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Educação

Mudança na avaliação afeta desempenho do RN no Enem 2025

Estado não teve nenhum estudante entre os dez candidatos que alcançaram a pontuação máxima; especialistas apontam maior rigor na correção e desafios na formação dos alunos
Por Belita Lira, O Correio de Hoje
26/06/2026 | 16:13

O Rio Grande do Norte ficou sem representantes entre as redações nota mil do Exame Nacional do Ensino Médio (Enem) 2025, interrompendo uma sequência de resultados de destaque registrada nos últimos anos. Em 2024, o Estado teve uma estudante com pontuação máxima. Em 2023, foram seis redações nota mil, desempenho que colocou o RN entre os melhores do país. Desta vez, nenhum candidato potiguar aparece na lista dos dez estudantes que alcançaram a nota máxima.

O resultado acompanha um cenário de queda nacional. O Enem 2025 registrou apenas dez redações nota mil em todo o Brasil, o menor número desde a criação da prova e o segundo recorde negativo consecutivo. Em 2023, haviam sido 60 textos com pontuação máxima. O tema da redação foi “Perspectivas acerca do envelhecimento na sociedade brasileira”.

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RN ficou sem representantes entre as dez redações nota mil do Enem 2025 - Foto: agência brasil

Os dados foram divulgados pelo Instituto Nacional de Estudos e Pesquisas Educacionais Anísio Teixeira (Inep). Segundo o órgão, os autores das redações nota mil estão distribuídos entre Bahia, Ceará, Pernambuco e Rio de Janeiro, com dois estudantes cada, além de Alagoas e Rio Grande do Sul, com um representante cada.

Para a ex-secretária estadual de Educação e pesquisadora Cláudia Santa Rosa, a queda não pode ser analisada apenas pelo número reduzido de notas máximas. Ela avalia que a redução está relacionada tanto às mudanças promovidas pelo Inep nos critérios de correção quanto às limitações do modelo de preparação adotado por parte das escolas.

Ela afirma que considera mais relevante a quantidade de estudantes com notas acima de 900 do que o número de notas máximas, mas entende que a queda para apenas dez redações nota mil decorre do aumento do rigor na avaliação.

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Cláudia Santa Rosa atribui a redução das redações nota mil ao maior rigor – Foto: cedida

“Acredito que a redução drástica para apenas 10 notas mil reflita a mudança que ocorreu na régua de avaliação do Inep. Houve um redesenho nos seus critérios de correção para combater a homogeneização dos textos”, conta.

Segundo Cláudia, os chamados modelos prontos de redação perderam eficiência diante da nova metodologia de correção. “O tema da última edição exigiu um nível de maturidade social e leitura crítica que as fórmulas decoradas não conseguiram suprir, transformando a nota máxima em uma verdadeira exceção estatística.”

Para a pesquisadora, o cenário também evidencia fragilidades na forma como parte das escolas prepara os estudantes. “Quando o Enem muda sua dinâmica e o sistema educacional responde com uma queda generalizada, fica evidente que as nossas escolas estão ensinando os alunos a ‘passar na prova’ em vez de desenvolver competências cognitivas profundas e duradouras.”

Ela acrescenta que o ensino da escrita ainda não acompanha a evolução da avaliação. “Enquanto as matrizes de avaliação do Enem se modernizam para buscar inovação e autonomia intelectual, a maioria das salas de aula ainda está presa a metodologias tradicionais de produção textual.”

Cláudia Santa Rosa afirma ainda que muitos estudantes encontram dificuldades para elaborar textos autorais e propostas de intervenção consistentes. “Eles enfrentam grandes barreiras para estruturar um projeto de texto autoral, conectar repertórios socioculturais de forma legítima e formular propostas de intervenção consistentes.”

Na avaliação da pesquisadora, a desigualdade educacional continua sendo um dos principais fatores que influenciam os resultados. “O afunilamento do Enem penaliza de forma desproporcional os alunos da rede pública, que frequentemente sofrem com a falta de professores, infraestrutura precária e ausência de laboratórios de escrita. Em contrapartida, redes privadas de elite investem em plataformas de inteligência artificial para correção de redações, feedbacks individualizados e letramento cultural expandido”, conclui.

Em nota enviada à reportagem de O Correio de Hoje, a Secretaria de Estado da Educação, do Esporte e do Lazer (Seec) afirmou que o Enem reúne estudantes das redes pública e privada, razão pela qual os resultados não representam exclusivamente o desempenho da rede estadual. A pasta também ressaltou o desempenho alcançado no exame anterior.

“A Secretaria de Estado da Educação, do Esporte e do Lazer destaca que, na edição de 2024, o Rio Grande do Norte alcançou o melhor desempenho do país na redação entre as redes públicas estaduais.”

Segundo a secretaria, dados do Inep mostraram que o Estado registrou a maior proporção de estudantes oriundos de escolas públicas estaduais com notas iguais ou superiores a 950 na redação. “De cada mil participantes que cursaram o ensino médio em escolas públicas do Rio Grande do Norte e realizaram o exame, 7,7 obtiveram nota igual ou superior a 950.”

Já o secretário municipal de Educação de Natal, Aldo Fernandes de Sousa Neto, afirmou que o desempenho no Enem reflete toda a trajetória escolar do estudante e defendeu investimentos contínuos na educação básica. “Os municípios têm um papel fundamental, especialmente na alfabetização e nos Anos Iniciais do Ensino Fundamental, que são a base sobre a qual o estudante desenvolverá competências ao longo da vida escolar.”

Segundo ele, os resultados são influenciados por diversos fatores acumulados ao longo da formação. “Mais do que analisar um resultado isolado, precisamos fortalecer políticas públicas permanentes, com foco na aprendizagem, na formação de professores e no acompanhamento por evidências.”

Ainda de acordo com o secretário, Natal tem priorizado investimentos na alfabetização, leitura, escrita e raciocínio lógico. “Educação de qualidade se constrói com continuidade, colaboração entre os entes federativos e compromisso de longo prazo.”