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Editorial

Emprego positivo, alerta aceso

Saldo de julho foi sustentado por atividades sazonais e expõe dependência das microempresas potiguares
Agora RN
28/08/2026 | 22:36

O Rio Grande do Norte encerrou julho com a abertura de 999 novos empregos formais. O saldo resultante de 21.759 admissões e 20.760 desligamentos autoriza alívio: o Estado alcançou 531.710 vínculos regidos pela CLT. A leitura do boletim do Sebrae-RN, elaborado com dados do Novo Caged, porém, recomenda menos celebração e mais atenção à composição desse resultado.

A agropecuária abriu 1.291 vagas no mês, das quais 1.020 vieram do cultivo de melão. A fabricação de açúcar em bruto acrescentou 451 postos. Juntas, as duas atividades criaram 1.471 empregos, número superior ao saldo total do Estado. Isso significa que, sem a força circunstancial do calendário agrícola e da produção açucareira, julho teria terminado com mais demissões do que contratações.

Rio Grande do Norte tem média de empregos formais gerados
Empregos formais no Rio Grande do Norte — Divulgação

A sazonalidade não diminui a importância dessas cadeias. A fruticultura irrigada movimenta municípios do Oeste, sustenta exportações e distribui renda. Apodi abriu 191 vagas, 181 delas no cultivo de melão; Baraúna criou 104, com 80 na mesma atividade; e Açu registrou 126. Em Goianinha, a fabricação de açúcar respondeu por 452 dos 493 postos gerados.

O problema aparece quando a reação mensal é confundida com recuperação duradoura. O saldo de julho foi o menor para o mês desde 2022. Naquele ano, foram criadas 2.761 vagas; em 2023, 3.459; em 2024, 6.014; e, em 2025, 3.446. O resultado equivale a menos de um sexto do alcançado há dois anos.

O acumulado é ainda mais preocupante. Entre janeiro e julho, o Rio Grande do Norte criou 1.822 empregos. No mesmo intervalo, havia aberto 10.072 vagas em 2022, 9.535 em 2023, 19.259 em 2024 e 10.185 em 2025. A queda chega a 90,5% ante 2024 e a 82,1% na comparação com o ano passado.

Os setores contam histórias distintas. Serviços lideram o ano, com 4.052 empregos, mas perderam 608 somente em julho. A construção acumula 918 vagas, embora tenha fechado 271 no mês. O comércio soma 821 no ano e abriu 204 em julho. Indústria e agropecuária permanecem negativas no acumulado, com perdas de 741 e 3.222 postos, respectivamente.

Até o melão, motor da reação de julho, ainda acumulava a eliminação de 1.870 empregos em 2026. A fabricação de álcool fechou 1.176 vagas. Nos serviços, o apoio a edifícios dispensou 696 trabalhadores no mês e ficou 935 postos abaixo de sua média histórica. Na construção, estações e redes de distribuição de energia elétrica eliminaram 220 vagas.

O mapa municipal revela a mesma irregularidade. Enquanto a fruticultura favoreceu Apodi, Açu e Baraúna e o açúcar impulsionou Goianinha, Mossoró perdeu 486 empregos pelo recuo dos serviços de apoio a edifícios. Parnamirim fechou 102 vagas, com peso do teleatendimento. Caicó, São Bento do Norte e São Paulo do Potengi também terminaram julho no vermelho.

O dado mais eloquente, entretanto, está no porte das empresas. As microempresas criaram 7.814 vagas entre janeiro e julho e apresentaram saldo positivo em todos os meses. As pequenas perderam 281 postos; as médias, 2.113; e as grandes, 3.598. Sem os empregos abertos pelos menores negócios, o Estado teria acumulado saldo negativo de 5.992 vagas.

Não se trata apenas de reconhecer a resistência dos pequenos empreendedores. É preciso criar condições para que negócios frágeis ganhem produtividade, crédito, tecnologia e acesso a mercados sem serem esmagados por custos burocráticos e financeiros. Também é necessário ampliar a ligação entre agricultura, indústria e serviços, de modo que a produção sazonal gere ocupações mais estáveis em beneficiamento, logística e comercialização.

A posição regional reforça a urgência. O Rio Grande do Norte ficou em oitavo lugar entre os nove Estados nordestinos em julho, à frente apenas do Maranhão. A Bahia abriu 4.664 vagas e o Ceará, 4.181. Até Sergipe, com 1.095 postos, superou o saldo potiguar. O RN gerou somente 21,4% dos empregos criados pela Bahia e 24% dos registrados pelo Ceará.

Os 999 postos de julho são bem-vindos, sobretudo para as famílias que passaram a contar com salário, proteção previdenciária e direitos trabalhistas. Mas um mercado sustentado por poucos segmentos sazonais e pela capacidade das microempresas de resistir não oferece base suficiente para uma expansão contínua. O boletim do Sebrae-RN mostra que o emprego potiguar não parou; mostra também que avança devagar, de maneira desigual e dependente.

O caminho exige ambiente favorável ao investimento produtivo, qualificação conectada às necessidades locais e infraestrutura capaz de integrar o interior aos mercados. A tarefa não cabe apenas ao poder público, mas ele deve coordenar políticas e remover entraves. O saldo positivo merece registro. O menor acumulado em cinco anos, contudo, exige ação antes que a lentidão se transforme em estagnação.