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Editorial

Auditoria do TCE reforça necessidade de reduzir judicialização de direitos de servidores no RN

Levantamento aponta impacto potencial de R$ 256,8 milhões e estima economia de R$ 49,8 milhões com respostas administrativas mais rápidas
Editorial
14/10/2026 | 02:52

Uma auditoria do Tribunal de Contas do Estado (TCE-RN) dimensionou o custo que a demora na concessão de direitos funcionais pode produzir para o Rio Grande do Norte. O levantamento identificou cerca de 10,1 mil ações, sobretudo sobre progressões, promoções e enquadramentos de servidores. Nas demandas consideradas no cálculo, entre janeiro de 2025 e abril de 2026, o impacto potencial chegou a R$ 256,8 milhões. O valor não significa que essa quantia já tenha sido paga, mas revela o tamanho das cobranças que recaem sobre o Estado.

A esse montante se somam despesas de tramitação, honorários, juros e correção monetária. Segundo os técnicos do TCE, respostas administrativas mais rápidas poderiam evitar aproximadamente R$ 49,8 milhões em custos adicionais. A estimativa torna evidente a importância do plano que a Procuradoria-Geral do Estado (PGE) pretende discutir com as secretarias de Educação e Administração. A iniciativa precisa sair do anúncio e se transformar em mudanças efetivas na gestão de pessoal.

Fachada do Tribunal de Contas do Estado do Rio Grande do Norte, com identificação do órgão na entrada
Fachada do Tribunal de Contas do Estado do Rio Grande do Norte (imagem de arquivo) — Foto: José Aldenir/Agora RN

O relatório encontrou falhas nos fluxos administrativos, ausência de controles automatizados, dificuldade para acompanhar prazos e falta de integração entre sistemas estaduais. Também apontou problemas nas avaliações de desempenho do magistério e na estrutura que executa decisões judiciais. São entraves que podem atrasar a análise de pedidos e o cumprimento de direitos, levando servidores a buscar na Justiça uma resposta que deveria ser produzida pelos próprios órgãos públicos.

A dimensão do passivo aparece também no Judiciário. Nos Juizados Especiais da Fazenda Pública de Natal, os auditores encontraram 22.814 processos ativos sobre progressão, promoção e enquadramento. Esse conjunto não corresponde às 10,1 mil ações usadas para estimar o impacto financeiro: são recortes diferentes da auditoria. O Estado responde por 81,56% do acervo ativo dessas unidades. Nas amostras examinadas, a taxa de derrota do governo ficou entre 80% e 90%, conforme o grupo de processos analisado.

Os dados indicam que, em muitos casos, a resistência administrativa não impede o reconhecimento judicial do direito e ainda eleva a conta. A PGE admite a necessidade de rever essa prática. O procurador-geral Antenor Roberto afirmou, em entrevista ao AGORA RN, que pretende examinar a metodologia do TCE e identificar as teses em que o Estado tem êxito ou perde, para evitar recursos sem perspectiva de resultado. Também anunciou a elaboração de um plano com as secretarias de Educação, onde se concentra a maior parte dos litígios, e de Administração, responsável pela folha.

A proposta inclui padronizar orientações jurídicas, aperfeiçoar os procedimentos e ampliar o uso de tecnologia. A PGE diz que já dispõe de pareceres referenciais para guiar as secretarias e pretende capacitar as equipes para reconhecer administrativamente pedidos comprovados. “O direito estando presente e comprovado, não haverá resistência”, afirmou Antenor. A nomeação dos 22 analistas jurídicos aprovados em concurso, prevista para até o fim do ano, também poderá reforçar essa capacidade.

Há ainda a questão das aposentadorias de professores. Segundo o procurador-geral, a permanência em atividade após o preenchimento dos requisitos pode gerar novas cobranças. A orientação da PGE busca permitir o afastamento depois de concluída a etapa interna do Executivo, enquanto o processo aguarda análise do TCE e publicação. A medida requer procedimentos claros para evitar que a demora entre as etapas continue produzindo conflitos.

Outra frente é a conciliação. O procurador-geral adjunto José Duarte Santana defende acordos em casos nos quais o direito já esteja consolidado, argumentando que recorrer nessas situações apenas amplia o débito. Ele citou negociações realizadas entre 2019 e 2022 com mais de 40 mil servidores, que teriam gerado economia superior a R$ 90 milhões. A PGE ressalva que a capacidade de negociar depende da disponibilidade financeira do Estado, fator que pode limitar o alcance dos acordos.

Também será necessário identificar a origem das obrigações cobradas. A execução de uma ação no período auditado não significa que o direito tenha surgido na gestão atual. A própria PGE afirma que parte das demandas remonta a governos anteriores e pretende conferir os dados do relatório em cooperação com o Tribunal de Contas. Essa distinção ajuda a compreender o passivo, mas não elimina a responsabilidade de organizar os procedimentos vigentes.

O plano anunciado ainda não tem meta definida para reduzir o estoque de processos. Antenor observa que o andamento das ações também depende do Judiciário, mas a falta de um indicador não deve impedir a adoção de prazos, prioridades e mecanismos de acompanhamento. Reduzir a judicialização exige garantir que pedidos sejam analisados no tempo previsto, decisões sejam cumpridas e acordos tenham respaldo financeiro. A auditoria oferece diagnóstico e estima uma economia possível. Cabe agora à PGE e às secretarias converter essas informações em rotinas capazes de assegurar direitos e evitar que atrasos administrativos continuem encarecendo a conta pública.