Natal vive uma contradição que corrói silenciosamente sua identidade. De um lado, uma cidade que ostenta sol, mar e calor como marcas turísticas; do outro, um patrimônio histórico e cultural que definha, invisível aos olhos da própria população. O problema não é apenas físico ou de gestão, é também de autoestima coletiva: o natalense parece ter aprendido a viver de costas para sua própria história.
Em artigo publicada à página 2 deste Agora RN nesta sexta-feira 15, o jornalista Bruno Araújo descreve esse fenômeno com precisão cirúrgica: “a luz incandescente do Sol, a areia branca do litoral e o calor das águas do Atlântico parecem eclipsar as tentativas de valorização de algo diferente do natural”. E aponta para símbolos concretos desse abandono, como a Fortaleza dos Reis Magos, que “claudica sua caminhada por atenção e um acesso digno”, e o potencial desperdiçado de bairros históricos como Santos Reis, Rocas, Ribeira e Centro, onde a memória da cidade poderia pulsar aos olhos contemporâneos.
![[editorial] natal precisa se reencontrar com sua história | notícias do rio grande do norte TAM, na Ribeira. Foto: GoveRio Grande do Norteo do RN](https://agorarn.com.br/files/uploads/2023/07/DJI_0178-scaled-e1755302498758-830x468.jpg)
A Ribeira, em especial, talvez seja o retrato mais nítido desse abandono. O bairro já foi coração cultural de Natal, palco de teatros, cafés e boemia, espaço de encontro entre intelectuais, artistas e movimentos sociais. Nos últimos anos, volta e meia se fala em “revitalização” da Ribeira, com projetos que vão desde incentivos fiscais para o setor criativo até a criação de polos gastronômicos. Mas quase tudo morre na promessa. O bairro resiste mais pela iniciativa de coletivos culturais e pequenos empreendedores do que por uma política pública consistente. Mesmo propostas recentes, como a instalação de centros de inovação e economia criativa, soam mais como slogans do que planos concretos. Enquanto cidades vizinhas, como Recife com Recife Antigo e João Pessoa com o Centro Histórico, transformam memória em atrativo turístico e motor econômico, Natal insiste em deixar a Ribeira ao relento, à espera de um futuro que nunca chega.
Esse abandono não se restringe às pedras e calçamentos antigos. O esquecimento é também cultural e simbólico. A cultura local – expressa em artistas, arquitetura, gastronomia, música e literatura – ecoa no vazio, vítima de ações isoladas e efêmeras. O rio Potengi, testemunha de séculos, reflete não a memória, mas o descaso. Cada pedaço desse passado negligenciado é uma oportunidade perdida de educar, inspirar e gerar desenvolvimento a partir do que temos de mais autêntico. O que poderia ser motor de turismo histórico, trilhas culturais, roteiros gastronômicos e espaços de convivência, acaba relegado a improvisos e tentativas tímidas, incapazes de criar raízes duradouras.
Essa ausência de conexão com as próprias raízes empobrece o debate público, fragiliza a cidadania e limita nossa capacidade de projetar o futuro. Cidades que se orgulham de sua história são mais coesas, mais atraentes e mais preparadas para enfrentar desafios – e isso exige investimento, planejamento e, acima de tudo, vontade política. A omissão, por outro lado, cobra caro: sem memória, Natal perde também sua identidade, ficando vulnerável à repetição dos mesmos erros e à dependência de fórmulas fáceis de exploração turística.
O presente é a única janela que temos para reverter esse quadro. Valorizar a história é valorizar as pessoas que a construíram e, por consequência, quem somos hoje. Se não tivermos coragem para encarar esse compromisso, seguiremos como uma “Cidade do Sol” de brilho curto, incapaz de iluminar o próprio passado. É hora de transformar descaso em ação e silêncio em narrativa viva – e Natal não pode esperar mais.