Cadu de Lula começa a organizar seu governo diante de uma tarefa que condicionará praticamente todas as demais: recuperar a capacidade financeira do Rio Grande do Norte. Nas primeiras declarações após a vitória, nesta segunda-feira 26, o governador eleito reconheceu a necessidade de conter o crescimento das despesas, enfrentar o desequilíbrio previdenciário e ampliar os investimentos.
Como o AGORA RN vem defendendo desde antes da campanha, é imprescindível que essa agenda ocupe o centro da administração. A qualidade dos serviços e a execução das promessas dependerão dos resultados desse trabalho.

O RN é o Estado do País que mais compromete sua receita com despesa de pessoal. Folha de pagamento e encargos de todos os Poderes levam quase 70% da receita, enquanto os investimentos são apenas cerca de 5%, menor proporção do Nordeste. Números que evidenciam o reduzido espaço disponível para novas entregas.
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A Previdência agrava essa pressão. O regime estadual apresentou resultado negativo de R$ 1,02 bilhão no primeiro semestre, com projeção de déficit de R$ 2,437 bilhões para o ano. A necessidade de cobertura pelo Tesouro disputa recursos com saúde, segurança, educação e infraestrutura. Somadas às demais despesas obrigatórias e ao custeio da máquina, essas obrigações deixam o governo sujeito a uma administração permanente de insuficiências.
A correção dessa trajetória exige medidas com efeitos duradouros.
Cadu tem predicados para conduzir essa discussão. Auditor fiscal de carreira, esteve à frente da equipe econômica do governo Fátima Bezerra durante mais de sete anos. Conhece os mecanismos de arrecadação, os compromissos assumidos e as dificuldades do caixa. Essa experiência também amplia sua responsabilidade sobre as soluções apresentadas. Sua participação no governo Fátima lhe permite identificar os obstáculos que persistiram e explicar quais decisões pretende tomar, agora com a autoridade de governador, para superá-los.
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O histórico de Cadu aponta para uma positiva diminuição na resistência em adotar medidas efetivamente necessárias para consertar esse problema. Por sua origem sindical, Fátima Bezerra teve maiores dificuldades para enfrentar interesses de categorias que muitas vezes não cabem no orçamento do Estado. Cadu tem sinalizado disposição para encontrar um meio termo nessa equação.
A promessa de cumprir a nova regra de contenção das despesas, preservando ganhos para os servidores e adequando seu crescimento à evolução das receitas, é positiva. Que efetivamente seja cumprida. É uma forma de reduzir gastos sem apunhalar o poder de compra do funcionalismo público.
Cadu promete melhorar a classificação fiscal do Estado de C para B em dois anos e recuperar gradualmente a capacidade de investimento, adotando essa e outras medidas. O novo governador precisará apresentar parâmetros, prazos e projeções compatíveis com os acordos salariais e a reposição de profissionais em áreas essenciais. O compromisso de regularizar o calendário do décimo terceiro também terá de caber nesse planejamento.
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O componente previdenciário requer igual clareza. Cadu defendeu aumentar a contribuição patronal dos poderes, preservando as alíquotas dos servidores. Uma nova reforma precisa demonstrar seu alcance financeiro e distribuir responsabilidades entre as instituições.
Em uma entrevista ontem, disse também que “a gente precisa adequar o tamanho do Estado ao tamanho da nossa economia”. A negociação com Legislativo, Judiciário e demais órgãos será exigente e envolverá interesses organizados, com capacidade de pressão. O governador deverá conduzi-la com transparência e disposição para sustentar as escolhas feitas. E é bom que isso seja feito logo, usando dos poderes, autoridade e legitimidade quase imperiais que um governante recém-eleito normalmente dispõe.
Paralelamente, haverá cobrança por um legado concreto da gestão. Fátima enfrentou críticas pela alegada ausência de grandes obras que identificassem sua administração. Cadu já assume compromissos com a terceira ponte sobre o rio Potengi, a conclusão da duplicação da BR-304 e a entrega do Hospital Metropolitano, obras realizadas em parceria com o Governo Federal. A parceria com o presidente Lula, também reeleito, favorece essa agenda. Caberá ao governador assegurar projetos, acompanhar cronogramas e prever o custeio dos equipamentos, especialmente na saúde, onde a entrega de uma estrutura exige recursos permanentes para funcionar.
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Essas decisões dependerão de governabilidade. Cadu identifica uma base inicial de 10 dos 24 deputados estaduais. Ele conta com os 7 da federação PT-PV-PCdoB e mais 3 do PSDB. O PL de seu adversário Álvaro Dias terá uma bancada com 7 parlamentares, e o grupo de Allyson Bezerra também estará representado com 7 deputados, sendo 4 do PP, 2 do União Brasil e 1 do MDB. O resultado exige articulação para formar uma maioria que compartilhe compromissos administrativos e dê previsibilidade às votações.
Fátima enfrentou negociações “no varejo” para aprovar matérias importantes ao longo do governo e, no primeiro mandato, até uma CPI. A experiência recomenda construir acordos mais estáveis, respeitando a fiscalização parlamentar. É positivo Cadu dizer que conversará com adversários e que não guarda ressentimentos. “O meu governo vai ser mais amplo que o de Fátima”, anunciou. Essa amplitude precisará conviver com os critérios técnicos e de honestidade que ele estabeleceu para o secretariado.
Estreante nas urnas, Cadu construiu sua candidatura associado a Lula e à governadora, a quem chama de inspiração. Agora terá espaço para afirmar a identidade anunciada durante a campanha: “Sou leal, mas eu tenho meu DNA”. Essa identidade será reconhecida nas prioridades orçamentárias, na equipe escolhida, na relação com a Assembleia e nas entregas realizadas. O mandato lhe dará condições de demonstrar a autonomia e a capacidade de execução que apresentou ao eleitor.