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Editorial

Lula e Flávio devem garantir debates no segundo turno presidencial

Cancelamento do encontro da Record reforça a necessidade de confrontar propostas; pesquisa aponta que 78% consideram a participação muito importante
Editorial
10/10/2026 | 01:20

O cancelamento do debate presidencial da Record, anunciado nesta sexta-feira 9, aumenta a responsabilidade de Lula e Flávio Bolsonaro de assegurar os encontros restantes do segundo turno. A emissora havia reservado o domingo 11 para o confronto e informou que houve “incompatibilidade de agendas dos candidatos à Presidência da República”. A dezesseis dias da votação, marcada para 25 de outubro, os compromissos das campanhas precisam acomodar o interesse dos brasileiros em ouvir os dois concorrentes frente a frente.

A cobrança encontra respaldo expressivo no eleitorado. Pesquisa Datafolha divulgada nesta sexta-feira mostra que 78% consideram muito importante a participação de Lula e Flávio nos debates. A avaliação alcança 80% dos eleitores do candidato do PL e 77% dos apoiadores do presidente. Também atravessa regiões: chega a 79% no Sudeste e 78% no Nordeste. O levantamento ouviu 2.520 pessoas em 153 municípios, nos dias 6 e 7, com margem de erro de dois pontos percentuais.

Renan Santos, Ronaldo Caiado e Augusto Cury nos púlpitos do debate da Band
Renan Santos, Ronaldo Caiado e Augusto Cury no debate da Band de agosto, em imagem de arquivo — Reprodução/Band

Há consequências eleitorais possíveis. Para 18% dos entrevistados, o desempenho nos confrontos pode levar à mudança do voto, embora com diferentes graus de probabilidade. Entre jovens de 16 a 24 anos, essa possibilidade chega a 31%. Dos eleitores que escolheram outros candidatos no primeiro turno, 20% apontam grande chance de rever a preferência em razão dos debates. São parcelas relevantes numa disputa em que cada campanha procura ampliar sua votação.

O primeiro turno deixou uma dívida com o público. Houve apenas um debate presidencial na televisão, o menor número desde 1998, quando nenhum encontro foi realizado. Na Band, em 23 de agosto, participaram Ronaldo Caiado, Renan Santos e Augusto Cury. Lula e Flávio ficaram ausentes. Romeu Zema desistiu no dia do evento. O contraste histórico é acentuado: houve sete debates no primeiro turno de 2010, cinco em 2014, sete em 2018 e três em 2022.

O encontro da Globo, previsto para 1º de outubro, acabou cancelado após decisões judiciais e as desistências dos dois favoritos. Lula alegou desvantagem diante de cinco adversários. Flávio evitava participar sem o presidente, para escapar da condição de alvo principal. Esse cálculo permite compreender as decisões das campanhas e evidencia o prejuízo imposto ao eleitor: os candidatos mais votados chegaram ao segundo turno sem confrontar diretamente suas propostas na televisão.

O debate é o momento em que o eleitor vê as ideias confrontadas sem a embalagem do marketing e da propaganda cuidadosamente produzida para a TV e o rádio. Diante de uma pergunta incômoda, o candidato precisa explicar escolhas, responder à contestação e sustentar o que acabou de afirmar. A edição, a trilha sonora e a seleção de imagens da publicidade eleitoral cedem espaço à capacidade de argumentar e ao conhecimento dos assuntos apresentados.

Perguntas de jornalistas e questionamentos entre adversários revelam diferenças de prioridades e preparo para governar. Um debate também é a oportunidade de observar respostas sob pressão, fora dos ambientes controlados pelas assessorias. É uma avaliação que o eleitor tem razões para exigir de quem pretende comandar o país.

Cabe às emissoras organizar encontros que favoreçam essa comparação. Perguntas sobre financiamento da saúde, segurança pública, contas do governo, educação e custo de vida devem exigir medidas concretas, prazos e explicações sobre os recursos necessários. A mediação precisa cobrar respostas e assegurar tempo equilibrado. Insultos, acusações sem demonstração e intervenções preparadas apenas para circular nas redes consomem minutos que poderiam esclarecer decisões capazes de afetar milhões de famílias.

Há encontros previstos na Band, em 18 de outubro, e na Globo, no dia 23. As campanhas devem confirmar presença com antecedência e permitir que as emissoras concluam a organização. O segundo turno oferece condições especialmente favoráveis: dois candidatos, tempo equivalente e a possibilidade de examinar com mais profundidade as propostas de cada um.

Lula deve responder pelo governo que conduz e explicar os compromissos de uma nova gestão. Flávio precisa detalhar o projeto com que pretende substituí-lo e submetê-lo às perguntas do adversário e da imprensa. Ambos devem essa prestação de contas aos brasileiros. Confirmar e cumprir a participação nos debates é uma providência necessária para que o eleitor chegue a 25 de outubro com informações suficientes sobre o governo que está escolhendo.