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Agora RN

Um debate abaixo do que o Brasil precisa

Análise da edição impressa do Agora RN de 20 de outubro de 2026.
Editorial
20/10/2026 | 00:37

O primeiro debate entre Lula (PT) e Flávio Bolsonaro (PL), realizado pela Band no domingo 18, expôs o nível rasteiro a que chegou a discussão política brasileira. A uma semana do segundo turno, os candidatos dedicaram boa parte do tempo a acusações pessoais, provocações e tentativas de constranger o adversário. O eleitor que esperava comparar caminhos para os próximos quatro anos, em especial os que ainda estão indecisos, encontrou perguntas abandonadas, respostas evasivas e ofensas. A impressão predominante era a de acompanhar dois inimigos empenhados em se desqualificar.

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Flávio Bolsonaro e Lula durante debate da Band
Lula e Flávio Bolsonaro durante debate da Band — Foto: Renato Pizzutto/Band

O programa abordou segurança pública, saúde, economia, jornada de trabalho, produtividade e relações internacionais. Havia, portanto, oportunidades para apresentar diferenças concretas. A sequência de ataques, porém, frequentemente interrompeu qualquer possibilidade de aprofundamento. A cobrança sobre o voto de Flávio contra a ampliação da licença-maternidade, quando deputado estadual, foi respondida com questionamentos sobre Roberta Luchsinger e o filho de Lula. Perguntas sobre familiares passaram a disputar espaço com novas acusações, enquanto os esclarecimentos ficavam pelo caminho.

Lula cobrou explicações sobre a relação do senador com Daniel Vorcaro e sobre o pedido de R$ 134 milhões para financiar um filme sobre Jair Bolsonaro. Flávio desviou o assunto para o Bolsa Família. O presidente reagiu com palavrão. Em outro momento, chamou o adversário de “malandro carioca” e recorreu à prisão do pai do concorrente para responder a uma provocação sobre votos de presidiários. A cada rodada, a conversa se afastava das questões inicialmente apresentadas.

Flávio insistiu em associar Lula à corrupção e à defesa de criminosos. Lula desafiou o senador a abrir os sigilos bancário e telefônico para identificar “quem é o ladrão neste país”. Os convidados também contribuíram para o ambiente: gritos, gargalhadas, aplausos e assovios interromperam as considerações finais, exigindo intervenção da mediação. O comportamento da plateia prolongou a hostilidade demonstrada pelos candidatos.

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Acusações envolvendo dinheiro público exigem respostas e apuração. A prestação de contas sobre trajetórias e vínculos dos candidatos faz parte da eleição. O problema está no uso desses questionamentos como instrumento para fugir de outras cobranças. Quando cada pergunta recebe uma acusação de volta, o público acumula suspeitas e permanece sem esclarecimentos. A repetição desse procedimento recompensa a agressividade e reduz a utilidade do debate.

Houve promessas, embora insuficientemente discutidas. Flávio falou em endurecimento penal, classificação de facções como organizações narcoterroristas, renegociação de dívidas e um SUS com “padrão Einstein”. Lula defendeu maior coordenação federal na segurança, valorização do salário mínimo, investimentos industriais e formação de jovens. Faltou desenvolver custos, prazos, prioridades e condições de execução. O brasileiro que enfrenta uma fila por atendimento, teme o crime ou está endividado precisa compreender como as medidas anunciadas chegariam à sua vida.

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A responsabilidade dos presidenciáveis também alcança a maneira como seus apoiadores convivem. Quando o concorrente é tratado como alguém a ser humilhado, a divergência perde espaço para a hostilidade. A disputa passa a exigir demonstrações de fidelidade, inclusive pela disposição de insultar quem está do outro lado. Esse ambiente dificulta a cobrança por resultados e favorece a tolerância aos excessos cometidos pelos próprios aliados.

As lamentáveis cenas registradas na UFRN nesta segunda-feira 19 mostram a gravidade desse clima. Uma manifestação bolsonarista, com carro de som, faixas e um boneco de Lula vestido de presidiário, encontrou reação de estudantes e terminou em confronto. Houve socos, chutes e empurrões nas proximidades do Setor IV. Os relatos sobre o início das agressões divergem, e as responsabilidades precisam ser esclarecidas.

Seria imprudente atribuir o episódio universitário diretamente ao debate da véspera. Os dois acontecimentos, contudo, revelam uma convivência política deteriorada, em que a provocação se sobrepõe à disposição de ouvir. Parlamentares, candidatos e dirigentes têm obrigação de conter agressões e orientar seus apoiadores, sobretudo quando participam das mobilizações.

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O próximo encontro dos presidenciáveis precisa oferecer respostas mais completas e permitir que o eleitor reconheça os projetos em disputa. A condução de um país exige capacidade de explicar escolhas, enfrentar perguntas e respeitar divergências. Quem pede o voto dos brasileiros deve demonstrar essas condições diante deles.