BUSCAR
BUSCAR
Editorial

O trabalho exige um debate mais profundo

Confira o Editorial desta sexta-feira 14
Editorial
14/08/2026 | 06:30

A falta de mão de obra em determinados setores da economia é uma realidade que merece atenção no Rio Grande do Norte. Empresas da construção civil, do comércio, dos serviços e de outras atividades relatam dificuldades para preencher vagas. O problema afeta prazos, encarece projetos, limita investimentos e pode comprometer a capacidade de crescimento de municípios do interior. Reconhecer esse cenário, entretanto, é apenas o primeiro passo. Explicá-lo exige uma análise muito mais ampla do que atribuí-lo simplesmente a uma suposta falta de vontade de trabalhar.

Durante sabatina promovida pela Fiern e pela Midiacom-RN nesta semana, o senador Styvenson Valentim (Podemos) afirmou que a maior dificuldade da construção civil no interior é encontrar trabalhadores porque “o caba não quer trabalhar”. Acrescentou que parte deles trabalharia apenas entre terça e quarta-feira e passaria o restante do tempo “tomando cachaça”.

Senador Styvenson Valentim durante sabatina na Fiern
Senador Styvenson Valentim durante sabatina na Fiern — Foto: Divulgação/Fiern

A busca por inovação é legítima e necessária. Sistemas industrializados, estruturas pré-fabricadas e novas técnicas de construção podem reduzir custos, aumentar a produtividade e melhorar o aproveitamento dos recursos públicos. Em nenhum lugar, porém, o avanço tecnológico deve ser apresentado como resposta a uma alegada indisposição coletiva para o trabalho. Essa leitura é rasa, generaliza comportamentos individuais e não é compatível com o perfil de uma população que historicamente construiu sua vida em condições econômicas adversas, muitas vezes precisando deixar a própria cidade ou o Estado em busca de oportunidades.

O potiguar, especialmente no interior, conhece de perto o trabalho árduo. Está na agricultura familiar, na construção civil, no comércio, nas feiras, nos serviços e nas pequenas atividades produtivas que sustentam a economia dos municípios. Reduzir uma questão estrutural a desinteresse ou consumo de bebida significa ignorar essa trajetória e substituir o diagnóstico por um estereótipo injusto.

É possível que algumas empresas não encontrem profissionais para determinadas funções. Mas é preciso perguntar, antes de culpar os trabalhadores, quais qualificações são exigidas, onde a formação é oferecida e se os interessados conseguem acessá-la. A construção civil passou por mudanças importantes, incorporou novos materiais, equipamentos e processos e passou a demandar conhecimentos que nem sempre estão disponíveis nos municípios menores. Sem ensino técnico, programas de aprendizagem e formação continuada, a distância entre a vaga oferecida e o perfil disponível tende a aumentar.

A remuneração também precisa fazer parte da discussão. Há vagas que permanecem abertas não porque ninguém queira trabalhar, mas porque os salários não compensam o esforço exigido, os riscos da atividade, o transporte, a alimentação e o tempo dedicado à função. Jornadas extensas, contratos instáveis, informalidade, ausência de benefícios e condições inadequadas de segurança ajudam a explicar a dificuldade de recrutamento e a rotatividade.

Também existem transformações demográficas e sociais. Jovens deixam pequenas cidades para estudar e não encontram motivos para retornar. Profissionais experientes envelhecem sem que uma nova geração seja preparada para substituí-los. Trabalhadores migram para atividades que oferecem maior estabilidade ou melhores perspectivas. Programas de transferência de renda costumam ser apontados de maneira apressada como causa da escassez, embora o benefício, em regra, não represente alternativa suficiente a um emprego digno. A questão central deveria ser por que determinadas vagas não conseguem atrair ou reter pessoas.

O poder público pode contribuir organizando esse encontro entre empresas e trabalhadores. Parcerias com o Sistema S, institutos federais, escolas estaduais e universidades podem oferecer cursos vinculados às necessidades produtivas de cada região. Municípios e Estado também podem estruturar bancos de oportunidades, apoiar transporte, estimular a formalização e cobrar condições adequadas de contratação. O setor empresarial, por sua vez, precisa examinar salários, jornadas, segurança e possibilidades de progressão profissional.

Styvenson apresentou propostas relevantes ao mencionar investimentos na construção civil, parcerias para ampliar serviços de saúde, o Porto-Indústria Verde e a atração de data centers. Teria contribuído mais para o debate se usasse a visibilidade da sabatina para provocar uma discussão madura sobre como formar, atrair e valorizar trabalhadores. Um senador pode articular recursos para qualificação, aproximar instituições e defender políticas capazes de elevar a produtividade sem retirar das pessoas a dignidade.

A falta de mão de obra não deve ser negada nem tratada como uma reclamação sem fundamento dos empregadores. É um desafio concreto. Mas justamente por ser real, não comporta explicações simplistas. O desenvolvimento do Rio Grande do Norte dependerá tanto da incorporação de tecnologias quanto da valorização de quem trabalha. Antes de concluir que o trabalhador não quer a vaga, é necessário investigar se a vaga, nas condições oferecidas, permite ao trabalhador construir uma vida melhor.