Quem está no Rock in Rio desde a sexta-feira 4, quando o festival começou na cidade do Rio de Janeiro, encara uma maratona capaz de somar muitas horas de música em frente aos palcos. E há uma parte do corpo que começa a cobrar cuidado bem antes do fim da programação: o ouvido. A conta aperta quando os sistemas de som atingem algo entre 100 e 120 decibéis, a unidade que mede a intensidade do som.
O tempo que se pode passar exposto encurta à medida que o volume sobe. A referência das diretrizes internacionais de saúde é de no máximo oito horas seguidas a 85 decibéis. Nos 100 dB, esse limite despenca para uns 15 minutos sem nenhuma proteção — e, dali para cima, o intervalo considerado seguro fica menor ainda.

Quem mais preocupa são os jovens, presença certa em shows e festivais. A Organização Mundial da Saúde (OMS), agência de saúde das Nações Unidas, calcula em mais de 1,1 bilhão o número de pessoas de 12 a 35 anos sob risco de perder audição por hábitos de escuta inseguros — tanto o uso incorreto de aparelhos pessoais quanto horas seguidas de música em alta intensidade.
Mesmo assim, perder audição segue no imaginário como problema de quem envelheceu. Um estudo da GAES sobre a saúde auditiva da juventude achou 60% de entrevistados sem nenhuma preocupação com o próprio ouvido, e parte dessa despreocupação vem justamente de enxergar a surdez como assunto da terceira idade.
Que o som passou do ponto, o corpo costuma avisar assim que o show termina. Ouvido tapado, dificuldade momentânea para escutar e zumbido — o apito ou chiado que a pessoa ouve sem que haja som nenhum por perto — são os indícios mais comuns de superexposição.
O fato de tudo isso passar depois de um tempo não autoriza a ignorar o aviso quando ele se repete. O estrago se acumula: cada exposição nova soma risco às anteriores, e o efeito aparece somado lá na frente.
Se o zumbido insistir, se a sensação de ouvido cheio não passar ou se a audição parecer diferente dias depois do festival, o caminho é procurar avaliação profissional — e não tratar o incômodo como preço natural de quem passou horas em frente a um palco.
Há como reduzir a exposição sem abrir mão de show nenhum. O primeiro recurso é o protetor auricular desenvolvido para ambiente musical, que baixa a intensidade do som que chega ao ouvido sem transformar a música num ruído abafado.
Onde a pessoa fica também muda a conta. Colar-se às caixas e às colunas de som, de frente ou de lado, é a pior escolha possível; alguns metros de distância já reduzem o que chega ao sistema auditivo.
Festival longo pede intervalo para o ouvido, e não apenas para as pernas e para o estômago. A orientação é reservar de 10 a 15 minutos em algum ponto mais silencioso a cada hora de exposição contínua, seja nas áreas de descanso, seja nos espaços mais afastados dos palcos.
O cuidado, aliás, cabe antes de o primeiro show começar e depois de o último acabar. Segurar o uso do fone de ouvido nesses períodos evita empilhar mais estímulo sonoro sobre um dia que já foi barulhento.
Para o fone existe uma regra de bolso, a 60/60: volume abaixo de 60% do que o aparelho pode dar e, no máximo, 60 minutos de uso por dia.
Fecha a lista prestar atenção no que o próprio ouvido informa. Zumbido que não vai embora, sensação de ouvido entupido e a impressão de que a audição mudou depois do festival não são parte inevitável da experiência.
Num evento do tamanho do Rock in Rio, dá para atravessar o dia circulando de palco em palco. Pausa, distância das caixas e proteção adequada são o que permite levar o cuidado com a audição junto com a maratona — e continuar ouvindo bem quando a música acabar.