Às vésperas do encerramento do terceiro governo de Luiz Inácio Lula da Silva (PT), as contas públicas brasileiras exibem fragilidade muito maior do que admite a versão apresentada pela equipe econômica. Nas últimas semanas, o governo tem insistido que respeita as metas do arcabouço fiscal. Os números, porém, revelam dívida em alta, déficits persistentes, estatais novamente pressionando o Tesouro e um impulso fiscal bem superior ao registrado pelas estatísticas tradicionais. A distância entre propaganda e realidade já não pode ser disfarçada.
O Relatório de Acompanhamento Fiscal da Instituição Fiscal Independente (IFI), órgão técnico do Senado, desfaz a imagem de normalidade cultivada pelo discurso oficial. Segundo suas projeções, a Dívida Bruta do Governo Geral terminará 2026 em 82,5% do Produto Interno Bruto (PIB), avanço superior a dez pontos em apenas quatro anos. Mantida a trajetória considerada no cenário-base, alcançará 102% do PIB em 2032 e 115% em 2036, níveis extremamente altos para países emergentes e incompatíveis com qualquer ideia de equilíbrio duradouro.

A raiz do problema está no descompasso entre receitas e despesas. A IFI estima déficit primário de R$ 51,7 bilhões neste ano e de R$ 86,1 bilhões em 2027. O governo pode enquadrar formalmente os resultados nas metas recorrendo às exceções autorizadas pela legislação. Isso não elimina as despesas. Elas precisam ser financiadas e continuam empurrando a dívida para cima, qualquer que seja o tratamento contábil empregado.
Pressão das estatais
As empresas estatais acrescentam outra fonte de preocupação. Sete companhias dependentes da União terminaram 2025 com patrimônio líquido negativo, entre elas Codevasf e Embrapa. Em outras, a perda de caixa amplia a possibilidade de novos aportes do Tesouro. Já os Correios receberam empréstimo de R$ 12 bilhões garantido pela União, o que transfere aos contribuintes o risco de eventual falta de pagamento.
Nem mesmo o resultado primário mostra toda a deterioração. Criado pelo Ibre-FGV, o Monitor de Expansão Fiscal Ampliada (MEFA) considera instrumentos de injeção de recursos na economia, como despesas financeiras e restos a pagar, que não aparecem por inteiro no cálculo convencional.
De junho de 2022 a junho de 2026, o resultado primário piorou 1,82 ponto percentual do PIB. No mesmo intervalo, o impulso fiscal calculado pelo MEFA avançou de 1,43% para 6,7% do PIB. A diferença expõe uma política mais expansionista do que reconhece a contabilidade oficial.
Esse cenário dificulta a redução dos juros. Sem conter a dívida e restaurar a confiança nas contas públicas, o Brasil continuará pagando mais para sustentar o Estado, reduzirá o espaço para investimentos e poderá entregar ao próximo governo uma situação fiscal desafiadora.