O presidente Luiz Inácio Lula da Silva, candidato do PT à reeleição, e o senador Flávio Bolsonaro, candidato do PL à Presidência, ainda não confirmaram que participarão dos debates eleitorais. Líderes nas pesquisas de intenção de voto, os dois demonstram hesitação diante de encontros concebidos justamente para que o eleitor conheça, compare e julgue as propostas de quem pretende ocupar o cargo mais importante da República.
Lula afirmou na semana passada que avaliará o “nível” do debate antes de decidir. “Enquanto presidente, não vou para debate para ouvir bobagem”, disse ao podcast Inteligência Ltda. A dúvida do petista repercute na campanha adversária. Segundo o blog Malu Gaspar, no GLOBO, estrategistas de Flávio sustentam que o senador somente comparecerá caso a presença do presidente esteja confirmada. Representantes das duas campanhas participaram das reuniões preparatórias para o primeiro encontro, marcado para o dia 23, mas a incerteza continua.

Essa postura é incompatível com o respeito devido ao eleitor. Quem disputa a Presidência deve apresentar suas ideias, submetê-las ao confronto e responder a questionamentos incômodos. O debate não existe para oferecer conforto aos candidatos, mas para permitir que a sociedade avalie como eles reagem quando suas propostas, contradições e prioridades são examinadas diante dos adversários.
Assuntos urgentes não faltam. O próximo presidente receberá uma situação fiscal dramática e terá de explicar como pretende enfrentar a pressão crescente sobre os cofres públicos. Todas as demais políticas dependerão dessa resposta. Lula e Flávio também precisam expor suas diferenças sobre segurança pública, hoje a maior preocupação dos brasileiros, além de educação e saúde. Evitar o confronto significa retirar do eleitor a oportunidade de conhecer essas posições antes do voto.
Podcasts, canais digitais e entrevistas com influenciadores podem oferecer aos candidatos ambientes mais amistosos. Em muitos casos, são espaços escolhidos para impulsionar campanhas e produzir trechos de grande circulação nas redes sociais. Não substituem, porém, o contraditório conduzido pelo jornalismo profissional, comprometido com regras transparentes, aprofundamento das perguntas e interesse público.
Propaganda eleitoral é legítima quando respeita a legislação. Debate tem outra finalidade. Nele, jornalistas e adversários exigem respostas concretas sobre temas relevantes. O candidato não controla completamente o roteiro, não escolhe apenas perguntas convenientes e não pode trocar explicações por encenações preparadas para as redes.
Lula e Flávio podem temer que uma resposta ruim ou um confronto desfavorável reduza o apoio que possuem. Esse cálculo, embora compreensível do ponto de vista eleitoral, não pode se sobrepor ao dever democrático de prestar contas e apresentar propostas.
A ausência dos dois empobreceria a campanha, reduziria o acesso dos brasileiros a informações indispensáveis e transformaria a eleição numa sucessão de discursos controlados. Debates equilibrados, com regras claras e conduzidos por jornalismo profissional, ainda são o instrumento mais competente para colocar projetos frente a frente.
Antes de entrar na cabine de votação, o cidadão tem o direito de saber o que cada candidato pensa e pretende fazer diante dos problemas nacionais. Seria inaceitável descobrir somente depois da eleição aquilo que Lula e Flávio se recusaram a explicar durante a campanha.