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Saúde Mental

Conteúdo sobre términos pode prolongar sofrimento

Vídeos sobre separações podem oferecer apoio, mas a exposição constante também pode dificultar a recuperação emocional
Por O Correio de Hoje
12/08/2026 | 14:58

Dias depois de terminar um relacionamento, Jasmine Barnett percebeu que seu feed do TikTok havia mudado. Os vídeos de comédia e exercícios que costumava assistir deram lugar a conteúdos sobre términos, estilos de apego e análises de relacionamentos.

No início, a contadora de 27 anos, de Atlanta, nos Estados Unidos, gostou da mudança. Depois de algumas semanas, porém, queria deixar o assunto para trás, mas os vídeos continuavam aparecendo. O feed passou a incluir mulheres chorando, leituras de tarô sobre ex-parceiros e conteúdos com orientações para reconquistar relacionamentos.

Jovem apoia a cabeça sobre o braço enquanto olha para a tela de um celular sobre uma mesa com um computador portátil
Conteúdos sobre términos podem ser recomendados pelas redes sociais e prolongar a atenção sobre a separação

Jasmine tentou bloquear esse tipo de publicação, mas o conteúdo continuou sendo recomendado. “Eu pensava: ‘Por favor, não quero mais ver isso, porque está me mantendo nesse estado depressivo’”, contou, lembrando de uma situação vivida dois anos atrás.

A experiência é relatada por outras pessoas que passam por um término. Nas redes sociais, conteúdos sobre separações podem incluir desde relatos pessoais e orientações sobre “contato zero” até transformações após o fim de um relacionamento e dicas de terapeutas e especialistas.

Para pesquisadores e profissionais de saúde mental, o problema está no excesso. A exposição contínua a conteúdos sobre términos pode manter a pessoa concentrada na separação e dificultar o processo de recuperação.

Jodi Halpern, professora de bioética da Universidade da Califórnia, em Berkeley, afirma que a imersão excessiva nesse tipo de conteúdo e o pensamento constante sobre a pessoa que foi perdida podem dificultar a recuperação.

O fenômeno é favorecido pela forma como funcionam os algoritmos das redes sociais. O TikTok, por exemplo, acompanha comportamentos como o tempo de visualização, a velocidade de rolagem e as curtidas, compartilhamentos e comentários para definir quais conteúdos serão exibidos posteriormente.

Isso significa que a plataforma não precisa saber diretamente que alguém está sofrendo por um término. Se o usuário passa mais tempo assistindo a vídeos sobre separações ou interage com eles, o sistema pode identificar esse interesse e recomendar conteúdos semelhantes.

Michael Rich, fundador do Digital Wellness Lab do Boston Children’s Hospital, afirma que o TikTok demonstra capacidade de responder a estados emocionais dos usuários, especialmente em períodos de maior vulnerabilidade. Para ele, o aumento do tempo de engajamento pode ocorrer em detrimento da saúde mental.

Segundo o especialista, direcionar repetidamente conteúdos sobre términos a alguém que acabou de se separar pode prolongar o sofrimento e dificultar o processamento da perda. Ele compara a situação a reabrir continuamente uma ferida.

Pesquisas apontam que o uso das redes sociais depois de um término pode estar associado a sentimentos negativos. A exposição ao ex-parceiro ou a busca por informações sobre ele pode aumentar a angústia e dificultar a recuperação emocional.

Mesmo quando usuários tentam retirar os ex-parceiros de suas vidas digitais, as próprias plataformas podem continuar apresentando conteúdos relacionados. Nesse contexto, especialistas chamam atenção para recursos como feeds infinitos, notificações e curtidas, que podem estimular o uso prolongado.

As empresas afirmam ter desenvolvido ferramentas para reduzir esse tipo de experiência. O TikTok declarou anteriormente que sua página “Para Você” foi projetada para interromper padrões repetitivos e evitar recomendações de conteúdos semelhantes em sequência. A plataforma também oferece ferramentas para limitar o tempo de tela.

A Meta, responsável pelo Instagram e pelo Facebook, oferece recursos para personalizar as recomendações e limitar determinados tipos de publicações. A empresa também anunciou uma ferramenta para permitir que usuários do Instagram visualizem e editem os temas que o sistema identifica como de maior interesse.

O YouTube também adotou recursos voltados à proteção de adolescentes, incluindo medidas para interromper hábitos de visualização repetitivos e lembretes para fazer pausas.

Apesar dessas ferramentas, especialistas e usuários afirmam que elas nem sempre impedem que grandes volumes de conteúdo sobre términos continuem aparecendo.

Nem todas as pessoas consideram negativo o conteúdo sobre términos. Algumas afirmam que as publicações ajudaram a normalizar suas experiências ou apresentaram orientações que consideraram úteis.

Ana Ruiz, de 35 anos, moradora de Orlando, na Flórida, terminou um relacionamento recentemente e disse que parte do conteúdo que encontrou no Instagram a ajudou a compreender problemas da relação e a lidar com a perda.

Outros usuários tiveram uma experiência diferente. Jason Salem, que tem cerca de 20 e poucos anos, afirmou que os vídeos sobre términos que consumia no Instagram e no YouTube eram “totalmente viciantes”. Ele passava horas assistindo a conteúdos sobre teoria do apego e publicações de criadores que prometiam maneiras de recuperar o relacionamento.

“Eu queria ter esperança”, afirmou.

Segundo ele, o consumo desse material atrasou sua recuperação e tirou sua atenção do trabalho, dos amigos e dos hobbies. Ele também afirmou que passou a enxergar relacionamentos de maneira mais negativa depois de consumir conteúdos que apresentavam opiniões pessimistas ou limitadas como se fossem fatos.

O terapeuta Jeff Guenther, que produz conteúdos sobre términos e relacionamentos no TikTok, afirma que pessoas em sofrimento intenso podem buscar vídeos que reforcem a percepção de que há algo muito errado.

Segundo ele, alguns conteúdos são úteis, principalmente os produzidos por especialistas ou baseados em experiências pessoais. Outros, porém, concentram-se em atribuir toda a responsabilidade pelo fim do relacionamento ao ex-parceiro.

Para Guenther, esse tipo de conteúdo pode impedir que a pessoa reflita sobre a própria participação na relação e sobre o que pode aprender com a experiência.

Ele também chama atenção para a chamada fase de negociação do luto, período em que a pessoa ainda pode manter a esperança de recuperar o relacionamento ou de que o ex-parceiro volte. Segundo o terapeuta, essa fase pode tornar o usuário mais vulnerável a conteúdos que oferecem falsas expectativas.

Enquanto a pessoa procura uma resposta que confirme a possibilidade de reconciliação, o algoritmo pode continuar oferecendo vídeos semelhantes, criando um ciclo de consumo que mantém o término no centro da atenção.