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Alzheimer

Por que alguns pacientes com Alzheimer seguem lúcidos

Estudo da Universidade da Califórnia em San Diego aponta mecanismos genéticos que podem explicar a preservação da cognição em casos de Alzheimer
Por O Correio de Hoje
22/04/2026 | 14:54

Pesquisadores da Universidade da Califórnia em San Diego (UC San Diego), nos Estados Unidos, identificaram possíveis explicações para um fenômeno que intriga a comunidade científica: a manutenção da lucidez em parte dos pacientes com Alzheimer, mesmo diante de alterações cerebrais típicas da doença. O quadro, conhecido como Alzheimer assintomático, pode contribuir para o desenvolvimento de novas estratégias de tratamento, segundo os cientistas.

O estudo, publicado na revista científica Acta Neuropathologica Communications, analisou a expressão gênica em milhares de amostras de cérebros humanos. A partir dessa análise, foram identificados padrões moleculares associados tanto à progressão quanto à proteção contra a doença. Os resultados indicam que há perfis genéticos específicos relacionados à ausência de sintomas, mesmo quando estão presentes alterações como o acúmulo das proteínas beta-amiloide e tau.

senior people confronting alzheimer disease
Proteína pode atuar como “interruptor” no desenvolvimento dos sintomas do Alzheimer Foto: FreePik

Entre os achados, os pesquisadores observaram um padrão ligado à menor atividade de genes associados ao acúmulo da proteína tau, responsável pela formação de emaranhados que comprometem os neurônios. Também foi identificado um aumento da atividade de sistemas relacionados à resposta ao estresse celular no cérebro, o que pode atuar como mecanismo de proteção.

Outro ponto destacado pela pesquisa envolve a proteína cromogranina A (CgA), apontada como um possível regulador molecular capaz de influenciar se as alterações cerebrais irão ou não resultar em perda de memória. Em experimentos com camundongos, a retirada dessa proteína demonstrou efeito protetor contra os danos associados ao Alzheimer.

Os pesquisadores avaliam que essas descobertas ajudam a explicar por que cerca de 20% a 30% das pessoas com alterações cerebrais compatíveis com Alzheimer não apresentam comprometimento cognitivo. O fenômeno reforça a existência de mecanismos naturais de defesa do cérebro.

“Mesmo quando o cérebro mostra sinais claros de Alzheimer, algumas pessoas permanecem mentalmente lúcidas. Estamos começando a desvendar os mecanismos de defesa inatos do cérebro, e isso pode mudar fundamentalmente a forma como abordamos o tratamento”, afirma o coautor do estudo e professor de Medicina na UC San Diego, Sushil K. Mahata.

Resiliência cognitiva

Em paralelo, uma revisão publicada no periódico The Lancet Neurology reuniu evidências recentes sobre o conceito de “resiliência cognitiva”, que descreve a capacidade do cérebro de preservar funções como memória e raciocínio, mesmo diante de doenças neurodegenerativas.

O trabalho foi conduzido por pesquisadores do Centro para Envelhecimento Cerebral Saudável da Universidade de Nova Gales do Sul, na Austrália. Segundo os autores, avanços em técnicas de neuroimagem e na análise de biomarcadores presentes no líquido cefalorraquidiano têm permitido novas interpretações sobre como o cérebro responde à doença.

“A demência não é uma consequência inevitável da patologia cerebral. Alguns indivíduos apresentam uma notável resiliência cognitiva, mantendo suas capacidades cognitivas apesar de uma carga substancial de doença no cérebro”, explica o autor do estudo e codiretor do centro, Henry Brodaty.

De acordo com os pesquisadores, a integração entre testes cognitivos, exames de imagem e análise de biomarcadores pode permitir identificar com maior precisão quem apresenta essa resistência, além de indicar caminhos para intervenções capazes de preservar a cognição.

O avanço desse campo de estudo é apontado como um dos principais caminhos para o desenvolvimento de estratégias voltadas à desaceleração ou prevenção do declínio cognitivo, especialmente em um cenário global de envelhecimento populacional.