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Saúde Mental

Magreza extrema pode afetar autopercepção de adolescentes

Especialistas afirmam que a exposição contínua a imagens de pessoas muito magras pode reforçar comparações e afetar pessoas vulneráveis a transtornos alimentares
Por O Correio de Hoje
13/08/2026 | 14:32

A exposição diária a imagens de pessoas excessivamente magras, especialmente quando associadas a figuras conhecidas da mídia, pode afetar a autopercepção de adolescentes, segundo especialistas. Para profissionais que atuam na área de transtornos alimentares e saúde mental, a presença constante desse tipo de imagem pode influenciar a forma como jovens percebem o próprio corpo e o que consideram um padrão saudável.

De acordo com a psiquiatra Mireille Coelho, da Astral (Associação Brasileira de Transtornos Alimentares), adolescentes tendem a estar mais vulneráveis à influência de figuras que consideram referências. Pessoas que já apresentam transtornos alimentares podem ser ainda mais impactadas pela exposição à cultura da magreza extrema entre pessoas famosas.

Jovem sentada em um sofá, com os braços apoiados sobre os joelhos, em ambiente residencial
Imagens de pessoas muito magras podem influenciar percepção corporal de adolescentes - Foto: magnific

“Ver uma figura de referência, bem-sucedida e funcional, muito abaixo do peso, pode ser um gatilho. Além disso, é um reforço do desejo de ser mais magra, pois há alguém tão ou mais magra que eu que é bem-sucedida”, afirma a psiquiatra.

Um exemplo citado é o da cantora Ariana Grande. No início de agosto, ela anunciou uma pausa na carreira em decorrência de julgamentos relacionados à sua aparência.

Para Mireille, a naturalização de corpos com peso muito abaixo do recomendado também pode interferir na compreensão coletiva sobre o que é considerado um peso saudável.

“A naturalização do corpo com um peso muito abaixo do recomendado altera a visão da sociedade sobre o que é um peso saudável, porque a imagem corporal é uma construção”, diz.

Segundo a especialista, a normalização de corpos muito magros pode prejudicar pessoas que já apresentam transtornos alimentares e também afetar aquelas predispostas ao desenvolvimento dessas condições, seja por fatores genéticos ou outros.

A presidente do Conselho Federal de Psicologia, Ivani Oliveira, afirma que a exposição contínua a imagens de magreza extrema pode gerar um fenômeno de comparação disfuncional.

Segundo ela, pacientes submetidos à pressão estética precisam de atendimento que ajude a fortalecer a compreensão sobre a própria história. A proposta é mostrar que é possível admirar atrizes, cantoras e outras figuras de referência pelos valores e contribuições que apresentam, sem transformá-las em padrão para a própria imagem.

A forma como uma pessoa compreende o próprio corpo envolve dois aspectos, segundo Mireille. Um deles é o técnico, relacionado ao que é observado. O outro é subjetivo, relacionado à imagem que a pessoa constrói mentalmente sobre si mesma.

A especialista afirma que existem teorias que consideram a influência da sociedade nesse processo. Familiares, amigos próximos e figuras da mídia podem atuar como referências na construção das concepções sobre o que é considerado um corpo saudável ou belo.

Em pessoas com disforia de imagem, essa relação ocorre de maneira diferente. Segundo Mireille, há uma interação distinta entre áreas do cérebro e a autoimagem pode oscilar conforme o humor, em razão de impactos da rotina ou de alterações hormonais.

Mesmo com acompanhamento psicológico, essa percepção pode levar anos para ser identificada, tratada e normalizada, de acordo com a especialista.

Ela também está entre os fatores associados a recaídas em transtornos alimentares, que podem envolver restrição alimentar, compulsão alimentar, compulsão por exercícios ou comportamentos de purgação.

A presença de conteúdos produzidos por influenciadores digitais faz parte da rotina de grande parcela dos adolescentes.

Segundo a pesquisa TIC Kids Brasil 2025, 77% dos usuários de 9 a 17 anos afirmaram ter um celular próprio. Entre esses usuários, 80% disseram utilizar o aparelho para assistir a vídeos de influenciadores digitais. Além disso, 58% relataram consumir esse tipo de conteúdo mais de uma vez por dia.

O levantamento do ano anterior mostrou que 49% dos usuários de 11 a 17 anos tiveram contato na internet com conteúdos sobre dietas e refeições saudáveis. Outros 33% tiveram contato com conteúdos relacionados a exercícios, esportes ou formas de entrar em forma.

Para especialistas, a frequência de exposição torna necessário considerar não apenas o conteúdo isoladamente, mas também a maneira como ele é recebido e interpretado por cada pessoa.

Ivani Oliveira afirma que profissionais de psicologia precisam compreender a pressão pela magreza extrema também como um problema social.

“Estamos sendo bombardeados por imagens extremamente agressivas. É importante acolher sem julgar e oferecer ao paciente uma higiene digital e crítica, para que ele possa se nutrir de outros referenciais.”

A proposta, segundo a presidente do Conselho Federal de Psicologia, é que o acompanhamento não se limite à relação individual do paciente com o próprio corpo, mas considere também o ambiente no qual ele está inserido e os conteúdos aos quais é exposto.

Nesse contexto, a exposição frequente a imagens de corpos muito magros pode fazer parte de um conjunto de referências que influencia a construção da autoimagem, especialmente entre pessoas mais vulneráveis a transtornos alimentares.

Os especialistas ressaltam, porém, a importância de diferenciar a admiração por figuras públicas da adoção dessas pessoas como modelos para a própria aparência. A construção da percepção corporal envolve fatores individuais, familiares, sociais e culturais, e pode ser afetada pela forma como essas referências são apresentadas e interpretadas.