Fazer 70 anos deixou de ser motivo para sair do rastreamento do câncer de mama: a idade não encerra mais o cuidado com as mamas. A Agência Nacional de Saúde Suplementar (ANS) ampliou o que os planos são obrigados a cobrir em mamografia digital e desmontou uma trava que vigorava desde 2016, quando o exame ficou garantido apenas a quem tinha entre 40 e 69 anos.
Presidente da Sociedade Brasileira de Mastologia – Regional Rio Grande do Norte (SBM-RN), a mastologista Roberta Jales avalia que a mudança fecha uma lacuna aberta justamente quando as brasileiras passaram a viver mais. A recomendação, segundo ela, é que a continuidade do acompanhamento seja decidida caso a caso, olhando a saúde da paciente e os fatores de risco de cada uma.

“As mulheres estão vivendo mais e estavam fora do rastreio. A inclusão das pacientes acima de 70 anos é muito importante porque não podemos estabelecer uma idade para deixar de olhar para a saúde da mulher. É preciso avaliar cada paciente, sua condição clínica e seus fatores de risco”, afirma.
O tamanho do problema entre as mais velhas
Os números do DATASUS dão a dimensão de quem estava fora da conta. Entre 2015 e 2024, foram contabilizados no Brasil 162.471 diagnósticos da doença em idosas. Desse total, 93.852 terminaram em morte.
A ANS aprovou a ampliação em 25 de agosto. Antes disso houve consulta pública neste ano e uma rodada de discussões com a Sociedade Brasileira de Mastologia ao lado de outras entidades da área médica. As operadoras agora aguardam a formalização da medida para liberar o exame sem restrição de faixa etária ou de gênero sempre que houver indicação médica.
O que ainda está em aberto
A decisão não encerra a discussão sobre quem deve fazer mamografia e de quanto em quanto tempo. Roberta defende ampliar o acesso ao rastreamento e derrubar os obstáculos que atrasam o acompanhamento.
“Quando falamos de uma doença que pode ser detectada precocemente e cujo diagnóstico em fases iniciais aumenta as possibilidades de tratamento, precisamos ampliar o acesso da mamografia, hoje ainda de dois em dois anos, e reduzir as barreiras para que as mulheres façam o acompanhamento adequado”, explica a médica.
O raciocínio é o mesmo em todos os pontos: uma faixa etária fixada de antemão não pode, sozinha, mandar no acompanhamento. Entram na conta o histórico de cada uma, os fatores de risco e a condição clínica do momento — e isso vale principalmente para quem chega aos 70 anos em boas condições e continua precisando de prevenção.
O tema na Jornada de Mastologia
O rastreamento estará entre os assuntos da III Jornada de Mastologia do Rio Grande do Norte, nos dias 4 e 5 de setembro, no Hotel Barreira Roxa, em Natal. Outros temas do encontro: de que modo é possível diminuir o número de cirurgias na axila — ou dispensá-las — sem colocar a paciente em risco, o que avançou na reconstrução mamária e o que surgiu de novo em tratamento oncológico.
A programação abre espaço ainda para os agonistas do GLP-1 aplicados ao câncer de mama, para a preservação da fertilidade e a gravidez após o tratamento, para a reposição hormonal na menopausa e a testosterona, para a atividade física e para os exames que orientam a escolha da terapia segundo o perfil de cada paciente.
O público é formado por mastologistas, ginecologistas, oncologistas, radiologistas, cirurgiões e demais profissionais que cuidam da saúde da mulher. A jornada também se volta a quem trabalha na Atenção Primária e nas Unidades Básicas de Saúde — a porta em que muitas pacientes entram no sistema, mostram o primeiro sinal suspeito ou recebem o encaminhamento para investigar.
Para as mulheres, o recado central é um só: idade não é ponto final. Passados os 70, a mamografia continua sendo assunto de avaliação médica individual, medindo risco e condição de saúde de cada uma.
A reportagem foi publicada na edição desta quinta-feira 3 de O Correio de Hoje: Cuidado com as mamas não tem idade.