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Opinião

Crise fiscal do Estado atinge em cheio candidatura de Cadu Xavier

Ex-secretário da Fazenda tenta transformar experiência administrativa em ativo eleitoral enquanto atrasos salariais, dívidas e despesas acima do limite pressionam o Governo
Redação
04/08/2026 | 09:40

O forte estresse de caixa e a deterioração fiscal do Rio Grande do Norte deixaram de ser apenas uma discussão técnica e passaram a representar um problema eleitoral direto para Cadu Xavier, candidato do PT ao Governo. Cadu não foi um auxiliar periférico da gestão Fátima Bezerra. Nomeado para comandar a Secretaria de Tributação em 2019, tornou-se depois secretário da Fazenda e permaneceu à frente da equipe econômica até março de 2026. Foram mais de sete anos administrando arrecadação, despesas, folha, dívida e fluxo financeiro do Estado.

Essa trajetória, apresentada pela campanha como prova de preparo, também abre espaço para que os adversários associem Cadu aos problemas acumulados. O candidato já classificou o Governo Fátima como o melhor do Rio Grande do Norte em 20 anos e afirmou que a gestão havia regularizado a folha e mantinha os servidores em dia. O discurso agora encontra fatos difíceis de contornar. O Governo atrasou os salários de aposentados e pensionistas referentes a julho, informou que havia quitado cerca de 80% da folha e atribuiu o problema à frustração de receitas, especialmente do Fundo de Participação dos Estados. Segundo entidades sindicais, a equipe econômica admitiu que a dificuldade poderá repetir-se em agosto. Também não havia, até 3 de agosto, previsão definida para o décimo terceiro.

Secretário de Fazenda e pré-candidato do PT ao GoveRio Grande do Norteo do Estado, Cadu Xavier, em entrevista à TV Agora RN nesta sexta - Foto: José Aldenir/Agora RN
Cadu Xavier, candidato do PT ao Governo do Rio Grande do Norte — Foto: José Aldenir/Agora RN

A pressão aparece ainda na saúde. Hospital Rio Grande e Hospital do Coração suspenderam procedimentos eletivos de pacientes encaminhados pelo SUS estadual por causa de repasses atrasados. A Secretaria de Saúde apresentou um cronograma de R$ 17,8 milhões, dividido entre R$ 5,46 milhões para parcelas pactuadas e R$ 12,38 milhões relativos à produção mensal. Enquanto o dinheiro não fosse transferido, os serviços eletivos continuariam suspensos, embora urgências e emergências fossem mantidas.

Há também o passivo dos empréstimos consignados. Em março, quando ainda comandava a Fazenda, Cadu confirmou atrasos e informou à Assembleia Legislativa uma dívida de R$ 363,3 milhões, acumulada entre maio de 2023 e março de 2026. Depois, o Banco do Brasil apresentou cobrança de R$ 377,4 milhões. O dinheiro havia sido descontado da remuneração dos servidores, mas não repassado regularmente à instituição financeira. O episódio oferece aos adversários uma linha de ataque direta, porque ocorreu sob a gestão financeira do próprio candidato.

Os indicadores fiscais ampliam a dificuldade. No primeiro quadrimestre de 2026, a despesa de pessoal do Executivo atingiu 56,12% da Receita Corrente Líquida Ajustada, acima do limite de 49% da Lei de Responsabilidade Fiscal. O Governo também ampliou de R$ 306 milhões para R$ 497,4 milhões o contingenciamento de despesas por frustração de receitas. Em janeiro, a União precisou honrar R$ 84,32 milhões em parcelas de dívidas garantidas do Estado. A Fazenda classificou o episódio como problema pontual de fluxo de caixa e negou dificuldade estrutural, mas o conjunto reforça a percepção de restrição financeira.

Eleitoralmente, o problema alcança uma candidatura que ainda não mostrou desempenho uniforme. Na pesquisa Exatus realizada entre 7 e 10 de julho, Allyson Bezerra apareceu com 41,78%, Álvaro Dias com 26,05% e Cadu com 13,74%. O petista havia registrado 12,61% em maio, portanto cresceu 1,13 ponto, oscilação dentro da margem de erro de 2,53 pontos. Na espontânea, Cadu marcou 8,57%, enquanto 41,22% ainda não sabiam em quem votar. Outros levantamentos apresentam resultados diferentes, inclusive uma pesquisa AtlasIntel que o colocou na liderança, mas a série Exatus mostra distância expressiva para os dois primeiros.

A escolha oficial do nome de urna “Cadu de Lula” deixa clara a principal estratégia. Em maio, Lula tinha 52,75% das intenções de voto no RN, enquanto Cadu alcançava 12,61% para o Governo, diferença superior a 40 pontos. O candidato tenta converter a força presidencial em voto estadual e reduzir a dependência da imagem do Governo Fátima.

A propaganda eleitoral começa em 16 de agosto e poderá ampliar o conhecimento do candidato e alterar o cenário, sobretudo diante do número elevado de indecisos. Mas Cadu entrará nessa fase obrigado a responder a uma questão central. Como apresentar-se como solução fiscal para o Rio Grande do Norte sem carregar os resultados da política financeira que ele próprio comandou durante sete anos?