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Economia

Exportações de melão no RN podem gerar R$ 1,42 bilhão na atual safra

Codern projeta embarque de 250 mil toneladas de frutas pelo Porto de Natal no ciclo 2026/2027; Europa concentra vendas, mas custos, abastecimento de água e logística limitam expansão
Agora RN
19/08/2026 | 09:37

A safra potiguar de melão 2026/2027 deve movimentar R$ 1,42 bilhão em negócios, com aproximadamente 250 mil toneladas de frutas embarcadas pelo Porto de Natal. A projeção da Companhia Docas do Rio Grande do Norte (Codern) indica crescimento de 4,4% na receita em relação ao ciclo anterior, quando foram movimentados R$ 1,36 bilhão e 240 mil toneladas.

O avanço esperado no volume físico é de cerca de 4,2%, com acréscimo de 10 mil toneladas. O resultado dependerá do comportamento da demanda europeia, do câmbio, dos preços internacionais e da capacidade de produtores e operadores logísticos de absorver a alta dos custos.

Fazenda Famosa preparo do Melão pra exportação Mossoró RN (56) Foto: José Aldenir
Números mostram aumento de 10 mil toneladas de melão este ano, na comparação com mesmo período de 2025 - Foto: José Aldenir

A temporada de embarques começou com o navio frigorífico Baltic Performer, que atracou no Porto de Natal em 10 de agosto. A embarcação deixou o terminal na sexta-feira, 14, transportando cerca de 5 mil toneladas de frutas para Dover, no Reino Unido, e Roterdã, nos Países Baixos.

O carregamento representa aproximadamente 2% do volume total estimado para o ciclo. Com 150 metros de comprimento e bandeira das Bahamas, o Baltic Performer é destinado ao transporte de cargas refrigeradas, modalidade necessária para preservar a qualidade das frutas durante a travessia do Atlântico.

Europa concentra as vendas

A Europa permanece como o principal mercado do melão potiguar. Espanha, Países Baixos e Reino Unido responderam por cerca de 94% do valor exportado pelo Rio Grande do Norte no primeiro semestre deste ano, segundo levantamento da Secretaria de Estado do Desenvolvimento Econômico (Sedec-RN).

Entre janeiro e junho, as exportações potiguares de melão geraram US$ 51,4 milhões. O período inclui o encerramento da safra 2025/2026 e a entressafra, quando a produção e os embarques diminuem. Em 2025, o valor obtido com as exportações da fruta cresceu 16,2% na comparação com 2024. “Em um cenário otimista, espera-se que o percentual de crescimento se perpetue nas safras seguintes”, informou a Sedec-RN.

A Codern calcula que aproximadamente 70% dos melões e das melancias consumidos no mercado europeu, incluindo o Reino Unido, sejam provenientes das cargas embarcadas pelo terminal potiguar. A estimativa considera frutas produzidas no Rio Grande do Norte e em áreas vizinhas do Ceará.

O Porto de Natal é utilizado por causa da proximidade com a região produtora e da existência de uma linha marítima regular para a Europa. A movimentação de frutas frescas representa uma parcela relevante da atividade do terminal, além de gerar demanda por transporte rodoviário, armazenamento refrigerado, serviços portuários e mão de obra.

Melhor concorrência favorece preços

O início da safra brasileira coincide com o encerramento gradual da produção europeia. Segundo Carlo Porro, fundador e presidente da Agrícola Famosa, as temperaturas elevadas prejudicaram a qualidade de parte do melão produzido na Espanha, principal concorrente durante a abertura da temporada potiguar.

A expectativa é de menor sobreposição entre as duas safras, o que pode reduzir a oferta no mercado europeu e favorecer os preços do produto brasileiro. Porro avalia que a temporada começou em condições comerciais melhores que as do ciclo passado.

A Agrícola Famosa mantém aproximadamente 13 mil hectares plantados com melão e melancia e responde, segundo a empresa, por mais de 65% das frutas brasileiras comercializadas na Europa. A companhia pretende preservar essa participação, ampliar as vendas ao Canadá e manter ou aumentar os embarques aos Estados Unidos.

A projeção de faturamento, no entanto, depende da taxa de câmbio. Como os contratos internacionais são fechados principalmente em dólar e euro, a valorização ou a desvalorização do real interfere diretamente na receita obtida pelos exportadores.

No mercado interno, a empresa pretende ampliar a oferta de frutas de maior padrão comercial. A medida busca diversificar as fontes de receita e reduzir parcialmente a dependência dos compradores europeus.

Entressafra com queda nos embarques

Dados do Centro de Estudos Avançados em Economia Aplicada (Cepea), no segmento hortifrústis, mostram que as exportações brasileiras de melão caíram durante a entressafra. Em junho, o volume enviado ao exterior recuou 59% na comparação mensal, para 2,5 mil toneladas. A receita diminuiu 55%, para US$ 2 milhões.

Entre abril e junho, os embarques somaram 20 mil toneladas, queda de 21% em relação ao mesmo período de 2025. A receita foi de US$ 15 milhões, recuo de 19%. A redução ocorreu em razão da menor oferta no Rio Grande do Norte e no Ceará, da safra europeia e da maior presença de frutas produzidas na América Central. As chuvas registradas no Nordeste entre março e abril também afetaram a produtividade e a qualidade de parte dos melões.

Os principais destinos em junho foram Reino Unido, com 44% do volume; Países Baixos, com 32%; e Espanha, com 9%. Os números confirmam a concentração das vendas brasileiras no continente europeu.

Para a nova temporada, agentes do setor avaliam que eventuais reduções de oferta em países concorrentes da América Central podem abrir espaço para o melão brasileiro. O comportamento desse mercado, porém, ainda é incerto, depois de a produção centro-americana superar a do ano anterior durante parte de 2026.

Contratos cautelosos

O Hortifruti/Cepea aponta que as negociações para a safra 2026/2027 começaram com atrasos e maior cautela entre exportadores brasileiros e importadores europeus. O desempenho da campanha anterior, abaixo do esperado em receita para parte das empresas, reduziu a disposição para fechar antecipadamente contratos de grandes volumes.

A Federação da Agricultura, Pecuária e Pesca do Rio Grande do Norte (Faern) considera favorável a perspectiva para a nova safra, apoiada no resultado comercial anterior e na expectativa de demanda contínua no exterior.

O desempenho, contudo, estará condicionado aos custos logísticos. O conflito no Oriente Médio elevou os preços do diesel, do transporte marítimo e dos seguros, pressionando as margens de produtores e exportadores.

A produção também exige oferta regular de água durante todo o ciclo. A fruticultura irrigada está concentrada principalmente na região de Mossoró, Baraúna e municípios próximos à divisa com o Ceará, onde a disponibilidade hídrica interfere na área plantada e na produtividade.

Outro ponto é a estrutura de escoamento entre as fazendas e o Porto de Natal. Condições das rodovias, distância, oferta de contêineres refrigerados e regularidade das linhas marítimas influenciam o prazo e o custo para colocar as frutas no mercado externo.

Com a previsão de 250 mil toneladas, a safra 2026/2027 deverá superar o ciclo anterior tanto em volume quanto em receita. A confirmação do crescimento dependerá da abertura de espaço no mercado europeu, da qualidade das frutas e da capacidade do setor de administrar água, transporte e custos de produção ao longo dos próximos meses.