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Papa Leão XIV

Papa Leão XIV critica “indiferença” diante da morte de migrantes em travessias para a Europa

Pontífice denuncia ação de máfias e cobra respostas mais humanitárias durante visita às Ilhas Canárias, na Espanha
Por O Correio de Hoje
15/06/2026 | 14:31

O Papa Leão XIV fez um dos discursos mais contundentes de seu pontificado sobre a crise migratória ao denunciar o que classificou como “indiferença” diante da exploração e da morte de milhares de pessoas que tentam chegar à Europa por rotas marítimas consideradas entre as mais perigosas do mundo.

A manifestação ocorreu no porto de Arguineguín, na ilha de Gran Canaria, durante a etapa final de sua visita à Espanha. O local tornou-se um dos principais símbolos da pressão migratória enfrentada pelo continente europeu por receber embarcações precárias que partem da costa africana em direção ao arquipélago espanhol das Canárias.

Papa Canárias Copia
Em visita às Ilhas Canárias, Pontífice homenageia vítimas de naufrágios - Foto: Reprodução

Em um gesto carregado de simbolismo, o pontífice lançou um buquê de flores ao mar em homenagem aos migrantes que morreram ou desapareceram durante a travessia do Atlântico. A cerimônia reuniu cerca de 1.800 convidados, entre eles imigrantes, equipes de resgate, representantes religiosos e autoridades espanholas, incluindo o primeiro-ministro da Espanha, Pedro Sánchez.

Durante o pronunciamento, Leão XIV dirigiu críticas às organizações criminosas que atuam no tráfico de pessoas e também à falta de resposta efetiva da comunidade internacional diante da tragédia humanitária.

“Hoje existem monstros que espreitam esses mares: máfias que traficam o desespero, traficantes que escravizam mulheres e crianças, e a indiferença de muitos que permitem que os pobres sejam engolidos pela exploração ou pelo esquecimento”, afirmou.

O discurso incluiu uma cobrança direta aos países europeus, frequentemente pressionados por organizações humanitárias a ampliar mecanismos de acolhimento e proteção aos migrantes.

“Não pode proclamar a dignidade humana e se acostumar com o Mediterrâneo e o Atlântico sendo cemitérios sem lápides”, declarou o papa.

Ao mesmo tempo, o líder da Igreja Católica defendeu uma abordagem mais ampla para o problema migratório. Segundo ele, a responsabilidade não recai apenas sobre os países de destino, mas também sobre os países de origem e de trânsito dos migrantes.

Leão XIV afirmou que as nações de origem devem trabalhar para criar condições de paz, justiça e desenvolvimento econômico capazes de reduzir os fluxos migratórios forçados. Já os países de trânsito, segundo o pontífice, têm o dever de proteger os mais vulneráveis e impedir que sejam capturados por redes criminosas de exploração.

A visita ocorreu em um contexto de agravamento da crise migratória na rota atlântica. Dados da Organização Internacional para as Migrações apontam que quase 1.200 migrantes morreram ou desapareceram em 2025 tentando alcançar as Ilhas Canárias.

A passagem pelo arquipélago também representou a concretização de um desejo do falecido Papa Francisco. Defensor da causa dos migrantes durante todo o seu pontificado, Francisco planejava visitar as Canárias, mas morreu antes de realizar a viagem.

O evento foi marcado ainda por relatos de pessoas que sobreviveram às travessias e às redes de tráfico humano. Uma mulher nigeriana contou ao papa que decidiu deixar seu país diante da falta de perspectivas e acabou vítima de exploração durante o percurso.

“Eu tinha que escolher. Viver sofrendo ou atravessar e arriscar tudo. Morrer tentando ou ficar e não ter nada. Escolhi atravessar. Durante a travessia, engravidei de um mafioso. Quando cheguei à Espanha, tiraram meu bebê de mim para me obrigar à prostituição”, relatou.

Outro depoimento veio de Mohamed Amjahdi, imigrante marroquino que chegou à Espanha há duas décadas e atualmente integra a Comissão Islâmica Espanhola. Ele destacou o trabalho desenvolvido por organizações ligadas à Igreja Católica no acolhimento de migrantes.

Segundo Amjahdi, a assistência prestada ocorre sem distinção de origem, nacionalidade ou religião.

Ao caminhar pelo porto de Arguineguín, Leão XIV recordou que o local recebe tanto sobreviventes resgatados no mar quanto corpos recuperados após naufrágios. Para o papa, a crise migratória não pode ser tratada apenas como uma questão estatística ou de segurança de fronteiras.

“Aqui estão pessoas resgatadas do mar e corpos sem vida retirados das águas”, afirmou.

Na parte final de seu discurso, o pontífice voltou a defender uma abordagem centrada na dignidade humana e nos direitos fundamentais dos migrantes. Segundo ele, mesmo diante de perdas materiais, violência e deslocamentos forçados, essas pessoas preservam direitos que não podem ser ignorados.

Os migrantes podem ser “despojados de quase tudo, mas nunca de sua dignidade” e possuem “sonhos que ninguém tem o direito de desprezar”, concluiu.

A visita reforça a posição adotada pelo Vaticano em defesa de políticas migratórias mais humanitárias e ocorre em um momento em que governos europeus enfrentam pressões crescentes para endurecer controles fronteiriços diante do avanço de partidos nacionalistas e anti-imigração em diversos países do continente.