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Editorial

A liberdade de declarar o voto

Editorial do Agora RN defende a autonomia dos artistas para manifestar ou preservar sua escolha eleitoral
Editorial
21/10/2026 | 23:47

A cobrança para que artistas revelem seu voto ganhou, nesta reta final da eleição presidencial, um grau de hostilidade repugnante. João Gomes passou dias sob pressão nas redes sociais até fazer uma manifestação durante um show em Londrina, no sábado 17. Falou sobre educação, segurança, cotas, saúde pública e democracia. Mesmo sem mencionar Lula ou Flávio Bolsonaro, teve suas palavras imediatamente interpretadas como uma declaração eleitoral. A reação mostra quanto se estreitou o espaço para alguém escolher os próprios termos de participação no debate público.

O cantor pernambucano expôs o desconforto provocado pelas cobranças. “Eu não mereço adoecer porque o mundo está doente”, disse. Na mesma manifestação, pediu respeito à liberdade de expressão e à convivência entre pessoas que pensam de maneira diferente. Há algo preocupante quando um artista precisa explicar seu sofrimento para que parte do público considere respeitar uma decisão pessoal. A popularidade aumenta a repercussão de suas escolhas, mas preserva sua autonomia para decidir quando, como e sobre o que deseja falar.

João Gomes, cantor, em imagem de arquivo
João Gomes, em imagem de arquivo — Foto: Magnus Nascimento/Secom

A participação de artistas nas eleições tem valor e faz parte da vida democrática brasileira. Nesta terça-feira 20, Flávio Bolsonaro reuniu mais de 30 cantores sertanejos em Goiás para gravar vídeos de apoio. Gusttavo Lima e Zezé Di Camargo estiveram entre os participantes. No campo de Lula, nomes como Chico Buarque, Caetano Veloso, Marieta Severo e Taís Araújo também manifestaram preferência pelo petista. São escolhas públicas, sujeitas à avaliação dos cidadãos, como ocorre com qualquer intervenção política.

O problema aparece quando a adesão passa a ser exigida como uma obrigação profissional ou uma prova de caráter. Seguidores estabelecem prazos, cobram vídeos, fiscalizam curtidas e tratam qualquer hesitação como cumplicidade com o adversário. Sob esse método, até uma manifestação favorável pode parecer insuficiente: exige-se o nome do candidato, o número, o gesto e a reprodução do discurso esperado. A conversa dá lugar a uma fiscalização permanente, na qual a pessoa precisa demonstrar lealdade para continuar sendo aceita.

Quem acompanha um cantor tem todo o direito de discordar de suas posições, criticá-las e reconsiderar o interesse por seu trabalho. Uma declaração de apoio pode ser discutida quanto ao conteúdo, às contradições e às consequências. Também é razoável cobrar coerência de quem construiu uma trajetória de militância. A liberdade do público, porém, convive com a liberdade do artista. Ofensas, ameaças e campanhas de constrangimento degradam essa relação e transformam a cobrança política em instrumento de intimidação.

A pressão sobre artistas nordestinos acrescenta outra dificuldade. A origem regional e o repertório cultural têm sido usados como argumentos para exigir determinado alinhamento. Cantar o sertão, o vaqueiro ou as dificuldades da população passa a funcionar como compromisso presumido com uma candidatura. Essa leitura empobrece a própria cultura que pretende defender. O Nordeste reúne experiências sociais, religiosas e políticas variadas. Seus artistas podem compartilhar referências e chegar a conclusões diferentes sobre governos, partidos e eleições.

O público tampouco adquire autoridade sobre a consciência de alguém ao comprar um ingresso ou ouvir suas músicas. A relação com uma obra pode ser intensa, atravessar gerações e criar identificação profunda. Ainda assim, o artista continua responsável por suas escolhas. Alguns incorporam a política ao trabalho há décadas; outros preferem atuar em campanhas sociais, apoiar causas específicas ou guardar o voto. Essa diversidade permite que a participação pública ocorra por convicção, com espaço para dúvidas e amadurecimento.

Campanhas e militantes deveriam considerar o efeito de suas próprias cobranças. Um apoio obtido sob constrangimento oferece pouca contribuição para uma discussão qualificada e pode afastar pessoas que estariam dispostas a conversar. Aos candidatos cabe apresentar propostas, responder por suas trajetórias e convencer o eleitor. Aos artistas deve ser assegurada a possibilidade de contribuir com esse debate por vontade própria. A defesa da democracia também se manifesta no respeito a quem escolhe preservar a intimidade do voto.