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Eleições

Lula promete novo perfil de governo e diz que vai disputar recursos de emendas com Congresso

Ao oficializar candidatura ao quarto mandato, presidente cita educação, cuidados com idosos, defesa e transição energética
Por O Correio de Hoje
03/08/2026 | 16:32

O presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) afirmou que pretende imprimir uma nova marca ao governo caso seja reeleito e antecipou que deverá enfrentar o Congresso Nacional na disputa pelos recursos destinados às emendas parlamentares. A declaração foi feita neste domingo 2, durante a convenção do PT que oficializou sua candidatura ao quarto mandato presidencial, realizada no Expo Center Norte, em São Paulo.

Em um discurso improvisado de mais de uma hora, Lula afirmou que não deseja ser lembrado apenas pelos programas de transferência de renda e disse que pretende construir um legado diferente dos deixados por seus governos anteriores. “Eu não quero ser mais o presidente só do Bolsa Família. Quero fazer aquilo que a gente ainda não fez”, declarou.

Lula na convenção foto Ricardo Stuckert PR
Ao oficializar candidatura ao quarto mandato, presidente cita educação, cuidados com idosos, defesa e transição energética - Foto: Ricardo Stuckert / PR

O presidente apresentou como prioridades para um eventual novo mandato o fortalecimento da educação, a criação de uma política nacional de cuidados para idosos, o aproveitamento econômico das terras raras, os investimentos na indústria de defesa e a aceleração da transição energética. Os detalhes do programa de governo devem ser divulgados em 16 de agosto, data prevista para o início oficial da campanha eleitoral.

A tentativa de apresentar uma agenda renovada ocorre em meio à preocupação de aliados com a possibilidade de um quarto mandato ser associado à repetição das administrações anteriores. Lula disputa eleições presidenciais há quase quatro décadas e enfrenta resistência especialmente entre parcelas mais jovens do eleitorado. Pesquisa Datafolha divulgada no dia 24 apontou rejeição de 46% ao presidente.

Ao comentar a necessidade de uma postura diferente, Lula afirmou que pretende abandonar a imagem conciliadora associada ao apelido “Lulinha paz e amor”. “Neste quarto mandato vocês vão ver. Eu não quero o Lulinha paz e amor. Quero o Lulinha porreta”, disse. Em seguida, afirmou: “Vai ter briga com emenda parlamentar. Vai ter briga com o papel que tem o Poder Legislativo”.

Apesar das críticas, o presidente reconheceu que contou com apoio do Congresso na aprovação de medidas defendidas pelo governo, como a isenção do Imposto de Renda para trabalhadores que recebem até R$ 5 mil. Ele também pediu empenho da militância petista para ampliar a presença do partido na Câmara dos Deputados e no Senado.

Durante o discurso, Lula mencionou o ex-ministro Fernando Haddad, candidato do PT ao governo de São Paulo, e sugeriu a possibilidade de uma futura candidatura presidencial do aliado. “Qual é o país do futuro que eu vou entregar quando você, Haddad, depois de governar São Paulo por oito anos, estiver sendo presidente da República”, afirmou. Depois, disse que seu sucessor também poderia surgir de estados como Piauí, Ceará ou Pernambuco.

Na área de defesa, o presidente afirmou que pretende ampliar investimentos para garantir a soberania nacional. Ao comentar a necessidade de preparação diante de possíveis interferências externas, citou a ação de tropas americanas na Venezuela que resultou na captura do então ditador Nicolás Maduro e declarou: “Eu quero estar preparado para que ninguém invada esse país para levar o presidente”.

A defesa da soberania foi um dos temas centrais da convenção e foi associada por aliados às tarifas impostas pelo presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, e às preocupações com interferências estrangeiras nas eleições de outubro. Lula também relacionou o tema à exploração das terras raras, afirmando que os recursos pertencem ao povo brasileiro.

Sobre a transição energética, o presidente voltou a defender que o Brasil deve adotar uma postura mais ativa no cenário internacional. “O Brasil tem que aprender que nós não somos inferiores a ninguém. Isso é complexo de quem não acredita em si próprio”, declarou.

Apesar de apresentar compromissos para um possível novo mandato, Lula não detalhou propostas para o ajuste fiscal, apontado como necessário para reorganizar as contas públicas. A segurança pública também teve pouco espaço no discurso, embora seja uma das principais preocupações apontadas por pesquisas de opinião e tema explorado por adversários de direita.

Ao tratar da violência, o presidente defendeu a ampliação de oportunidades educacionais como forma de prevenção. Lula afirmou ser “candidato pela quarta vez para resolver definitivamente o papel do setor no país” e comparou custos de encarceramento e educação. “Um preso de uma cadeia de segurança máxima custa R$ 40 mil por mês; um estudante de universidade federal cursando engenharia espacial custa R$ 20 mil. É mais barato investir dinheiro em educação do que gastar dinheiro com prisão”, declarou.

Para a população idosa, Lula defendeu a criação de programas voltados à prática de atividades físicas, convivência social e estímulo intelectual. Em tom descontraído, afirmou que as iniciativas deveriam oferecer oportunidades “até para namorar, se encontrar uma parceira”.

Durante a convenção, o vice-presidente Geraldo Alckmin também criticou declarações que colocam em dúvida o sistema eleitoral brasileiro. Na semana anterior, o candidato Flávio Bolsonaro (PL) havia questionado as urnas eletrônicas durante reunião com diplomatas.

“Quem não acredita no voto popular não deveria nem ser candidato a presidente. A descrença das urnas é cheiro de fumaça de derrota. A urna eletrônica é tão competente que não aceita voto de argentino e americano”, afirmou Alckmin.

O presidente do PT, Edinho Silva, declarou que a eleição deste ano terá impacto não apenas sobre os rumos do Brasil, mas também sobre a democracia na América Latina e no cenário internacional.