Quase toda família conhece alguém que toma um comprimido para dormir ou utiliza algum medicamento para controlar a ansiedade. Para algumas pessoas, o remédio é usado durante uma fase específica. Para outras, o tratamento passa a fazer parte da rotina por meses ou até anos.
Clonazepam, alprazolam, diazepam, zolpidem e medicamentos semelhantes estão entre os remédios utilizados para tratar diferentes condições relacionadas ao sono e à ansiedade. No Brasil, o clonazepam, conhecido pelo nome comercial Rivotril, figura há anos entre os medicamentos mais consumidos.

Ao mesmo tempo em que esses medicamentos são amplamente utilizados, estudos científicos vêm investigando uma possível relação entre seu uso e o desenvolvimento da doença de Alzheimer. Manchetes sobre o assunto podem dar a impressão de que já existe uma resposta definitiva, mas as evidências disponíveis ainda não permitem afirmar que esses medicamentos causem a doença.
Uma revisão recente de 13 grandes estudos observacionais, da qual participaram os pesquisadores responsáveis pela análise, reforça justamente essa incerteza. O trabalho reuniu dados de mais de 720 mil participantes e encontrou uma associação entre o uso de benzodiazepínicos e medicamentos conhecidos como Z-drugs, como o zolpidem, e uma maior chance de desenvolver Alzheimer.
No entanto, os resultados apresentaram diferenças entre os estudos analisados. Por isso, segundo a revisão, ainda não é possível estabelecer uma relação causal entre o uso desses medicamentos e o desenvolvimento da doença.
A preocupação com uma possível relação entre benzodiazepínicos, medicamentos para dormir e Alzheimer surgiu a partir de estudos publicados nas últimas duas décadas. Diversas pesquisas observaram que pessoas que utilizavam esses medicamentos apresentavam maior frequência de doença de Alzheimer anos depois.
A princípio, esse resultado pode parecer indicar que o medicamento aumenta o risco da doença. Em estudos médicos, porém, a presença de uma associação não significa necessariamente que uma situação tenha provocado a outra.
Um dos motivos é a chamada causalidade reversa.
Uma pessoa pode começar a dormir mal, apresentar mais ansiedade ou desenvolver sintomas depressivos muitos anos antes de receber um diagnóstico de Alzheimer. Essas alterações podem levá-la a procurar atendimento médico e, consequentemente, receber uma prescrição de benzodiazepínicos ou de medicamentos para dormir.
Nesse caso, o uso do medicamento não seria necessariamente o responsável pelo início da doença. Ele poderia estar relacionado a sintomas que já faziam parte de um processo neurodegenerativo que havia começado anteriormente. A causalidade reversa é um dos fatores que dificultam a interpretação dos resultados de estudos observacionais e a identificação de relações de causa e efeito na medicina.
Foi justamente essa questão que motivou a realização da revisão sistemática com meta-análise que reuniu os principais estudos publicados sobre o uso de benzodiazepínicos e Z-drugs e o risco de doença de Alzheimer.
As Z-drugs, como o zolpidem, induzem o sono de forma mais seletiva do que os benzodiazepínicos. Apesar dessa diferença, o uso prolongado também está associado a riscos como dependência, abstinência, quedas e fraturas.
Na revisão, foram analisados dados de mais de 720 mil participantes de estudos observacionais. Nesses trabalhos, os pesquisadores acompanham as pessoas ao longo do tempo, mas não determinam quem recebe ou não determinado tratamento.
Quando os estudos foram analisados em conjunto, foi encontrada uma associação entre o uso desses medicamentos e uma maior chance de desenvolver Alzheimer.
O resultado, porém, não foi uniforme. Os pesquisadores observaram diferenças consideráveis entre os estudos analisados. Essa variação é uma das razões pelas quais os dados disponíveis não permitem afirmar que os medicamentos sejam responsáveis pelo desenvolvimento da doença.
Assim, encontrar uma associação entre o uso de benzodiazepínicos e Z-drugs e a doença de Alzheimer não significa que os medicamentos causem a doença.
A ausência de uma conclusão sobre a relação com o Alzheimer não significa que o uso prolongado desses medicamentos seja considerado seguro.
Há décadas, diferentes estudos demonstram que o uso contínuo de benzodiazepínicos pode estar associado a prejuízos de memória, atenção, velocidade de processamento das informações e outras funções cognitivas, especialmente entre pessoas idosas.
Os medicamentos também estão associados a dependência, tolerância, sonolência durante o dia, quedas, fraturas e acidentes.
Esses efeitos estão entre os motivos pelos quais diferentes diretrizes nacionais e internacionais recomendam evitar, sempre que possível, o uso prolongado dos medicamentos.
A principal questão científica, portanto, não é saber se os benzodiazepínicos podem produzir efeitos sobre a cognição. Esses efeitos já são conhecidos. A dúvida que permanece é outra: se os medicamentos participam diretamente do desenvolvimento da doença de Alzheimer ou se o uso deles identifica pessoas que já apresentavam alterações relacionadas ao processo neurodegenerativo antes mesmo da prescrição.
A discussão também envolve uma questão anterior: por que tantas pessoas recorrem a medicamentos para dormir?
A insônia e outros problemas relacionados ao sono não afetam apenas a qualidade de vida. Durante o sono, especialmente nas fases mais profundas, o cérebro realiza funções relacionadas à sua manutenção. Entre elas está a eliminação de proteínas e metabólitos que se acumulam ao longo do dia.
Distúrbios crônicos do sono também estão associados à inflamação, alterações metabólicas, pior controle da pressão arterial e maior risco cardiovascular. Esses fatores podem contribuir para o declínio cognitivo ao longo do envelhecimento.
A própria insônia pode ser um fator de risco independente para alterações cognitivas em muitos casos. Em outras situações, porém, ela pode representar um dos primeiros sintomas de doenças neurodegenerativas ainda não diagnosticadas.
Por isso, identificar a causa das alterações no sono é parte importante do cuidado.
Benzodiazepínicos e medicamentos para dormir continuam sendo ferramentas utilizadas pela medicina. Em situações específicas, como crises intensas de ansiedade, insônia aguda, algumas doenças neurológicas e determinadas condições psiquiátricas, eles podem oferecer benefícios e melhorar a qualidade de vida.
O problema não está necessariamente na prescrição do medicamento, mas na possibilidade de um tratamento inicialmente planejado para durar dias ou algumas semanas permanecer por meses ou anos sem reavaliação periódica.
As recomendações atuais indicam que esses medicamentos devem ser utilizados na menor dose eficaz e pelo menor período possível, sempre que isso for viável. O tratamento também deve estar associado à abordagem da causa da insônia ou da ansiedade e ser acompanhado por um profissional de saúde.
A revisão não estabelece que benzodiazepínicos ou Z-drugs provoquem a doença de Alzheimer. Os resultados mostram uma associação entre o uso desses medicamentos e uma maior chance de desenvolver a doença, mas não permitem determinar que exista uma relação de causa e efeito.
Os estudos disponíveis são observacionais, apresentam diferenças entre si e estão sujeitos a fatores de confusão e à causalidade reversa. Por isso, os resultados precisam ser interpretados com cautela. Enquanto novas pesquisas buscam esclarecer se esses medicamentos participam diretamente do desenvolvimento do Alzheimer, os riscos associados ao uso prolongado dos benzodiazepínicos já são conhecidos.
A orientação, portanto, envolve cuidar da qualidade do sono, investigar e tratar adequadamente suas alterações e reavaliar periodicamente a necessidade do uso desses medicamentos com acompanhamento profissional.