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Thiago Medeiros

A anistia como cúmplice do golpe

Confira a coluna de Thiago Medeiros desta quinta-feira 4
Thiago Medeiros
04/09/2025 | 05:54

No mesmo dia em que a Justiça brasileira inicia o julgamento histórico do ex-presidente Jair Bolsonaro — acusado de sabotar as eleições, desacreditar o sistema eleitoral e ameaçar os princípios democráticos —, o Congresso Nacional, sob liderança de setores do centrão e do Partido Liberal, articula um movimento vergonhoso: votar o projeto de anistia para os envolvidos nos atos golpistas de 8 de janeiro e outros crimes contra a ordem democrática.

Coincidência? Certamente não. Trata-se de uma manobra coordenada, cínica e calculada. Sob o falso discurso da “pacificação nacional”, busca-se apenas apagar rastros da vergonha e garantir impunidade a quem atentou contra a República. A proposta de anistia não é apenas um equívoco jurídico: é um acinte moral. É transformar criminosos em vítimas e a democracia em moeda de troca.

8 de janeiro marcelo camargo ag brasil
A anistia como cúmplice do golpe - Foto: Marcelo Camargo/Agência Brasil

Desde o impeachment da ex-presidente Dilma Rousseff, o Brasil vive uma verdadeira guerra entre os poderes. O Congresso tem expandido progressivamente sua influência, especialmente com a captura de parcelas expressivas do orçamento público por meio das chamadas emendas de relator e outros mecanismos que restringem a autonomia do Executivo. Esse movimento atual se insere nesse processo de tomada de poder: uma tentativa não apenas de legislar sobre o perdão a crimes contra a democracia, mas também de subjugar a própria lógica de freios e contrapesos que sustenta a República.

É preciso dizer sem rodeios: essa articulação não nasce da vontade do povo. Pesquisas de opinião mostram que a maioria dos brasileiros rejeita o perdão aos golpistas. Mas, desde quando o centrão se guiou pela voz das ruas? O que está em jogo é uma barganha de bastidores. Em troca da anistia, negociam-se cargos, verbas e privilégios. Fala-se inclusive em uma “PEC da blindagem”, destinada a dificultar investigações e punições contra políticos.

Há ainda um componente eleitoral evidente. O centrão sabe que Bolsonaro está cada vez mais fragilizado judicialmente. Nesse vácuo, aposta em Tarcísio de Freitas como alternativa da extrema direita para 2026. O gesto de anistiar golpistas e blindar políticos não é apenas corporativismo: é também um recado ao eleitorado radicalizado, uma jogada para aumentar a aceitabilidade do governador paulista no campo da direita mais dura.

Os riscos são profundos. Esse tipo de engenharia política alimenta a sensação de que o crime compensa, corrói a confiança nas instituições e deixa a democracia mais vulnerável. O Brasil não precisa de anistia nem de blindagem. Precisa de responsabilidade, justiça e memória. Livrar Bolsonaro e seus aliados da Justiça não é pacificação: é cumplicidade.