A política não é feita de afetos. É feita de movimentos. E quem insiste em enxergar o processo eleitoral apenas pela lente da simpatia pessoal ou da popularidade momentânea corre o risco de interpretar mal o que realmente está em curso no Rio Grande do Norte.
O que estamos assistindo neste momento já não é mais uma reorganização silenciosa do tabuleiro de 2026. Os movimentos começaram a aparecer com nitidez. Não se trata ainda de campanha formal, mas de uma etapa decisiva: a preparação estratégica. E preparação, em política, significa ocupar espaços, garantir estrutura e montar alianças antes mesmo do início oficial da disputa.

A recente movimentação que levou o grupo do prefeito de Mossoró, Allyson Bezerra, ao controle do Republicanos no Estado é um exemplo claro disso. Partidos continuam sendo peças fundamentais, mesmo em um ambiente de descrédito junto à população. Quem despreza essa dimensão institucional não entendeu como se ganha eleição majoritária.
O partido, que estava sob a liderança do ex-prefeito de Natal Álvaro Dias, passará a ser presidido pelo vice-prefeito de Mossoró, Marcos Medeiros, que deixará o PSD. Medeiros, aliado direto de Allyson, vai assumir a Prefeitura de Mossoró na próxima sexta-feira 27, após a renúncia do atual prefeito para disputar o Governo do Estado.
Nesta quarta-feira 25, Allyson se reuniu com o presidente nacional do Republicanos, deputado federal Marcos Pereira (SP). Após o encontro, publicou uma mensagem nas redes sociais sinalizando o alinhamento político.
Tempo de televisão, acesso ao fundo partidário, capilaridade municipal e presença nas nominatas proporcionais continuam sendo ativos decisivos. Engana-se quem acredita que a TV perdeu relevância. Ela mudou de formato, perdeu exclusividade, mas segue sendo central na construção de imagem estadual.
A política não é apenas discurso. É logística eleitoral.
E nesse contexto, a reorganização partidária passa a ter valor estratégico imediato. O controle de uma sigla com presença nacional e estrutura consolidada não é um detalhe: é um movimento de posicionamento claro dentro da disputa que começa a ganhar forma no estado.
A política, sobretudo em pré-campanha, tem algo de jogo de xadrez e algo de vale-tudo. Não no sentido moral do termo, mas no sentido estratégico: vence quem ocupa melhor o espaço antes da partida começar oficialmente.
Enquanto isso, outras pré-candidaturas seguem assistindo ao rearranjo do tabuleiro sem movimentos equivalentes de ampliação de base partidária. É o caso de Cadu Xavier, que hoje conta essencialmente com partidos do campo da esquerda e ainda não apresentou sinais concretos de articulação com legendas de outros espectros políticos.
Em uma disputa estadual, isso raramente é suficiente.
Na política real, não basta estar no jogo. É preciso organizar as peças antes que o relógio comece a correr.
E neste momento, quem movimenta o tabuleiro é Allyson.
Thiago Medeiros é sociólogo