BUSCAR
BUSCAR
Patrimônio Histórico

Casa da Princesa Isabel vira alvo de disputa entre herdeiros

Companhia Imobiliária de Petrópolis pede reintegração de posse do segundo andar do casarão histórico ocupado por membros da família Orléans e Bragança
Por O Correio de Hoje
26/06/2026 | 14:10

Mais de 130 anos após o fim do Império no Brasil, a Casa da Princesa Isabel, em Petrópolis, na Região Serrana do Rio de Janeiro, tornou-se o centro de uma disputa judicial envolvendo descendentes da Família Imperial. A Companhia Imobiliária de Petrópolis, empresa responsável pela administração de bens da família e proprietária do imóvel, ingressou com uma ação de reintegração de posse para recuperar o segundo andar do casarão, atualmente ocupado por dois integrantes da linhagem dos Orléans e Bragança.

O processo foi protocolado em 28 de maio na 2ª Vara Cível de Petrópolis. Na ação, a companhia afirma que mantém sua sede no térreo da Casa da Princesa Isabel, localizada na Avenida Koeler, nº 42, no Centro Histórico da cidade, a menos de 100 metros da Catedral São Pedro de Alcântara. Já o segundo pavimento teria sido cedido em regime de comodato — empréstimo gratuito — a Francisco Humberto de Bourbon de Orléans e Bragança, bisneto da Princesa Isabel e sócio da empresa.

casa da princesa isabel 14 04 2025 12 43 021 4046 Copia
Casarão preserva jardins com camélias brancas plantadas pela própria Princesa Isabel - Foto: reprodução

Segundo a companhia, Francisco Humberto deixou o imóvel após o fim de seu casamento. No entanto, sua ex-esposa, Maria Cristina Schmidt Peçanha de Orléans e Bragança, e o filho do casal, Francisco Theodoro Peçanha de Orléans e Bragança, permaneceram residindo no local, o que motivou o pedido de reintegração de posse.

A empresa sustenta que o comodato foi concedido exclusivamente a Francisco Humberto e que, após sua saída, ofereceu aos ocupantes a possibilidade de permanecerem no imóvel mediante contrato de locação.

De acordo com os autos, Maria Cristina e Francisco Theodoro receberam uma notificação extrajudicial em março deste ano. O prazo para desocupação terminou em 18 de abril, sem que houvesse resposta formal. Na ação, a companhia afirma que, desde então, “os réus passaram a praticar esbulho possessório e exercer a posse de forma precária e resistida, ostentando flagrante má-fé, uma vez que a notificação sequer foi respondida”.

A Companhia Imobiliária de Petrópolis informa ainda que propôs um aluguel mensal de R$ 2,5 mil para a permanência dos moradores. Segundo a empresa, o valor está abaixo da média dos imóveis comerciais e residenciais administrados por ela na região central de Petrópolis, onde os contratos giram em torno de R$ 4 mil mensais.

Até o momento, a Justiça do Rio de Janeiro ainda não analisou o pedido liminar apresentado pela empresa, conforme informações do Tribunal de Justiça do Estado. Procurado, Francisco Theodoro Peçanha de Orléans e Bragança afirmou que “as alegações da Companhia Imobiliária de Petrópolis são unilaterais e serão tratadas nos autos, por meio da defesa técnica”. A Companhia Imobiliária de Petrópolis e o advogado Arthur Tostes também foram procurados, mas não se manifestaram.

O caso é mais um episódio das disputas patrimoniais envolvendo descendentes da Família Imperial. Na semana anterior, outro imóvel histórico localizado em Petrópolis, o Palácio Grão-Pará, também foi parar na Justiça. Na ocasião, Dom Pedro Tiago de Orléans e Bragança, trineto da Princesa Isabel, obteve liminar para ser reintegrado à posse da residência após relatar que havia sido impedido de entrar no imóvel. A ação teve como ré a própria Companhia Imobiliária de Petrópolis, que possui entre seus diretores Pedro Carlos de Bourbon de Orléans e Bragança, pai de Pedro Tiago e também descendente da princesa.

A Casa da Princesa Isabel é um dos imóveis históricos mais conhecidos de Petrópolis e possui tombamento federal pelo Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (Iphan). Em estilo neoclássico, o casarão conserva jardins com camélias brancas plantadas pela própria Princesa Isabel.

O imóvel foi alugado em 1874 pelo Barão de Pilar ao Conde d’Eu, marido da princesa. Dois anos depois, em 1876, o casal adquiriu definitivamente a propriedade. Foi na residência que nasceram os dois primeiros filhos dos dois.

A casa também guarda um dos registros mais emblemáticos da monarquia brasileira. Em 23 de maio de 1889, Dom Pedro II, a Princesa Isabel e outros seis integrantes da Família Imperial posaram para uma fotografia na escadaria principal da residência. O retrato, feito pelo fotógrafo Otto Hees, tornou-se o último registro da família em solo brasileiro antes da Proclamação da República, ocorrida em novembro daquele mesmo ano, quando a Corte foi enviada ao exílio.

Atualmente, além de sediar a Companhia Imobiliária de Petrópolis e servir de residência para parte dos descendentes da família, o imóvel abriga a exposição “Coragem e Fé”, composta por figuras em tamanho real produzidas em papel. A mostra é aberta ao público e cobra ingresso de R$ 30.