Em um período em que se fala tanto sobre prevenção e diagnóstico precoce do câncer, é necessário prestar mais atenção a uma questão fundamental: a capacidade do sistema público de saúde de oferecer consultas especializadas, exames e tratamento em tempo adequado. Campanhas de conscientização incentivam a população a procurar atendimento, reconhecer sintomas e realizar exames preventivos. Entretanto, a identificação de uma alteração suspeita representa apenas o início de um percurso que pode se prolongar por meses quando faltam profissionais, equipamentos e vagas nos serviços especializados.
Esse problema foi apontado pela presidente do Conselho de Secretarias Municipais de Saúde do Rio Grande do Norte (Cosems-RN), Maria Eliza Garcia, durante encontro realizado na Liga Norte-Riograndense Contra o Câncer, em Natal. A gestora, que também é secretária municipal de Saúde de Doutor Severiano, alertou para as limitações enfrentadas pelos municípios pequenos na assistência oncológica. Nessas localidades, as equipes da atenção primária conseguem identificar pacientes que necessitam de investigação, mas dependem de uma rede regional de serviços para dar continuidade ao atendimento.

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“Não adianta fazermos toda a parte preventiva se não tivermos uma regulação que funcione e uma oferta de serviços garantida, afirmou Maria Eliza.
A advertência merece atenção dos gestores públicos. A medicina dispõe atualmente de recursos capazes de identificar diferentes tipos de câncer em fases iniciais, quando as possibilidades de tratamento bem-sucedido são maiores. Contudo, a efetividade desses recursos depende da disponibilidade dos exames, da rapidez na avaliação dos resultados e do encaminhamento aos especialistas responsáveis pela confirmação diagnóstica.
O Instituto Nacional de Câncer (Inca) estima que o Brasil registre aproximadamente 781 mil novos casos da doença por ano entre 2026 e 2028. Excluídos os tumores de pele não melanoma, a projeção é de 518 mil diagnósticos anuais. No Rio Grande do Norte, são esperados 11.670 novos casos por ano, dos quais 7.840 correspondem a outros tipos de câncer além do de pele não melanoma.
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Entre os homens, os cânceres de próstata, cólon e reto, pulmão, estômago e cavidade oral estão entre os mais incidentes. Nas mulheres, predominam os tumores de mama, cólon e reto, colo do útero, pulmão e tireoide. Cada doença apresenta características próprias, exigindo estratégias específicas de prevenção, rastreamento, investigação e tratamento.
O câncer de mama oferece um exemplo importante. A mamografia consegue identificar alterações muito pequenas, inclusive antes que sejam perceptíveis pela palpação. Por essa razão, o exame de imagem é fundamental para o rastreamento. No SUS, a recomendação prioritária é realizá-lo a cada dois anos entre os 50 e os 74 anos, enquanto mulheres de outras faixas etárias podem necessitar de avaliação individualizada. Quando o resultado apresenta alterações suspeitas, o acesso a exames complementares e, eventualmente, à biópsia precisa ocorrer com rapidez.
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O problema é especialmente grave nos municípios de pequeno porte, que não possuem hospitais especializados, equipamentos de diagnóstico ou condições financeiras para custear isoladamente serviços de maior complexidade. A solução passa pelo fortalecimento da regionalização da assistência, com responsabilidades bem definidas entre União, Estado e prefeituras. A regulação precisa organizar os encaminhamentos conforme a necessidade clínica e assegurar que os pacientes encontrem atendimento nas unidades de referência.
Também é indispensável conhecer o tamanho das filas, os prazos de espera e os procedimentos com maior demanda reprimida. Essas informações devem orientar a contratação de serviços, a ampliação da capacidade instalada e a distribuição de recursos. A legislação brasileira já estabelece prazos para a investigação diagnóstica e o início do tratamento oncológico em situações previstas em lei. Seu cumprimento depende de uma rede assistencial capaz de transformar essas garantias em atendimento efetivo.
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O alerta de Maria Eliza Garcia deve orientar o planejamento da saúde pública no Rio Grande do Norte. A prevenção continuará sendo indispensável, assim como as campanhas educativas e o trabalho das unidades básicas. Mas seus resultados dependerão da capacidade de assegurar cada etapa seguinte, da consulta com o especialista à realização dos exames e ao início do tratamento. Para milhares de pacientes, a rapidez desse percurso pode determinar as possibilidades de recuperação e sobrevivência.