência. Transformar essa lógica em política pública transversal — do campo ao turismo, da carcinicultura ao mel — é talvez um dos caminhos mais realistas para promover desenvolvimento sustentável, reduzir vulnerabilidades e criar bases sólidas para o futuro econômico do Estado.